terça-feira, 20 de setembro de 2016

HILDA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Você era a mulher do menino, Que dançava para mim como chama do candeeiro, Soprada ao vento, Deslizando meus inocentes anos por entre olhares prematuros, Pátria de meus desejos, Santuário de sua ternura e beleza que desconheciam meus segredos, Guardados a anseios pelos meus pensamentos, Sacudidos frouxamente na minha mente, Como suave brisa que entra por uma janela deixada aberta, E que se fecha ao meu silêncio, Ao ritmo de seus alegres movimentos, Embalados por música da terra, De seus meigos sorrisos, Acalentados por murmúrio do mar, Todos aprazíveis à minha alma, Todos expressões de uma face que exterioriza uma infinidade de sentimentos, Os meus distantes dos seus, De muita adoração por você, O seus de me quererem também, Como queriam a todos os meninos como eu, Porque fostes o beijo das mulheres, E eu o sofrimento supérfluo de minha inocência, Que você, Sem saber, Compensava, Com seu amor de mulher, E hoje converso saudoso com minha imaginação, Como um menino que uma mulher gostaria de ter, Como um menino leitor que gostaria de ler, Para uma mulher que não soubesse ler, Histórias que valeriam a pena escrever, Porque o pouco tempo que estivemos próximos, Eternizou em meu espírito as mais doces reminiscências longínquas à saudade de uma criatura adorável que tive o prazer de conhecer.

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NOSSAS MÃES

 MINHA HOMENAGEM AO POETA NATHAN DE CASTRO, MESTRE DOS SONETOS, MORTO EM 2014, AOS 60 ANOS
Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Mãe Alice, chega-lhe com lastro
Este poeta amigo e mestre do soneto
Junte-se ao orgulho de mãe Castro
E cantem seus versos em dueto

Na calada de eternas esperanças
Só os ecos de suas vozes respondem
Suspiradas de doces lembranças
Que as almas saudosas não escondem

Um céu mais poético nos espera
Um companheiro da arte da palavra
Em ti todo nosso louvor encerra

De seus quartetos se tira presságios
De Nossas Mães filhos da terra
De seus tercetos novos adágios

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RENOVAÇÃO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Chorou o universo quando acabou
Seu pranto ecoou no infinito
Encontrou-se com seu rugido de nascença
Consolaram-se os dois
Criaram um novo canto
Amálgama da concepção
Com o remanescente do nada
Aos poucos se distanciaram
Por quase uma eternidade
Um a emudecer
Outro a soluçar
O vazio confessou seu pesar
Pelo fim inexorável e esperado
Enlutou por quase uma perpetuidade
Até chegar a hora de voltar a obrar
Juntou todos os invisíveis do umbral
Deu-lhe um casulo protetor
Inflou-o até explodir
O berro sibilante do recém-nascido
Abafou os últimos sussurros de seu antecessor
Acordou toda a escuridão
Ofuscou-lhe os olhos com um clarão


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TE VEJO EM SETEMBRO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)





