quarta-feira, 21 de setembro de 2016

PARÁGRAFOS 109 A 124 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. Clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo


O cristo da vez chamava-se Guardião da Pátria. Ele teve o mérito de despertar em Tilly o seu antigo gosto pela cultura, quando Tilly achava que falar difícil era bonito, mas ele não sabia o que estava fazendo, como o Mensageiro da Enganação que, sem querer, devolveu a Tilly o alimento da alma ao tentar não embarcar na sua nave-mãe. O Guardião foi o cristo mais flagelado e mais resignado, um cristo do cristo ou, como Lennon falava da mulher, um negro do mundo, um escravo dos escravos. Ele ansiava Tilly tanto a ponto de entortar sua boca e fazê-lo gaguejar e engasgar como se ele tivesse um lado paralisado por um derrame, mas Tilly revidava com homéricos discursos nos almoços das terças-feiras. Até Tilly penitenciava seus cúmulos enquanto fazia a digestão. Um ser como Tilly, com um potencial megalomaníaco tão latente, precisava apenas ser instigado por uma vara curta de cutucar onça. O Guardião chegou perto de Tilly o suficiente, até em sonho, convenceu-o e conquistou-o, mas, por um golpe do destino à espreita de inconformados com a breguice do mundo que premia a mediocridade, perdeu-o para o saber frívolo e híbrido que, dizem uns, se decompõe com o cadáver na cova, e, dizem outros, entra no currículo da próxima encarnação, mas o Guardião reteve o que lhe era mais precioso, a idolatria e o saber etéreo que se faz carne e que não demanda prova nem contraprova. Ambos ganharam. Só perderam os muitos seguidores e desertores do novo cristo. Esses últimos, tais quais vira- desvira-casacas, viram Tilly passar de um lado para outro, desagradando gregos e troianos, judeus e samaritanos.

Deus é Mãe e Pai. Deus é a Mãe de todas as Mães e Pai de todos os Pais, dizia Tilly, imitando os antigos Egípcios monoteístas.

Tilly se viu forçado a deixar a espiritualidade pouco tempo depois da morte de seu patrono, o Arqueiro, de quem se tornara quase um filho. Tilly já havia saído antes, espontaneamente, mas um conflito de deveres o fez recuar. Na verdade, ele agiu como aquele presidente que renunciou com pouco tempo de mandato esperando ser chamado de volta com poderes quadruplicados. Tilly foi recebido de volta pelo Arqueiro com uma humildade que lhe subtraiu mais do que uma vida humana, e ainda que tivesse outras mil e tantas, pois, como disse Olavo Bilac, há nela cem mil vidas, o gesto do Arqueiro parece ter lhe censurado o coração para sempre, pois, como disse o mesmo poeta, cabem nele cem mil pecados. Quando o Arqueiro viu o seu  filho pródigo voltar ao lar, curvou-se, tomou sua mão e a beijou, e ainda acrescentou que vê-lo ali, diante de si, era o melhor de todos os presentes de natal que já recebera. A modéstia e a nobreza do Arqueiro foram banalizadas por ocasião da homenagem póstuma de corpo ausente que lhe prestaram na entidade que ele presidia. Seu paraninfo, um jovem rico e poderoso, roubou a palavra e a atenção para si, recheando o réquiem com todos os seus predicados que, segundo ele, enchiam os olhos do Arqueiro. Para o morto mesmo só sobraram as palavras tu és dono do descanso eterno, amém.

Só quem conheceu a mente revoltada e inconformada de Onedin com a perda de seu ente mais querido entenderia porque de tantas experiências espirituais vividas por Tilly e dignas de registro ele preservou apenas um punhado de ataques rancorosos e críticas gratuitas e os esfregou na cara invisível do daimon de Tilly, porque este ainda preferia ver seu pupilo preso na carolice religiosa do que solto no desatino auto-destrutivo. Os acessos intempestivos de Onedin só serviram para expor a enrustida mas indisfarçável malvadeza de Tilly que não era mais fétida do que já se sabia e por isso dispensava execração pública.

