terça-feira, 20 de setembro de 2016

HILDA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Você era a mulher do menino, Que dançava para mim como chama do candeeiro, Soprada ao vento, Deslizando meus inocentes anos por entre olhares prematuros, Pátria de meus desejos, Santuário de sua ternura e beleza que desconheciam meus segredos, Guardados a anseios pelos meus pensamentos, Sacudidos frouxamente na minha mente, Como suave brisa que entra por uma janela deixada aberta, E que se fecha ao meu silêncio, Ao ritmo de seus alegres movimentos, Embalados por música da terra, De seus meigos sorrisos, Acalentados por murmúrio do mar, Todos aprazíveis à minha alma, Todos expressões de uma face que exterioriza uma infinidade de sentimentos, Os meus distantes dos seus, De muita adoração por você, O seus de me quererem também, Como queriam a todos os meninos como eu, Porque fostes o beijo das mulheres, E eu o sofrimento supérfluo de minha inocência, Que você, Sem saber, Compensava, Com seu amor de mulher, E hoje converso saudoso com minha imaginação, Como um menino que uma mulher gostaria de ter, Como um menino leitor que gostaria de ler, Para uma mulher que não soubesse ler, Histórias que valeriam a pena escrever, Porque o pouco tempo que estivemos próximos, Eternizou em meu espírito as mais doces reminiscências longínquas à saudade de uma criatura adorável que tive o prazer de conhecer.

NOSSAS MÃES

 MINHA HOMENAGEM AO POETA NATHAN DE CASTRO, MESTRE DOS SONETOS, MORTO EM 2014, AOS 60 ANOS
Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Mãe Alice, chega-lhe com lastro
Este poeta amigo e mestre do soneto
Junte-se ao orgulho de mãe Castro
E cantem seus versos em dueto

Na calada de eternas esperanças
Só os ecos de suas vozes respondem
Suspiradas de doces lembranças
Que as almas saudosas não escondem

Um céu mais poético nos espera
Um companheiro da arte da palavra
Em ti todo nosso louvor encerra

De seus quartetos se tira presságios
De Nossas Mães filhos da terra
De seus tercetos novos adágios

RENOVAÇÃO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Chorou o universo quando acabou
Seu pranto ecoou no infinito
Encontrou-se com seu rugido de nascença
Consolaram-se os dois
Criaram um novo canto
Amálgama da concepção
Com o remanescente do nada
Aos poucos se distanciaram
Por quase uma eternidade
Um a emudecer
Outro a soluçar
O vazio confessou seu pesar
Pelo fim inexorável e esperado
Enlutou por quase uma perpetuidade
Até chegar a hora de voltar a obrar
Juntou todos os invisíveis do umbral
Deu-lhe um casulo protetor
Inflou-o até explodir
O berro sibilante do recém-nascido
Abafou os últimos sussurros de seu antecessor
Acordou toda a escuridão
Ofuscou-lhe os olhos com um clarão


ENCARNAÇÃO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Adiemus, Adiemus!
Aproximem-se todos
Vocês que são da Itália e de Portugal
Querem filhos franceses ou brasileiros?
Abram os olhos porque vocês já estão no paraíso
Abençoada seja esta terra que vos acolheu


Adiemus, Adiemus!
Entrem numa casa de espanhola sem a filha saber
Perguntem às mães, às avós e aos seus cães vivos e mortos
Querem ilusionismos houdinianos  ou cândidas adivinhações?
Mantenham os olhos fechados porque vocês estão dentro de um sonho
Abençoado seja este sono que vos repousa


Adiemus, Adiemus!
Ousem intrometer-se num enterro da aristocracia negra em Paris
Peçam para deportar vosso caixão do velho para o novo mundo
Querem filhos submissos ou libertos?
Abram os olhos porque a escravidão foi abolida
Abençoada seja esta miscigenação  que vos contemplou 


Adiemus, Adiemus!
Pasmem com o veludo púrpuro que forra todas as paredes
Digam adeus às aulas de balé e língua estrangeira
Querem filhos de reis ou de trabalhadores?
Fechem os olhos para os que vos deserdaram 
Abençoados sejam os que a vós se irmanaram


Adiemus, Adiemus!
Cantem com mãos erguidas ao céu
Façam estalar todas as castanholas das ciganas espanholas
Querem dançar flamenco e baião ao mesmo tempo?
Abram os olhos para o verde exuberante
Abençoados sejam o azul e o amarelo de nossas bandeiras 


Adiemus, Adiemus!
Deixem os céus tempestuosos
Venham para os solos férteis
Seus filhos são todos estrangeiros
Embarquem nos mesmos navios negreiros
E aportem na água, na terra e no fogo prometido aos mortais