Te vejo em Setembro quando o verão deixa o hemisfério norte e se põe a caminho do sul, minha adorada, e para você estou voando, pátria amada, fugindo das folhas caídas, pegando um resto de frio acalorado, vendo as flores preparando-se para desabrochar. Do meu lado há um professor de educação física, dos tempos do chicote para menos de 300 abdominais de uma só vez. Ele faz uma oração a Santo Egídio antes de o avião decolar. Parece uma corça que come desconfiada na relva sossegada onde o leão está longe, mas não descarta a remota chance de aparecer. Um sujeito alto perambula pelos corredores procurando seu assento. Tem uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Não é turista. Deve ser repórter, pois veste um colete de lona cheio de bolsos carregados. Encontra um lugar ao lado de um soldado cuja farda toda azulada lembra-me da velha guarda civil dos meus tempos de criança e respeito pelos cidadãos. A autoridade que deve proteger também pede proteção. Ele fala com Santa Dorotéia, própria da estação que está por vir. Sua prece é fervorosa e convence até Crista e Calista. Atrás de mim duas pessoas conversam sobre a fauna e a flora amazônica. Um é biólogo e ressalta o grande número de animais ainda desconhecidos pelo homem. O outro é farmacêutico e fala das muitas plantas medicinais raras que são contrabandeadas para o exterior. A aeronave desgruda do chão e os dois interrompem a conversa instantaneamente. Sobra apenas uma dupla de murmúrios parecidos com canto gregoriano com redutor de ruído Dolby. Decifro as palavras balbuciadas e delas vêm São Moisés e Santo Herculano. Eu não sabia que existe santo com este nome. Quantas pessoas rezam para Moisés? Quantos sabem que Herculano foi um soldado romano? O sujeito do meu outro lado é gentil e se apresenta, mas logo sai dizendo que é um alfaiate. Por que alguém em pleno ar precisa dizer que é alfaiate? Será que estou tão mal vestido com minha calça cargo, camiseta de cinco dólares e chinelo e estou precisando de uma faxina indumentária? O alfaiate logo se volta para o passageiro sentado no último banco da fileira e arrisca: Aposto que você é administrador de empresas. Há quem diga que quem é formado em a.ministração não é formado em nada, mas será que é tão fácil assim identificar um administrador? O alfaiate não me perguntou sobre minha profissão, e eu sou administrador, ou seja, não sou nada, e o hipotético administrador junto à janela nada respondeu. Manteve-se imóvel, imerso em sua reza a São Zacarias. E Zacarias, tornou-se santo só porque era primo de Maria? Se ele é santo, então sua mulher, Isabel, deve ser também. Da boca do inerte só saiu o nome masculino, solene, respeitoso, como se estivesse cantando o hino nacional pela primeira vez, faltando apenas soltar o grito de independência ou morte. Os avisos de apertar o cinto de segurança foram apagados. Levanto-me para esticar as pernas. Estou gordo e não aguento ficar sentado num apertado cubículo. Vou ao banheiro e fico andando pelos corredores antes do serviço de bordo começar. Há muita gente descontraída e muita gente apreensiva, e com fome também. Uma mulher diz a outra: Sou alfabetizadora. Ela quis dizer ‘professora’. A outra responde: Sou cuidadora de animais. Ela quis dizer ‘veterinária’. A primeira diz: Sou devota de Santa Regina. A segunda responde: E eu de Santa Anastácia. Outra mulher no assento de trás cutuca as duas e diz: Prazer, sou velocista e devota de São Adriano. Não sei o que ela quis dizer com velocista. Motociclista? Piloto da fórmula Indy? Corredora dos 100 metros sem barreira? Perguntei-me quantos tipos de profissionais pode-se encontrar num voo com centenas de humanos. Um caixeiro viajante? Um serventuário? Um oficial  da justiça? Um cabeleireiro? Um impressor? Continuo minha andança e passo por um homem solitário lendo um jornal com tanta curiosidade e tanto pasmo que parece estar lendo o primeiro períodico do país. De repente, turbulência! O avião começa chacoalhar, a dançar frevo. A comissária pede a todos para afivelarem seus cintos e permanecerem sentados. Tento voltar para meu lugar aos trancos e barrancos, jogado pra lá e pra cá. Uma mulher segura um terço com uma cruz e abre o bico: Minha Santa Pulquéria, ajuda-nos, por favor! Eu não estranho nomes como este porque conheci um sujeito chamado Vazinton. A intenção do pai dele era dar-lhe o nome de Washington. O que eu estranho é um piloto anunciar para todos que estamos perdidos no meio de uma tempestade, mas que o operador de rastreamento em terra já foi avisado! São Jacinto, grita outra mulher, faça esta tempestade parar. Um homem ao lado dela fala manso: Não se perturbe, mulher, estamos sob a proteção de São Roberto Belarmino e nada vai nos acontecer. E a mulher ao lado dela arremata: E de Santa Dulce também. Estranho também é um jovem tranquilo em meio a tanto desespero tirar uma flauta da bolsa e começar a tocar aquela música SEE YOU IN SEPTEMBER. Não resisti e perguntei-lhe: Por acaso você é músico, devoto de São Francisco ou coisa parecida? E ele responde: Sou musicoterapeuta, quer ser meu cliente? Com todo respeito à serenidade do rapaz, a única música que acalma meu espírito é a britânica. A comissária vem atrás de mim e me