Sabe o que o meu amigo Tilly aprendeu com a espiritualidade, Seu Daimon? Conheceu um proprietário de bens sem ônus e vínculos, livre de foros e responsabilidades, um psiquiatra que, nas horas vagas, ensina os efeitos clínicos da fé com palestras, e arranca aplausos de um bando de bobos alegres e ignorantes com um montão de abobrinhas que só servem para lustrar o seu ego e no final todos os palhaços se arrebatam com a pseudo-sapiência do canastrão, mas ficam sem saber quais sãos os efeitos clínicos da fé e nem que homenzinho medíocre se esconde por trás da máscara de doutor.

Após a morte de Tilly, seu daimon deu por encerrada sua missão e, enquanto se preparava para partir, resolveu dar trela às arremetidas de Onedin, violando o Divino Protocolo do Desenxerimento, aquele que proíbe que um daimon converse com o protegido de outro.

Onedin, Isso não é menos desesperador do que um certo homem de graça divina, aflito pela falta de trabalho, e que num discurso a humildes praticantes do anímico, diz que, enquanto estivera no plano espiritual, escolheu ficar desempregado por um bom tempo como expiação na vida presente e que estava sofrendo muito com esta experiência. Esta coragem lhe valeu efusivos louvores ao final de sua arenga que ninguém mais se recordava sobre o que versava.

Eu sei de quem você está falando, mas sabe o que mais Tilly aprendeu, Seu Daimon? Que o favelado vive na miséria porque na sua vida anterior ele foi ruim, por isso ele tem que se conformar com sua mendicância atual e ainda agradecer a deus por ter alguém que lhe explique estas coisas.

Onedin, já isso é mais sádico, mas ainda perde em originalidade para aquele sujeito do tipo trigueirinho, amigo do não menos trigueirento idealizador da operação cavalo de tróia, prelecionador remunerado de uma conferencia apocalíptica sobre pratos volitantes, pois no mundo espiritual os objetos e as pessoas não voam, mas volitam. O conclave foi patrocinado por uma sociedade secreta que de secreto só tinha uma baixa sordidez. O trigueiroso mostrou uma série de fotos de óvnis que mais pareciam bacias emborcadas, pintadas com guache e iluminadas por pisca-piscas de árvore de natal, e ainda se dizia um privilegiado por ter tomado uma grande decisão na vida: a de optar por cruzar os céus do planeta com os ultramundanos em suas baterias de panelas. Sua regalia advinha da correta interpretação de uma máxima das não tão boas novas cristãs: ‘Muitos serão os chamados, mas poucos os escolhidos’. A hermenêutica do sonhador de ideais e ofensor do mais baixo Q.I. dispensava a crítica da forma e qualquer alegorização, e encerrava uma das mais preciosas pérolas do folclore neotestamentário. ‘É você quem se escolhe e eu me escolhi’.”

As pessoas que costumam embarcar nessa são as mesmas que ouvem conselhos de duendes. Mas, para finalizar, Seu Daimon, o que pensar de um cara varonil e forte, um machão perigoso como um ignorante despachado, que, ao assistir ao filme ‘A Última Tentação de Cristo’ se escandaliza e acusa meu amigo Tilly de mostrar um Jesus mulherengo?

Sabe Onedin, como dizia Carl Jung, estes lugares que Tilly andou frequentando são albergues para os pobres e fracos, oásis paradisíacos para os náufragos, o seio da família para os órfãos, a meta gloriosa e ardentemente desejada para os que se extraviaram e decepcionaram, o rebanho e o cercado seguro para as ovelhas desgarradas, a mãe que significa nutrição e crescimento, mas seu amigo Tilly fez deles uma muleta para sua deficiência moral e ética, um escudo para sua ansiedade, uma rede de balanço para sua preguiça e um recreio para suas irresponsabilidades.

