sábado, 17 de setembro de 2016

PEDRA QUE ROLA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Solitária ela é, Doce a ela é o invisível sorriso de um anjo, Em seu isolamento, Sozinho e perdido é este planeta neste universo infindável, Pouco assistida ela está, Sussurra canções melancólicas, Acompanhando-se ao batimento do coração, Brilhando o anil, Florido, Da alma, Sem nenhum amor para vê-la aflita, Vagar morredoura e serena por entre estas vidas, Muito acompanhado está o cosmos, De incalculável quantidade de estrelas, Todas diferentes, Em dimensão, Nuança, Luminosidade, Atividade, Longevidade, Aos olhos dela, Unidas, Iguais, De uma só matiz, Uma visão romântica com a cor de um sonho, Arquipélagos de branca luz na imensidão de um mar negro, Guardando insuperável distância entre eles, Desconhecendo-se, Muito acompanhada está ela, De findáveis e reposições de existências, Todas desiguais, No corpo, Pele, Aura, Febre, Mortalidade, Aos propósitos de Deus, Crescidas, Multiplicadas, De sua única imagem, Religião oportuna contaminando sua fé, Gêneros humanos espremidos em grandes ilhas na imensidão de um mar azul, Guardando inevitável proximidade entre eles, Ignorando-se, Por conta própria ela está, Desconhecida, Sem endereço, Sem tempo para não trabalhar, Doze meses de cada ano, Vividos de árduos lavores, Vestem o vão nas sombras tristes deste mundo, E noutras partes putrefatas a céu aberto, Calça sandálias, Touca os cabelos lisos com simplicidade, Traja o vestido mais humilde, Orgulho jogado numa lata de lixo, Vasculhado para encontrar uma refeição, Encontrar uma esmola abandonada pelo mendigo, O auge é da humilhação, A escola da vida, O saber das ruas, Solitária ela está, Em chagas está a boca de sua personalidade, Inchados os lábios de sua dignidade, Dificultando a ingestão da sociedade, Talvez amanhã seja outro dia, Como todos os dias são, A terra girando rápida, Parada sob seus pés, O universo parado aos seus olhos, Expandindo-se com espantosa velocidade, Inquieta ela é, Uma pedra que rola, Não cria limo, Não esverdeia a água doce, Não tem sujidade verdoenga entre o ranger dos dentes, Não imunda o mundo, Não passa de um número ambulante na humanidade, Uma estrela catalogada.


MARAVILHAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

No mar da tranquilidade passo os dias em silêncio só na companhia de meus pensamentos atormentados, e de muito longe vejo uma criança grandona, filha da terra, jorrando água e gelo e trombeteando mãos às armas. 

No mar da serenidade passo meus dias sossegados, só na companhia dos vazios deixados por almas partidas, e de lá  o dominador do tempo infinito reina na era de ouro, como o soberano da preciosa beleza, o senhor dos anéis frios e fiéis. 

No mar da fecundidade passo meus dias conformada, só na companhia da lembrança de filhos desertados, e de muito longe vejo um homenzarrão, dono de universo, ensoberbecendo poderio com uma grande pinta vermelha. 

No mar da umidade passo meus dias em lamentações, só na companhia de arrependimentos que não me deixam dormir, e percebo que o separador do espaço é solitário como eu, entre o interno e o externo, parecido com uma estrela e usando um cinturão com buracos exageradamente espaçados. 

No mar da tempestade eu passo meus dias incompreendidos só na companhia de erros encontrados nas ingênuas intenções, e de muito perto vejo a morada dos deuses declarando guerra do pedestal mais alto. 

No mar da intelectualidade passo meus dias ensimesmados só na companhia de meus sonhos não realizados, enquanto a fonte da vida sopra os ventos do norte e ilumina a donzela do amanhecer. 

No mar da nebulosidade passo meus dias esgotados só na companhia da contagem regressiva para morrer, e há dentro de mim um caos do qual surge uma mãe terra com uma absurda potencialidade criadora de maravilhas que posso ver, mas não tocar.



CARTA DE AMOR


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

Sempre te amarei à feição do universo, Silente nas palavras e fulgurante no olhar, Inspiração para te escrever um verso, Incitação para te beijar, Sempre te amarei ao brilho de uma estrela, Com o calor intenso de uma gigante anil, Com o esplendor de uma supernova vermelha, Filetes luminescentes que escorrem de seu toque feminil, Sempre te amarei à luz do sol, Na toada de uma prece na meia-luz crepuscular, Na carícia da aurora ainda tenra sob o lençol, Na vontade de nunca mais te largar, Sempre te amarei à flor da terra, Iluminada pela lua que nos enamora, Acumpliciada com a paixão que nos encerra, Com um abraço que te aperta e um beijo que se demora.