pede para voltar urgentemente ao meu assento, mas não deu tempo. A borrasca parou, a aeronave se aprumou e o piloto avisou: Graças a São Geraldo nos livramos do pior. Um passageiro grita: Não foi não, foi graças a São João Crisósteomo. Outro retruca: Nada disso, foi graças a Nossa Senhora das Dores. E uma mulher ainda arruma fôlego para discordar: Gente, foi São Cornélio, ele nunca falha. Quando voltei ao meu assento percebi que o conjecturado administrador havia começado a falar com o alfaiate e eu entrei na conversa. O sujeito com cara de administrador começou a fazer conjecturas. Creio que este problema de temporal a dez quilômetros de altura tem a ver com a falta de preservação da camada de ozônio. É preciso que haja uma compreensão mundial sobre o assunto. Todos os países estão preocupados apenas com seus símbolos  nacionais, mas não pensam de forma global, de forma planetária. Interpelei-o: Que mal lhe pergunte, qual é sua profissão? E ele respondeu: Por acaso tenho cara de administrador? Respondi que não. E ele completou: Sou teatrista e devoto de São Zacarias, e o senhor? Para agradar gregos e troianos, judeus e samaritanos, eu disse: Embora não pareça, sou administrador e devoto de Deus, portanto sou devoto de todos os santos. Mas o teatrista, e acho que ele quis dizer ator de teatro, cobrou: Quais são seus favoritos? Fiquei numa saia justa, mas nestas alturas, com tantos nomes exóticos pegando carona no avião, arrisquei: São Panfilo, São Januário, São Maurício e muitos outros. Mas ele continuou cobrando: Nenhuma santa? Claro que sim, Santa Fausta, Santa Ifigênia, Nossa Senhora das Mercês e várias outras. Antes de o teatrista fazer mais uma pergunta, pedi licença para ir ao banheiro, mas na verdade saí só para deixa-lo por conta do alfaiate. Antes da tempestade havia uma mistura de descontração e apreensão, agora havia muito alívio e falação. Lembrei-me de um amigo que é agente de viagens e que me tranquilizava quando eu lhe perguntava se a companhia aérea que ele escolheu era segura. Até agora, que eu saiba, nenhum avião desta linha aérea caiu. Pior que isso é você ouvir: Não se preocupe, uma avião nunca cai no mesmo lugar duas vezes. Nas minhas perambulações pelas alas, resolvi juntar-me às arengas. Prazer, sou administrador e devoto de São Firmino, e o senhor? Mucho gusto, sou gaúcho, funcionário municipal aposentado prematuramente por deficiência física, tornei-me um fazendeiro, só planto árvores e sou devoto de São Cosme e Damião. O simpático moço sentado à frente ouve nossa conversa e se antecipa: Sou devoto de São Vicente de Paula e contador. Contador de histórias?, perguntei. Não, apesar de jovem, já sou formado em ciências contábeis. Outro mais atrás completa: E eu sou devoto de São Venceslau e soldador. Vai seguir a carreira de soldado?, perguntei. Não, trabalho com máquinas de solda. Eu queria parar com minhas gozações, mas outro nas proximidades emendou: Sou devoto dos Santos Miguel, Gabriel e Rafael e sou técnico industrial e de edificações. Fui salvo pelo carrinho pedindo passagem para servir o jantar. Por sorte, nas imediações, havia um assento vago. Definitivamente, não queria comer entre o alfaiate e o teatrista. A comissária fez a pergunta clássica: Frango ou carne de vaca? A mulher do meu lado pergunta se tem sorvete. Estamos na classe econômica e ela vai ter que se contentar com um pote de geleia na sobremesa. Depois de comer, preciso levantar, andar e papagaiar. Prazer, sou administrador e devoto de São Jerônimo, e o senhor? Sou ateu e relação pública no departamento de trânsito. Um  sujeito logo à frente me diz que é surdo, mas não mudo, e faz leituras labiais e me explica que é encanador, devoto de São Lino e que me acha muito engraçado. Eu não deixo por menos: Você colhe canas? Ele ri e me pergunta se estou viajando a trabalho. Eu só viajo a trabalho. Não tenho este luxo de fazer turismo internacional. Um senhor idoso parece ser médium e ler os pensamentos dos outros: O senhor tem alguma coisa contra Isabel ser santa como seu marido Zacarias? Me desculpe, mas eu não disse isso em nenhum momento e respeito sua devoção à Santa Isabel. Sou devoto de Isabel, mas não da santa. De qual Isabel o senhor está falando? Da Isabel que proclamou a lei do Ventre Livre. Por acaso o senhor é médium? Não, sou anunciante. Um profeta? Não, faço anúncios em jornais e revistas. Mas já fiz de tudo na minha vida. Já trabalhei em poços de petróleo, na navegação marítima e fluvial, já fui jornaleiro e tradutor. Mas nunca realizei meu sonho de ser secretário, porque em nosso pais só as mulheres podem ser secretárias. E o senhor sabe que outros tipos de profissionais eu gostaria de ser e que podem ser encontrados neste voo? Comprador, hidrófago, cantor, tia, amante, radialista, banana... A conversa ficou estranha demais e pedi licença para ir ao banheiro. Voltei para meu assento e, por sorte, o teatrista e o alfaiate estavam dormindo e roncando. Dormi o resto da viagem e só acordei pouco antes do pouso. Chegamos ao destino final, um país tropical. Agora é só esperar a primavera chegar e esperar que minha amada não tenha encontrado outro para namorar. Não é isso que diz o cara naquela canção WHEN SUMMER IS GONE?