Se, por um lado, Tilly nunca endossou a teoria mirabolante de que Maria teve uma gravidez psicológica e o bebê Jesus foi trazido por uma nave de outro mundo, por outro lado, ele foi avalista dos velhos preceitos segundo os quais tudo se encaixa, como nuts and bolts, porcas e parafusos, e a partir dos quais se constata, entre outras mirabolancias, que Joana D’arc foi a reencarnação redentora de Judas Iscariotis. No entanto, Tilly recebeu de braços abertos vários dogmas macromaníacos, uma profusão de grandezas grandiosas, grandes sínteses, grandes segredos, grandes revelações, grandes verdades, grandes grandiosidades. Seus favoritos eram os mais estratosféricos. Os mundos felizes onde já não existe expiação, só felicidade, planetas que Tilly imaginava serem habitados por seres que não desencarnam mais, mas só trocam de corpo. E a terra um dia será um desses mundos felizes. Por ora é um mundo de expiação e em transição, para ser um mundo de regeneração, onde não se tem muito para pagar, mas é preciso trabalhar duro para alcançar a felicidade. Tilly levava isso tão a sério que chegou a planejar uma viagem a cidade natal de seu ídolo, Pete Townshend, líder da banda The Who, e lhe dizer que ele não estava delirando quando no passado pensou que poderia levar seus fãs ao êxtase total com sua música a ponto deles literalmente deixarem seus corpos. Tilly iria dizer a Pete como seria possível ele retomar seu projeto abortado chamado Lifehouse. Esse encontro nunca ocorreu e, se tivesse ocorrido, talvez Pete se limitasse a perguntar a Tilly onde é que se conseguia aquela nova droga que faz as pessoas viverem não apenas no mundo da lua terráquea, mas nos mundos de todas as luas do sistema solar ao mesmo tempo.

Contudo, Onedin, é verdade que Tilly nunca compactuou com utopias desvairadas que afirmam que o mundo tem três revelações, duas judias e uma francesa, Moisés, Jesus e Kardec e que tudo é previamente arquitetado no plano espiritual, como o matrimonio, por exemplo, para depois ser posto em prática no plano material, reduzindo os seres humanos a meras cobaias e suas vidas a monótonas e diuturnas reapresentações das mesmas peças teatrais em cartaz há milhares de anos e cujos enredos e catarses são do conhecimento de todos, concluiu o daimon de Tilly.

Mas Onedin nunca se dava por convencido e fustigou inutilmente pela última vez porque o daimon de Tilly já estava de malas prontas.

Pois é, Seu Daimon, se tudo é combinado lá em cima, para que serve a encarnação aqui embaixo? Como campo de provas que agita a bolsa de apostas das assombrações? E se deus já sabe de antemão onde o universo vai dar, para que criá-lo? Para se divertir vendo a mesma história sempre se repetir?

MENINO TRAPO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. Clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo

Menino trapo, Perde-se na memória do tempo nos meus abraços, Na sua nova morada seu mesmo cuidado, Vem do bem que mais se enseja, Do amor que mais se procura, Foram-se as noites de folguedos a olhos fechados, De segredos guardados pelos astros, De teu conjurador as palavras emudeciam, As lembranças que na alma lhe moravam, Foi-se a menina de corpo pequeno e malfeito, Vistosa na janela do espírito, Nas flores e folhas que enchem o peito, Com uma ave-maria rezada a medo, Menino trapo, Encontra-se no desconhecimento da história nas minhas inspirações, Na sua nova jornada sua América descoberta, Vai do saber que não apenas se escreve, Do privilégio de ler primeiro o que a mente cria, Achegam-se os belos dias que aproveitam-se de inocentes, De maneiras acanhadas de emoção, De teu coração as batidas palpitam, As sombras da fé que descem ao fundo de sua ingenuidade, Chegam as crianças de faces coletivas e desapercebidas, Nos bilhetes e mãos acenadas, Sem uma malícia imposta por um sacrifício hediondo.

FLASHING PENDULUM

Texto de autoria de Alceu Natali, Concepção de Ana Carolina Natali, minha filha de apenas 10 anos de idade.  