O ÚLTIMO SURTO DE AMOR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 




Todos foram embora, Deixaram-nos sós, Levaram, Naquela imensidão de soberanos da escuridão absoluta, A vida sem horizonte, E apagaram o fogo do amor que ardia sem se ver, E nossa irmã que a nós se juntou, Movida por irresistível encantamento, Nos somou, Nos dispersou, Nos desequilibrou, E todos nós nos amalgamamos, Como rios descendo em carreiras desabaladas, Nos agarrando, Sem sussurro, A oásis que rebrilham no deserto, Enquanto os restos mortais de nossa fonte da vida combinaram seu tempo de ciranda com seu rodopio de bailarina, E nos deram as costas, Ocultando-se para sempre, Perdendo-se nas trevas, E nos prendendo a ela, Sem saber que sentimos frio, Que queimamos de febre, Sem o amor que nos acalma, Que nos endouda, Que nos eleva, E que nos abate, E nos vemos diante da estrela moribunda e negra, Que não brilha e nem aquece, E tantas outras que vão apagando suas luzes, E vagamos, Assustados, À deriva, Carregados pela caligem que se expande, Incertos e delgados, Cintilações que mal bruxuleiam pequeninas diante do abismal, Vogando num oceano sem fronteiras, À  mercê da Providência, Na esperança de que uma  nova eclosão de amor recomece de onde parou, Rezando para que isso tudo não seja o fim do começo, Para que o mesmo milagre que nos surtou volte a nos equilibrar, A nos reencontrar com Deus onde ele se perdeu e deve estar a nos procurar.

MEIO AMOR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Se você tivesse esperado um pouco
O tempo nem ficaria sabendo
O presente não teria passado
O amanhã estaria pelo meio

À primeira vista é o que se planta
O que cresce é magia
O que amadurece é paixão
O que se colhe e alimenta é amor

A palavra não dita machuca
A mal explicada destrói
O perguntar-se não morre
O imaginar-se enlouquece

O que sobra do alimento do pássaro
Cai no solo e brota de novo
Recicla a flora para a fauna
Traz de volta o mesmo fruto

Se você soubesse quanto amor há para se dar
Se você soubesse quanto o tempo sabe esperar
O passado ainda estaria presente
O amanhã estaria por inteiro



ESQUECER É UMA VIRTUDE




Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Aqueles dias que Denise tinha, A Pimentinha, Que não ardia, Só se escondia, Com lembrança mais remota que criança, Que nenhum adulto alcança, Nem o tio que contava histórias nas noites quando a vida estava suspensa no ar, Nem a tia-avó que voltava da morte para cantar, Para bater palmas para a menininha, Alegre saltando da escrivaninha, Crescendo ao lado de muito sofrimento, Escrevendo dentro de seu pensamento, Brincando com bola, Não indo tão bem na escola, Mas tão bem como um virtuoso compositor, De músicas de amor, Com palavras verdadeiras, Sempre em línguas estrangeiras, Sempre leal, Fugindo do mal, Enganando-se com o ideal, De uma família unida, De uma família falida, Pela convenção passiva, Pela incompreensão letiva, Pelas crianças que Denise precisava ter, Pelo pai que não podia morrer, Pelos amigos que poderiam ser, Omissos nas horas de servir, Pelos desconhecidos que conseguiam ver, Assistentes espontâneos por antevir, Todos aqueles dos quais agora Denise se despe, E dos novos com os quais se veste, Com os quais troca de nome, Mas não se comove, Não derrama uma lágrima, Não reserva em seu coração espaço para qualquer lástima, Passa a ser a Ariadne de Teseu, Um amor que a esqueceu, E a largou num labirinto, Cuja saída conhece por instinto, Jogando fora o novelo de linho, Porque traçou um novo caminho, Do qual ela nunca mais voltará, E nenhuma saudade se lamentará, Nenhum traje velho lhe será necessário, Nenhum farrapo novo lhe será precário, Nenhum elegante vestido negro cobrirá sua cinta-liga, Nenhuma blusa chique cobrirá sua desnuda barriga, Apenas uma curta veste vermelha, Apenas um batom que lhe assemelha, Nenhuma recordação lhe trará tristeza, Nenhuma inovação lhe trará alegria, Nenhum novo passo lhe dará qualquer certeza, O que vier de sua nova jornada será vivido a cada dia, Todas as viagens pelo mundo serão guardadas entre seus seios, Nenhuma pessoa que conheceu no mundo afetará seus anseios, Todos os ódios jazerão sob seus pés, Todas suas expectativas sofrearão um revés, Se lhe sobrar algum amor terá que esperar por uma nova vida, Se lhe sobrar alguma dor terá que esperar por uma verdadeira amiga, Porque romperá com o passado, E nada do que fez e foi será lembrado.