Te vejo em Setembro quando o verão acabar. Divirta-se, mas lembre-se que estarei esperando você para casa voltar. E quando você sair com algum cara solitário para namorar, lembre-se que estarei esperando quando o verão acabar

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PARÁGRAFOS 125 A 132 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Após a morte do Arqueiro, Tilly perdeu tudo: o rumo, o juízo, a vergonha e o desconfiometro. Perdeu o emprego e nunca mais trabalhou. Rompeu com todos os boçais do espiritualismo de cartilha e tentou criar seu próprio ocultismo e angariar adeptos, mas sua empreitada teve curta duração, porque ele já não acreditava nem em si mesmo. Estava confuso, perdido. Estava desmoronando. Pensou em abandonar tudo e cair no mundo como um caixeiro-viajante, vendendo bugigangas para se manter e dormindo em motéis com uma mulher diferente a cada dia. Tilly pensava fazer isso, mas a dúvida corrosiva entre o pensar e o fazer lhe causava muito sofrimento.

Por que você anda tão angustiado, Tilly? perguntou seu daimon.

Sabe, meu daimon, estou num dilema. Sinto vontade de abandonar todos os dogmas e todos os coletivismos e seguir adiante sem eles e sem destino, mas não sei por que tenho este desejo, porque eles ainda me dão um mínimo de proteção contra mim mesmo.

E o que você espera que eu lhe diga, Tilly?

Gostaria que você me explicasse o que está acontecendo comigo.

Quer mesmo?

Claro, você é o único que sabe o que se passa comigo.