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


As pêndulas orvalhadas despertam o dia, Revelam a pulsação da vida, Na toada musical das horas, Ísis, Invisível, Junta fragmentos desconstruídos de Osíris, Set retorna verde, Com um bastão, Para bater, Choro, Horus, Póstumo e imperceptível como a mãe, Como um veloz tufão em quebradas ínvias, Desaparece-o, Entroniza no ar esferas multicoloridas, Tremeluzindo e crescendo, Preenchendo todos os cantos do espaço, Bailando formas infinitas, Cerro meus olhos a elas, Amando nelas minha própria beleza, Na escuridão elas parecem canas, De doces verdes, Estendendo-se num plantio, Disformes e ondeantes bailadeiras que acompanham o alcance de minha visão, Sem perderem-se em suas fascinantes figurações, Assim como estes meus verdes anos que me retém, E nesta mesma dança undosa, Falta de luz, Vento, E frio, As bolas verdoengas amadurecem bolas roxas, Fazendo toda sorte de acrobacias, Até passarem-me pelo sono, E acordada, Vejo um gato preto saltar dum armário, Vindo a mim rastejando como cobra, Enquanto um gato branco enfia-se num casaco, Me desatenta, E o preto me chega sem olhos, Pisco, Horus subtrai-o, Na velhice de um homem antigo, Em preto e branco, De chapéu e bigode, Gravata vermelha, Pisco, Horus some-o, Na antiguidade de Mona Lisa, De cabelo longo e negro, Vestida de esmeralda, Preocupada, Pisco, Horus esconde-a, Na antigualha de uma menina de oito anos, Vestida de boneca, Segurando um urso de pelúcia rosa, Todo costurado, Pisco, Ela Some, Pisco, Ela volta, Sorri, O urso de pelúcia sangra negro pela boca, O gato preto volta e se senta entre minhas pernas, Pisco, Horus leva-o, Pisco, Horus o traz mais perto, Fala estrangeirado, Chegou sua hora, E extravia-se, E meus pais me chamam para sair, No bosque em frente à minha casa, Surgem o homem antigo e a mulher Mona Lisa, Abrindo caminho por entre o matagal, Sangrando negro, A mulher descabelada, O homem com a cartola estragada, Cheia de folhas, Entro no carro e sinto a presença do gato preto, É o mesmo do armário, O mesmo que sempre surge com meus olhos abertos ou fechados, Ísis, Ainda Invisível, Me consola, Aqui jaz o gatinho Butters, Leal de verdade, Queria salvar a criança, Mas não conseguiu, Era tarde demais, A casa estava em chamas, Butters cruzou a rua, Foi atropelado por um carro, E morreu, O homem antigo e a mulher Mona Lisa não se importaram, Mas triste ficou a menina boneca, Que acariciava Butters nas costas, Se salvou, Butters não ficou sabendo, Mas você ficou.

A BURRICE NA VELOCIDADE DO BRASIL


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Texto escrito em 30/06/11

Eu costumo escrever apenas sobre minhas próprias ideias. Não gosto de meter o bedelho em assuntos dos outros. No entanto, em 24.01.09, ao ler uma crônica do Arnaldo Jabor no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, sob o título ‘A burrice na velocidade da luz’, confesso que naquela época, não resisti à tentação de comentar cada parágrafo do texto do Arnaldo. Só hoje resolvi publicar meus comentários aqui no meu BLOG. O que faço não é mediocridade que discute a vida dos outros e nem saber mediano que discute acontecimentos. O que faço é exercer nosso sagrado direito, como consumidores de cultura, de discutir IDEIAS. Os parágrafos do Arnaldo estão em negrito e meus palpites em itálico azul claro.

A burrice mais crassa toma o poder no mundo. Claro que é uma generalização, mas acrescente complexidade da vida social, a superpopulação, o fracasso de ideologias, tudo leva ao declínio da esperança e conduz os homens à busca da “fé”. A fé é aquilo em que acreditamos contra todas as evidências. Cai o teto da igreja, os fiéis morrem e os sobreviventes continuam a louvar a Deus. E não só fé religiosa; mas política.

