domingo, 18 de setembro de 2016

PARÁGRAFOS 133 A 146 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Meu daimon, tudo isso que você disse é muito bonito, mas são coisas de deuses que não vem ao caso. E também não tem esse negócio de eu sugar a luz dos outros e tampouco abreviar minha vida. Só quero viver em paz comigo mesmo!

Você deveria levar mais a sério o que eu lhe disse, Tilly. Não se trata de beleza. Procure meditar por algumas semanas sobre minhas tolices de deuses e depois venha ter comigo de novo.

Não, meu daimon, não tenho tempo para isso, não estou em paz comigo nem com o mundo. Não vou sossegar enquanto eu estiver diante desta situação conflitante, dividido entre duas alternativas difíceis e penosas. Quero continuar vivendo sem valores e sem dogmas, mas não sei como, se devo ou se consigo. Estou desesperado e, para mim, isso já se tornou uma questão de vida ou morte, você não percebe?

Bem, já que sua preocupação é assim tão mórbida, por que você não consulta os mortos?

Oras, meu daimon, eles não podem me aconselhar em nada. Quando aparecem é só em sonhos, mesmo assim não falam, e quando falam parecem que estão lendo um roteiro.

Sonhos! E o que dizem seus sonhos, Tilly?

Até coisas demais. Mas sempre em forma de charadas e quebra-cabeças que não consigo decifrar.

Então, o que você conclui disso tudo, Tilly?

Disso tudo o quê?

Os valores dos vivos, o silêncio dos mortos, seus sonhos enigmáticos.

Tilly calou-se, intrigado com palavras que não lhe eram estranhas, mas que nunca ouvira juntas formuladas numa pergunta como essa. Experienciara algo semelhante e intrigante num sonho que teve e ao qual sempre se referia como a enigmática trindade. Resolveu seguir o conselho de seu daimon. Procurou tranquilizar-se e permitiu-se dar o tempo necessário para meditar sobre tudo, não em algumas semanas, mas em alguns meses, e, quando, finalmente, invocou seu daimon para lhe dar uma resposta, falou com cuidado demasiado e até com um certo sentimento de culpa:

Sabe meu daimon, a maioria das pessoas costuma dizer que a vida é muito difícil. Quando alguém morre elas dizem: ‘finalmente descansou’ ou então ‘partiu dessa para uma melhor’. Mas será que a vida é assim tão difícil mesmo? Será que quando morremos realmente encontramos algo mais fácil? E essas pessoas que consolam os mortos com estas frases de efeito? Elas se não importariam de estar no lugar do falecido no caixão? Claro, que sim! Elas têm medo de morrer e enquanto murmuram esses alentos fiados com boca mole, no fundo, elas estão pensando ‘antes ele do que eu’. E do lado de lá, será que é melhor? Ninguém que morreu jamais voltou para nos contar. E esses que dizem conversarem com os mortos e que uma vida de esplendor os aguarda após a morte? Eles têm um medo que se pelam da morte e se desesperam mais do que aqueles filósofos baratos de velórios. Sabe, meu daimon, custou-me muito decidir te dizer o que vou lhe dizer. De tudo aquilo que você me perguntou eu concluo que é mais fácil explicar o que os vivos pensam que conversam com os mortos do que entender o que se passa num sonho e talvez eu encontre paz comungando apenas com o universo.

A última frase de Tilly foi um momento singular na existência do seu daimon. Seu pupilo proferiu as palavras mágicas que todo deus espera ouvir toda uma vida humana. É natural que o daimon de Tilly tenha se orgulhado tanto e encontrado ensejo para celebrar tal acontecimento, pois ele representa um passo decisivo em direção ao centro regulador do cosmos. O daimon de Tilly festejou e soltou fogos, porém soltou também pensamentos impróprios para deuses e que só são ouvidos na forma de impressões sonoras vindas da boca de humanos ébrios. Tais pensamentos emanados da aura de deuses raramente são aprisionados nas teias do espaço curvado pela massa, mas, para sorte dos leitores, os de daimon de Tilly lá se enroscaram acidentalmente e foram recuperados na íntegra e o seu teor é fruto de grande júbilo extravagante, quando o homem liberta a criança que existe dentro de si e quando um deus dá asas ao homem que plasma sua alma. 