Tilly, seu espírito elevou seu ânimo ás alturas e você se pôs a procurar numa busca incessante, penetrando incólume nas profundezas dos domínios do imaterial e do supra terreno, tangenciando os arredores da abóbada celeste e contagiando-a com alegria esfuziante, no topo do cosmos, logo abaixo de Sírio, grandioso, poderoso, invencível. Você é sagrado, divindade persa e prussiana, e de lá, mais acima no lugar de Sírio Alfa e Sírio Beta, lança sombra sobre a terra, e todos ouvem sua voz eloquente trovejar e mal conseguem acompanhar suas ideias difusas e furtivas, ideias de filho de Boanerges, nau centáurea desde o nascedouro navegando apressada num rio caudaloso, ganhando volume e velocidade, vigor e vontade, até o mar, o mar que não recusa rio, muito menos você que é deus ciano e cerúleo, confiante e devoto da fé, e que toma o lugar da fonte de toda energia que aquece oceanos e continentes, e de lá, no lugar do sol único, se torna lua cheia, lua do meio-dia e da meia-noite, e quem da terra olha para seu brilho é água doce e salgada evaporada com calor intenso, é vida dizimada em segundos, é palco da fauna humana envolto numa densa atmosfera venusiana e asfixiante, derretido num mar de lava escaldante. Você é habilidoso, curandeiro, incansável, é deus que não come, não bebe e não dorme, é sobre-humano, forte como o aço, real como rei, mas se imiscui muito com o humano e a ele se afeiçoa, como ele sonha, fantasia e se entrega a devaneios, veste sua carne, veste denim e índigo, ostenta safira e turquesa, se enfatua e se deprime, não suporta mais sua onisciência, sua onipresença, sua onipotência, não sente mais prazer na fartura de seus conhecimentos, tem medo da solidão, quer dirimir suas dúvidas erosivas tentando convencer pai e filho que é espírito santo, desce do seu pedestal sideral e inatingível, cai como estrela cadente, vem ter com o homem e vive como ele, iluminando os quadrantes do globo como tocha de pirilampos, como uma estrela brilhante do chão. Você se revela um deus que não conhece o mundo que governa, tropeça na própria sombra e acaba se atracando com demônios de minas e se sujando de cobalto para depois se lavar com água-marinha. Você se inebria com o aroma da ardósia e da flor do milho. O gelo se incrusta na sua visão e a neve esquenta o frio que lhe dá arrepios. Os florais o seduzem tanto quanto fumaça e como fumaça desaparecem os fantasmas que surgem à sua frente. Você perambula por florestas da primavera com grama alta e banhadas por mar escuro, farejando hortelã e vasculhando os caminhos que trilha atrás de jade e esmeralda, e, quando atravessa o pomar do fruto outrora proibido, amarga o limão, se adocica com o abacaxi, transborda da boca para seu queixo o sumo suculento do pêssego, se lambuza de manga, passa ao largo de cenouras e abóboras, não resiste aos bagaços de laranja e se meleca com mamão. Você não se demora muito no mundo mundano, pois sinais de perigo se adiantam aos seus passos e obstruem seu caminho com calçamento de tijolo quente, refratário e incandescente, manchados de sangue, urucum e carmim. Vejo o seu tempo no céu e na terra chegar perto do fim. Você se fartou demais com alimentos dos deuses e dejetos humanos e deve verter, deve se metamorfosear de alguma forma espetacular, deve explodir em bilhões de pedaços supernovos, e suas cintilações serão um farol para todos os navegantes da galáxia. Seus cacos juntados ainda não se sabe o que formarão. Um insaciável buraco negro que suga até a luz da vida ou uma pálida estrela de nêutron que dela desistiu.

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ENCARNAÇÃO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Adiemus, Adiemus!
Aproximem-se todos
Vocês que são da Itália e de Portugal
Querem filhos franceses ou brasileiros?
Abram os olhos porque vocês já estão no paraíso
Abençoada seja esta terra que vos acolheu


Adiemus, Adiemus!
Entrem numa casa de espanhola sem a filha saber
Perguntem às mães, às avós e aos seus cães vivos e mortos
Querem ilusionismos houdinianos  ou cândidas adivinhações?
Mantenham os olhos fechados porque vocês estão dentro de um sonho
Abençoado seja este sono que vos repousa