ALELUIA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


O que do mais carente grado para vencer mais esse intransponível obstáculo ainda posso receber? Mais um milagre? Posso travestir-me de madeira e de cera, Me oferecer a todos santos em cumprimento de mais promessas, As promessas de vida no meu coração de Tom Jobim? Coração é só coração, E o meu sentimento, Só vem com a imaginação de Fernando Pessoa? A vida é só vida, A minha, Tumultuosa e anelante, Sangra, Mas atrás de minha fé, Trilhando ogros caminhos, Ensanguentados aos meus pés, Avultam, arrastando-se pelo chão, Dois anjos alados, Esforçando-se para erguerem-se contra minhas tristezas e incertezas, Abençoando minha cabeça sentenciada a trabalhos forçados, Encrespando minhas liras de festões engrinaldadas, Esvoaçando com suas auras meu orgulho de grã diadema de bastas flores nos meus ombros, Quem me dera minha alma nunca se envenenasse de malevolência contra quem quer que seja, E antes fosse servindo a todos como pudesse, Através das desventuras do meu destino e de uma longa vida, Saindo destes dias melhor acompanhada, E Anoitecendo com ela sempre lavada.

PALAVRAS PARA NÃO CHORAR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

As palavras do céu noturno, Só com estrelas temporárias, Bocejando dormentes, Numa criminosa indiferença, Por supremo sofrimento moral, De que são as únicas testemunhas, Alojam-se no corpo e na alma, E deles fazem campos de provas, Que se estendem por terrenos acidentados, De muitas e frequentes lombas, Precipitando declives abaixo, E não param nem além dos chorões, Elas querem minhas crendices, São mortas e vivas em minha vida,  Elas querem o lume de meus olhos perdidos, Pasmos e trementes, Querem a pálida cor de minha emoção, De aspecto moribundo, Mas o sangue que tenho em minhas veias, Não é apenas água chilra, Ferve e espuma junto ao mar, Elas saem em meu encalço, Pensando que estou fugindo, Porque o céu e o vento me favorecem, Tropeço e caio para lhes facilitar, Ofereço meu coração para um teste nuclear, Ele segue batendo, Forte como um trem, Mas seu balanço já não é tão macio, Elas querem me levar ao cadafalso, Na calada da noite, Úmido e úmida, Sou dado como assassino frio e feroz, Não é necessário me matar, Podem me comer vivo, Adoráveis são as palavras de Amanda, Jamais ter praia ensolarada, Jamais ter amor de graça, Ser levado pelo caminho por onde o desprezo anda, Praia sempre nublada, Ela me pergunta, Se tenho ódio da desgraça, Se tenho alguém por perto, Se tenho autopiedade, Se estou sempre só ou mal acompanhado, Ou exilado num deserto, Se ainda tenho lugar para uma amizade, Tenho paz de espírito com uma arma apontada em minha consciência, Não preciso ser surpreendido, Contem até 10 para puxar o gatilho, Adoráveis são as palavras de Larissa, Jamais ter qualquer doença diagnosticada, Jamais ter vontade de trabalhar, Ser levado pelo caminho por onde a preguiça anda,  Sempre dormir demais e acordar em hora atrasada, Meu corpo sobrevive à base de soro, Uma arma biológica é testada em minha aura, Ela me pergunta que espírito mora neste invólucro, E descobre um pobre indigente, Com o avesso encouraçado de morfina, É perda de tempo preparar uma eutanásia com uma ceia, Podem retalhar-me enquanto estiver consciente, É perda de tempo blindar minha visão, É suficiente permitir que eu abra um livro e leia uma página e meia.


SAMARITANISMO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Ela veio ao mundo sob um signo mofino, Amaldiçoou-lhe o destino, Com chagas que mutilam seu corpo e gangrenam sua alma, É maldita por ser a lazarenta dada à luz num dia sombroso, Pelo ideal de vida perdida, E pelo amor que morreu sem ter nascido, Isolada em moradas morféticas, Suspiradas das mais impossíveis esperanças, Longe do calor humano, Próxima da morte que a mantém cativa, Traja vestes maltrapilhas, Tal qual seu rosto dilacerado, Para manter à distância sua maldição, Carrega consigo um som já estragado para anunciar sua aproximação, Passa muitas horas que marcam fundo, Feitas de eternidades de segundos, Cujas chagas extinguem-lhe a voz, Apagam-lhe a visão, E a fazem errar por caminhos inadvertidos e proibidos, Provocando nos que vêm em sentido contrário, Repugnância e revolta, Pretexto imediato para uma execução, Mas de repente, Abre-se diante dela algo como uma janela, E ela vê surgir da escuridão uma inesperada luz, Feita de paz celestial e fraterna, Um bom samaritano que a toma nos braços, Beija-lhes as feridas abertas e ensanguentadas, E ressuscita-lhe o amor que havia morrido, Pondo um fim ao seu estado mortificado, Extirpando-lhe da mente os clamores silenciosos que a faziam sentir-se com se nunca tivesse nascido.