Os espiritualistas estão mais próximos do purgatório do que os outros religiosos porque eles já fazem uma boa ação para cada vinte ruins. Já o inferno, com embaixadas, consulados e representações comerciais por toda parte, está comprometido, porque ele foi comprado pela igreja universal do reino de deus e seus rebentos evangélicos com dinheiro surrupiado dos ignorantes, pobres e fracos. Agora, se Onedin quiser dar uma colherada naquela sopa de merda terá que gastar uma nota preta. Os católicos continuam esperando o dia do juízo final que só virá daqui a cinco bilhões de anos quando o sol consumir seu combustível por completo e todo sistema solar desaparecer. Mas eles não atinam para essa demora, como também não atinam para os dois mil anos de desmandos. Os judeus vivem por dinheiro e o emprestam a juros desde o dia que uma espécie de símios desceu das árvores e perdeu o rabo porque, segunda a lei deles, ganhar dinheiro é o preço que eles têm que pagar ao deus Javé do Cifrão por tê-los transformado em hominídeos, mas um célebre rabino vem alardeando em uma certa comunidade judaica que um bom negócio hoje em dia é investir em gravatas de grife e as afanadas são as mais valorizadas. Os muçulmanos preparam uma guerra santa, uma revanche contra as cruzadas, mas é estranho que eles utilizem homens-bomba ao invés de mulheres-bomba porque para eles a mulher é apenas um objeto descartável, como uma camisinha que se joga fora depois de uma trepada. Talvez eles estejam pensando nas recompensas reservadas ao homem bom no paraíso: cem esposas para cada um. Deve ser por isso que eles poupam as fêmeas. Mas se fosse assim, mais lógico seria se cada homem-bomba carregasse consigo cem donzelas num ataque suicida. Os hindus são meio parecidos com os espiritualistas na teoria, com os judeus na prática e com os Africanos no sincretismo bramânico. O que atrapalha uma possível fusão dos três são as vacas e os macacos sagrados e a fome e as disparidades sociais epidêmicas que só perdem para o continente dos azulões. O povo do negro do carvão teve o corpo, a alma e a identidade saqueados pelos brancos cristãos e o que lhes restou de consolo foi o candomblé do terreiro, sem deus, nem céu, nem inferno. Os Asiáticos são estranhos e misteriosos. Não há olhos puxados e negros e nem peles lisas que possam uni-los. O âmbar não se mistura com o mostarda. Este não se dá com a tangerina que não respeita nem o açafrão e nem o limão. Estes dois têm ódio do ouro e este último tem preconceito contra todos os amarelos.




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MAGIA E PROVIDÊNCIA

e
 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Uma fada sussurrou-me que eu acordaria de uma noite mal dormida, mas não me assustaria, Um sonho ainda sonhado, 

Um carteiro assobiou-me notícias dentro de um envelope mal fechado, mas que eu não abriria, Um amor sem amado, 

Qual de vocês está tentando chamar minha atenção para algo que não entendo no mundo? Neste e no meu mundo, Qual de vocês está tentando perscrutar algum sentimento meu ainda insondável e profundo? Tão e pouco profundo, 

Um beija-flor pairou e deteve-se diante de meus olhos muito mais tempo do que deveria, Um agouro tão agourento, 

Um mágico tirou da cartola uma teresa de lenços somente com as cores que eu me adornaria, Um fascínio tão fascinante, 

Qual de vocês está tentando tirar o chão de meus pés que mantém-se equilibrados no mundo? Neste e no meu mundo, Qual de vocês está tentando desvendar meus maiores segredos que se escondem lá no fundo? Tão e pouco fundo, 

Um anjo apareceu em meu quarto e sentou-se ao meu lado apenas para me fazer companhia, Uma vida quase vivida, 

Qual anjo entre vocês perderia seu tempo com uma pessoa que nada mais espera do mundo? Neste e no  meu mundo, Qual anjo entre vocês perderia seu tempo com uma pessoa com um ferimento profundo? Tão e pouco profundo, 


Estou aqui por você e para você e por te querer até morrer, Morrer em você, Estou aqui por você e para você e por te querer até renascer, Renascer em você, Estou aqui por você e para você e por te querer até morrer, Morrer em você, Estou aqui por você e para você e por te querer até renascer, Renascer em você.