Adiemus, Adiemus!
Ousem intrometer-se num enterro da aristocracia negra em Paris
Peçam para deportar vosso caixão do velho para o novo mundo
Querem filhos submissos ou libertos?
Abram os olhos porque a escravidão foi abolida
Abençoada seja esta miscigenação  que vos contemplou 


Adiemus, Adiemus!
Pasmem com o veludo púrpuro que forra todas as paredes
Digam adeus às aulas de balé e língua estrangeira
Querem filhos de reis ou de trabalhadores?
Fechem os olhos para os que vos deserdaram 
Abençoados sejam os que a vós se irmanaram


Adiemus, Adiemus!
Cantem com mãos erguidas ao céu
Façam estalar todas as castanholas das ciganas espanholas
Querem dançar flamenco e baião ao mesmo tempo?
Abram os olhos para o verde exuberante
Abençoados sejam o azul e o amarelo de nossas bandeiras 


Adiemus, Adiemus!
Deixem os céus tempestuosos
Venham para os solos férteis
Seus filhos são todos estrangeiros
Embarquem nos mesmos navios negreiros
E aportem na água, na terra e no fogo prometido aos mortais


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ALELUIA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


O que do mais carente grado para vencer mais esse intransponível obstáculo ainda posso receber? Mais um milagre? Posso travestir-me de madeira e de cera, Me oferecer a todos santos em cumprimento de mais promessas, As promessas de vida no meu coração de Tom Jobim?, Coração é só coração, E o meu sentimento, Só vem com a imaginação de Fernando Pessoa?, A vida é só vida, A minha, Tumultuosa e anelante, Sangra, Mas atrás de minha fé, Trilhando ogros caminhos, Ensanguentados aos meus pés, Avultam, arrastando-se pelo chão, Dois anjos alados, Esforçando-se para erguerem-se contra minhas tristezas e incertezas, Abençoando minha cabeça sentenciada a trabalhos forçados, Encrespando minhas liras de festões engrinaldadas, Esvoaçando com suas auras meu orgulho de grã diadema de bastas flores nos meus ombros, Quem me dera minha alma nunca se envenenasse de malevolência contra quem quer que seja, E antes fosse servindo a todos como pudesse, Através das desventuras do meu destino e de uma longa vida, Saindo destes dias melhor acompanhada, E Anoitecendo com ela sempre lavada.

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PALAVRAS PARA NÃO CHORAR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

As palavras do céu noturno, Só com estrelas temporárias, Bocejando dormentes, Numa criminosa indiferença, Por supremo sofrimento moral, De que são as únicas testemunhas, Alojam-se no corpo e na alma, E deles fazem campos de provas, Que se estendem por terrenos acidentados, De muitas e frequentes lombas, Precipitando declives abaixo, E não param nem além dos chorões, Elas querem minhas crendices, São mortas e vivas em minha vida,  Elas querem o lume de meus olhos perdidos, Pasmos e trementes, Querem a pálida cor de minha emoção, De aspecto moribundo, Mas o sangue que tenho em minhas veias, Não é apenas água chilra, Ferve e espuma junto ao mar, Elas saem em meu encalço, Pensando que estou fugindo, Porque o céu e o vento me favorecem, Tropeço e caio para lhes facilitar, Ofereço meu coração para um teste nuclear, Ele segue batendo, Forte como um trem, Mas seu balanço já não é tão macio, Elas querem me levar ao cadafalso, Na calada da noite, Úmido e úmida, Sou dado como assassino frio e feroz, Não é necessário me matar, Podem me comer vivo, Adoráveis são as palavras de Amanda, Jamais ter praia ensolarada, Jamais ter amor de graça, Ser levado pelo caminho por onde o desprezo anda, Praia sempre nublada, Ela me pergunta, Se tenho ódio da desgraça, Se tenho alguém por perto, Se tenho autopiedade, Se estou sempre só ou mal acompanhado, Ou exilado num deserto, Se ainda tenho lugar para uma amizade, Tenho paz de espírito com uma arma apontada em minha consciência, Não preciso ser surpreendido, Contem até 10 para puxar o gatilho, Adoráveis são as palavras de Larissa, Jamais ter qualquer doença diagnosticada, Jamais ter vontade de trabalhar, Ser levado pelo caminho por onde a preguiça anda,  Sempre dormir demais e acordar em hora atrasada, Meu corpo sobrevive à base de soro, Uma arma biológica é testada em minha aura, Ela me pergunta que espírito mora neste invólucro, E descobre um pobre indigente, Com o avesso encouraçado de morfina, É perda de tempo preparar uma eutanásia com uma ceia, Podem retalhar-me enquanto estiver consciente, É perda de tempo blindar minha visão, É suficiente permitir que eu abra um livro e leia uma página e meia.


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SAMARITANISMO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Ela veio ao mundo sob um signo mofino, Amaldiçoou-lhe o destino, Com chagas que mutilam seu corpo e gangrenam sua alma, É maldita por ser a lazarenta dada à luz num dia sombroso, Pelo ideal de vida perdida, E pelo amor que morreu sem ter nascido, Isolada em moradas morféticas, Suspiradas das mais impossíveis esperanças, Longe do calor humano, Próxima da morte que a mantém cativa, Traja vestes maltrapilhas, Tal qual seu rosto dilacerado, Para manter à distância sua maldição, Carrega consigo um som já estragado para anunciar sua aproximação, Passa muitas horas que marcam fundo, Feitas de eternidades de segundos, Cujas chagas extinguem-lhe a voz, Apagam-lhe a visão, E a fazem errar por caminhos inadvertidos e proibidos, Provocando nos que vêm em sentido contrário, Repugnância e revolta, Pretexto imediato para uma execução, Mas de repente, Abre-se diante dela algo como uma janela, E ela vê surgir da escuridão uma inesperada luz, Feita de paz celestial e fraterna, Um bom samaritano que a toma nos braços, Beija-lhes as feridas abertas e ensanguentadas, E ressuscita-lhe o amor que havia morrido, Pondo um fim ao seu estado mortificado, Extirpando-lhe da mente os clamores silenciosos que a faziam sentir-se com se nunca tivesse nascido.  

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MORTO EM FEVEREIRO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

7 anos de conformação de Aldair, John Kennedy meu anfitrião, A vida não tem fim, Dr. Hédio paciente impaciente, Eles vivem em mim, João voluntarioso, Vivo na claridade, Na obscuridade, Morto ninguém sabe, Ivo amigo, Bate saudade, Armando de Marte, Lilian de Vênus, Deus da guerra uma cidade, Deusa do amor uma revelação, Encarnação de Espanha em Paris, Isabel de Água Verde descontente, Enigma imitando a realidade, Mente e não mente, Engano enganando, Limite que não sente, Alice só para adivinho, Augusto só para enfermo, Feitiço ausente, Morte morrendo, Sonho incidente, Com morto em Fevereiro, Não tem fim a gente, Zombado, Ridicularizado, A verdade está rente, Numinoso ardiloso, Deixa impotente, Livre no vígil, À merce do sono, Onde está Virgínia, Onde está Sílvio, Num instante de Zen, Último nível aquém, A vida não tem fim, Na face um sorriso, Eles vivem em mim, Sem Tânia, Nem Ricardo, Um Chico Xavier, Cercado de mulher, Vida vivendo, Uma Regina sagrada, Desregrada fora de si, Peter meu hospedeiro do tempo, Cocteau Twins cover do original, Nepal infernal, Jesus velho coadjuvante, Elisabete com amante, Homem das neves inalcançado, Lady Jane dor do passado, Nimes carioca me tolera, Ursos falantes me enturmam, Mulheres clonadas mantém portas abertas, O Vale da Amoreira também, De quem sou refém, O morto em Fevereiro reaparece em Março, Depois de um ano fico num embaraço, 20 anos de amizade, 14 de separação, Sou meu próprio anfitrião, A vida não tem fim, Filhos indiferentes diferenciando, Eles vivem em mim.

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