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AN EYE ON THE BLINK OF AN EYE


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)
Piso em ovos sem medo de me quebrar, Atravesso o braseiro sem medo de me queimar, Procuro o leão do dia para matar, E mais coelhos para meu único cajado acertar, Ando sobre águas sem medo de submergir, Em brancas nuvens sem medo de cair, Desafio a corda que foi roída pelo bamba, Desafio a corda que só se arrisca com uma caçamba, Como o pão do diabo sem medo de me amassar, Como o pão com banha sem medo de me apaixonar, Tragam-me o cachorro grande perdido no mato para brigar, Tragam-me o cachorro que se mata de tanto gritar, Não desisto nem que a vaca tussa, Nem que a galinha fique dentuça, Cutuco a onça com vara verde e faço-a tremer, Viro uma onça a curta distância e ponho-a para correr, Já que estou no inferno nada me custa dar um abraço no capeta, Se um dia chegar ao céu nada me custará dar a deus uma gorjeta.

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SÓ VOCÊ


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Só você  foi capaz de me levar ao desespero para excomungar todo meu destempero, Cair de joelhos e me esfolar, Deixar o sangue para cada lágrima estancar, Agora faça de mim o que quiser, O que puder, Nem tudo o que eu desejar, Nem tudo o que você pode dar, Ontem fui o filho pródigo que saiu para esbanjar e voltou sem nada para ofertar, Desnudou-se e tremeu de frio, Rangeu todos os dentes para cada acesso febril, Outrora me mimaram e me melindraram,  Elevaram-me num pedestal para me endeusar, Deixaram o apogeu para cada prosélito aclamar,  Agora tirem de mim o que quiserem, O que puderem, Quase nada do que sobrou, Quase nada do que sou, Hoje sou a ave queimada em ruínas sempre renascendo das próprias cinzas, Ainda de asas pesadas para poder voar, Escorrendo lágrimas para cada gota de sangue expurgar, Só você  foi capaz de não arredar o pé até renovar minha fé, Cair de joelhos para me fazer companhia, Compartilhar minha dor para desatar minha sangria, Agora deixe-me com o que mereço, Com o que careço, Com quase todo seu penhor, Com quase todo seu amor.  


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E O MUNDO FICOU COM ELES

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Nesta casa morou o menino que demorou para amadurecer, E logo tomou gosto pelos sonhos, Viveu com os pés fora do chão, Sem atinar para as nuvens que rodeavam sua cabeça, Um dia acordou para a realidade, Mas sua mente já estava viciada, Olhou à sua volta, E só então se deu conta de que estava impregnado de seus personagens oníricos, Identificado com todos, Como as máscaras de pai, Filho, Marido e profissional, Que todos admiram, Ele morreu sem nunca se conhecer, Sua casa está sendo engolida pelo progresso como sua consciência sempre foi pelas suas ilusões, Logo ao lado morou a menina que nasceu num circo, E não conseguia definir o papel que melhor lhe adequava, Lhe assustava a altura dos trapézios, Temia os leões e outras feras soltas no picadeiro, Transitou pela ilusionismo, Pelo malabarismo, Pela acrobacia, Arriscou-se na corda bamba, E um dia cansou-se de ser itinerante, Sem jamais descobrir sua verdadeira vocação, Morreu da mesma tristeza que o palhaço esconde do público, Sua casa sempre cheia hoje está vazia como sempre esteve sua alma por todos os lugares por onde passou, Do outro lado da rua morou o homem que demorou a aprender a nadar, E logo ele tomou gosto pela navegação, Remou contra a maré o tempo todo, Sem saber que jamais saía do lugar, Um dia avistou à sua frente terras longínquas, Mas seus braços já estavam cansados, Olhou à sua volta, E só então se deu conta de que estava longe de tudo, Distante de todos, Como no universo onde as galáxias distanciam-se umas das outras a velocidades espantosas todos os dias, Sem que ninguém perceba, Ele morreu dormindo em seu barco, Sua casa está abandonada como ele esteve a vida inteira.

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ELEFANTES NÃO ESQUECEM

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Mais de uma década e o telefone não toca, A culpa é do meu temperamento explosivo, Do tempo marcado por uma eternidade de segundos, Trancados do lado de fora de minha alegria de viver, Porque abandonei Deus, Faltei aos funerais, E às festas, Mesmo apaixonado por esta airada vida, Que não passa de um circo, Um dia sou a principal atração da noite, Noutro o faxineiro que limpa o picadeiro na primeira hora da madrugada, Cheio das volumosas necessidades deixadas pelos elefantes, E esses animais são os que mais me conhecem, Como todos itinerantes que encontrei, E frustei, Todos passageiros como nuvens, Eleitores de meu ostracismo em involuntária solidão, Na companhia de meu inseparável e salvador rock and roll, De quem não largo, Sem dinheiro para aposentadoria, Sem aquela gente que de mim dependia, Que de mim só herdou ojeriza, Porque minha felicidade sempre esteve com a validade vencida, Minha palavra nunca teve valor, A não ser monetário, Meu caráter perdeu-se na ignorância dos que só enxergam meu invólucro, Porque tentei fazer muitas coisas de uma vez, Nunca as terminei, E desaprendi umas poucas que sabia, Então vou no vai da valsa do macaco, Pulando de galho em galho, Trocando de esconderijo todas as noites, Feito equilibrista, Balançando na corda bamba de uma utopia sem princípio nem fim, Trocando a terra firme pelo palheiro da imensidão dos oceanos, Transformando-me numa agulha perdida para sempre, Na companhia de peixes, E a memória destes animais não dura mais que cinco segundos, E mesmo já tendo sido gato escaldado, Sem medo de água fria, Sou cismado, Temo que um inteligente golfinho me alcaguete no continente, Para tomar o lugar de um triste palhaço que perdeu a graça, E meu cheiro desperte os elefantes, E esses animais nunca esquecem, E avisam a todos que procuram gente para odiar, Que posso ser encontrado no mar, Por isso me apego às últimas águas que me protegem do mundo, Destruindo todas as pistas, Certo de que um dia ainda pego o jeito de me aguentar firme como um pária da sociedade, Conquanto, para todos os castos, Puros e virtuosos, eu siga sendo o fruto amargo da árvore da civilização malsã.

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VIDA INTERROMPIDA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Acompanhei seu nascimento, seu crescimento e seu pranto, tão insegura e sofrida quanto você. Fiz-lhe companhia quando você refugiava-se debaixo de uma mesa, mas sem poder te tocar. Sentia-me solitária e perdida na escuridão que lhe apavorava, e tateava as trevas para te encontrar e ser acariciada por sua aura. Quando você agonizava nos pesadelos de seu terror noturno, permanecia paralisada, sem poder nem mesmo orar por você em pensamento. Tudo era triste e incerto. Nunca faltaram pessoas ao seu redor, porém faltaram-lhes compreensão e fraternidade. Quem me dera poder fazer todos entenderem que você tinha problemas que não sabia resolver sozinha. Quantas vezes pedi a Deus para deixar de ser apenas um anjo protetor e poder te ajudar a se curar, a realizar seus sonhos, a completar seus planos idealizados. Deus sempre esteve ao teu lado e Ele nunca deixou de ouvir suas preces, porque eu também orava ao seu lado por nós duas. Quando você saía correndo de medo, eu saía atrás de você e quando, finalmente, te alcançava, estava tão exausta que sentia vontade de deitar-me na sua alma. Por que tanta agonia e tanta amargura? Tenho certeza que seu radicalismo e sua rebeldia estão perdoados porquanto eles nunca estiveram destituídos da ingenuidade de uma criança enferma que você sempre foi e sempre será. Por que tanto talento desperdiçado, tanto altruísmo em vão? Quantas vezes pedi a Deus para deixar de ser um anjo, poder interferir em Seus desígnios, ser Seu enviado e fazer um milagre, lhe dar a oportunidade de fazer uso de sua mente brilhante, mesmo em condições tão anômalas. Não posso dizer-te que nunca é tarde para recomeçar, porque a vida é um acidente e pode ser-lhe tirada a qualquer momento. Eu, também, sou tão frágil como você e posso ser subtraída subitamente sem que eu perceba. Continuarás triste, mas não morrerás triste. Sempre te segui e sempre te seguirei. Gostaria muito de te aplaudir por grandes feitos alcançados, mesmo que você não pudesse me ouvir, mas neste momento só posso segurar suas lágrimas em minhas mãos e juntá-las às minhas. Tantas fatalidades e decepções podem ter obstado sua vida, mas jamais meu amor por você.

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SINOPSE POÉTICA DO CONTO 'NIMES' DO LIVRO A TERRA DOS LOTÓFAGOS


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Nimes me espera na terra e no mundo de conhecimento absoluto, Na antiguidade, No atemporal e em seu antagônico reduto, Terra de mulatos trabalhadores, Terra de guerreiros  conquistadores, Uns não sabem voar, Outros ensinam a lutar, Uns deixam vestígios de suas construções, Outros dispensam ajuda nas suas labutações, Nimes me vê chegar pelos seus céus carregados, Imiscuir-me nas cores de seus habitantes acinzentados, Sobrevoar a praia trevosa e temível, Cirandar com as crianças no tangível, Oferecer-me às mulheres laboriosas, Convencer suas vistas frias e caridosas, Nimes me vê chegar pelos seus caminhos modificados, Imiscuir-me nas cores de seus habitantes modernizados, Circundar a arena sangrenta e implacável, Cirandar com lembranças do intocável, Oferecer minha admiração ao passado glorioso, Guardar na memória seu atributo menos bondoso, Uns se dizem fluminenses, Outros romanos gauleses, Uns conheceram a morte e viveram, Outros dominaram a vida e morreram.

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THE BEATLES: ONDE VOCÊ ESTAVA? BETTE MIDLER, CANTORA, ATRIZ, MODELO E COMEDIANTE AMERICANA

Edição de texto de autoria de Alceu Natali, baseado em depoimento de Bette Midler à revista Rolling Stone. Direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Eu fazia faculdade no Havaí quando comecei a ouvir os Beatles pela primeira vez. Lembro-me de ter-me interessado pela música deles, mas não fiquei entusiasmada. No entanto, extasie-me quando ouvi o álbum RUBBER SOUL. No verão de 66, eu estava trabalhando com um tipo de grupo itinerante de atores e o nosso gerente de palco tocava o RUBBER SOUL dia e noite. E este álbum acabou por conquistar-me, liberou algo em minha imaginação que eu nunca tinha vivenciado na música popular. Lembro-me disso como se fosse ontem. Confesso que me rendi ao talento dos Beatles com este álbum. Era uma avassaladora onda de entusiasmo e ideias originais. Depois desta experiência com RUBBER SOUL, resolvi abandonar o teatro, comecei a cantar em bares e tornei-me uma cantora e compositora. Eu  nunca fui do tipo de pessoa de se engajar em qualquer modismo passageiro. Mas os Beatles eram diferentes. Vieram para ficar para sempre. Eles tinham algo mais e dominaram-me. Eu sempre ficava na defensiva, porque eu era cínica. Ficava à margem de tudo, só observando. Nunca me entregava ao fascínio de figuras populares. As celebridades eram sempre maquiadas com uma grossa camada de artificialismo. Mas os Beatles não. Eram autênticos. E vejam só, hoje sou uma celebridade no mundo, por causa de RUBBER SOUL, por causa dos Beatles. Enquanto isso, o garoto de apenas 15 anos, lá no hemisfério sul, sacava o que a celebridade do norte não percebeu. Os Beatles eram um divisor de águas. Com o aparecimento deles o mundo passou a ter dois tipos de músicas: a música dos Beatles e o resto. Cada vez que o garoto ouvia RUBBER SOUL ele não tirava os olhos da capa do álbum, procurando algum aspecto singular que a diferenciasse das demais. Será que são estes narizes alongados por entre os olhos? Eles parecem ser diferentes dos outros seres humanos! E os Beatles criaram um divisor de águas em sua própria música. Seus cinco primeiros álbuns marcaram a chegada deles à lua, com composições cativantes, românticas, de letras ingênuas que enlouqueciam as adolescentes. Mas eles queriam ir mais longe, muito mais longe, ir até a Marte. Mas como fazer esta transição sem privar a juventude feminina das cantigas de amor acostumadas ao luar? Como empreender uma viagem mais longa e arriscada sem comprometer a popularidade que conquistaram? Resolveram fazer um teste: mesclar baladas fáceis de serem lembradas e cantadas com letras e arranjos mais complexos, mais intelectuais, mais introspectivos, mais estranhos que Marte. E o garoto menor de idade já enxergava tudo isso. HELP é o último álbum romântico. RUBBER SOUL marca a transição do romântico para o psicodélico que começou com o insuperável REVOLVER. É por isso que o garoto achava um barato John cantar a lírica e melosa GIRL e, ao mesmo tempo, a enigmática NORWEGIAN WOOD. O garoto sacava a enorme diferença entre a inocente YOU WON’T SEE ME e a poderosa DRIVE MY CAR de Paul. E se todos sacaram o que garoto descobriu em tenra idade sabem que os Beatles não foram só a Marte, mas deixaram o palco dos planetas internos e externos e acabaram saindo do sistema solar.


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