Não conheço algum momento na história da humanidade na qual o mundo tenha sido menos burro que o de hoje. Dizem que a Grécia clássica foi uma exceção. Eu gostaria de ter vivido na Grécia de Homero a Arquimedes só para conferir. Isto não é uma generalização, mas uma simples e maléfica constatação. O mundo é brega e sempre premiou a mediocridade. Uma exceção que eu vivenciei foram os Beatles e seus pares britânicos na música, que agradavam Gregos e Troianos, Judeus e Samaritanos, caretas e gente ‘cool’ como eu. Também não conheço algum momento na vida social de qualquer país que não fosse marcado pela complexidade. Viver não é tão elementar assim, meu caro Watson. A superpopulação poderá ser um problema somente para o pessoal do século 22. Até o ano 2050, teremos menos de 10 bilhões de habitantes e a terra, pelos cálculos de hoje, comporta, tranquilamente, 20 bilhões de pessoas. Nosso país tem terra demais para pouca gente: 22 km2 por habitante. Se saltarmos de 200 para 400 milhões não fará diferença nenhuma. Preocupantes para a nossa geração são a poluição e o aquecimento global. Nunca houve ideologia que triunfasse. Se alguém conhece uma, gostaria de conhece-la. Nunca houve esperança que não estivesse alicerçada na fé, principalmente neste país, 97% cristão. Mas eu concordo que a fé é aquilo em que acreditamos contra todas as evidências. No entanto o teto da igreja não está caindo. Ao contrário, está sendo banhado a ouro, como nos tempos das Cruzadas. Veja a igreja universal do reino de deus e seus rebentos evangélicos; eles compram todos e tudo; até o inferno já é deles. Com tal voracidade e impunidade, alguém apostaria, hoje, que em 2050 eles não serão maioria absoluta e o catolicismo menor que o judaísmo? Deus continuará sendo louvado pelos seus fiéis por um bom tempo até que eles criem algo diferente de sua própria imagem. Enquanto esse dia não chega, a fé religiosa prevalecerá. Não existe fé política. Existe fé religiosa a serviço da política, seguindo um modelo cristão que vem dando certo no ocidente desde o século 6.

Depois de um momento de esperança, de que tudo mudaria com Obama, vemos como ele é barrado pela muralha da estupidez e em breve do racismo. A democracia com suas complexidades traz a fome de autoritarismo.

É inconcebível um intelectual depositar esperança por grandes mudanças no Obama. Isso é, no mínimo, ingenuidade. Obama é igual a qualquer político americano e não será barrado pela muralha da estupidez e nem pelo racismo. Ele já está se adequando ao pragmatismo da política externa americana e ao seu protecionismo interno do qual o Brasil sempre será vítima. Em sua campanha, a palavra de ordem era ‘mudança’, mas, até agora, ele não fez nada que o diferencie da administração anterior. É verdade que ele pegou um grande abacaxi, esta crise econômica sem precedentes, mas, de consolo, lhe deram o prêmio Nobel da Paz. Alguém sabe o que ele fez para ganhá-lo? Ninguém sabe! Gandhi foi indicado cinco vezes e nunca ganhou. Alguém sabe o que ele não fez para não ganhá-lo? Nem Deus sabe! Esta premiação do Obama é tão esdrúxula quanto a escolha do Rio de Janeiro como sede dos jogos olímpicos de 2016. A democracia com suas complexidades traz mais cinismo e hipocrisia crassas do que fome de autoritarismo.

A grande sedução do simplismo (e do mal) é que ele é uno, com contornos concretos, visível. Mata-se um sujeito e ele vira uma “coisa” dominada. Nada mais claro que um cadáver, decapitado no Iraque ou na favela do Rio. Por outro lado, a democracia, pressupõe tolerância, controle da parte maldita animal, implica renúncias, e na angustiosa contemplação da diferença. A estupidez, não: ela é clara, excitante, eficiente.

O simplismo e o mal são mais sedutores, unos e visíveis nos países esculachados do terceiro mundo. Só mesmo em países como o Brasil e o Iraque um cadáver decapitado vira coisa dominada. A democracia não é uma dádiva e pressupõe sacrifícios e renuncias. Ela é, sobretudo, tolerância e respeito às diferenças. Ela é a instituição da civilidade onde a coisa animal não deveria ter vez. Angustiante (e humilhante) era a contemplação da falta de diferença naqueles ridículos uniformes usados pelo povo da China Maoista. Pior que isso, só mesmo a renúncia total à liberdade na ex URSS e em Cuba, que comemorou, no ano passado, 50 anos de sua mudança de um estado livre e corrupto para uma prisão de segurança máxima. Por outro lado, não existe diferença entre a democracia brasileira e o anarquismo iraquiano. Ambos são tolerantes, resignados e conformados com suas mazelas. A estupidez que jaz ao lado da coisa cadáver nestes países é clara, excitante e eficiente para os que governam e os que são governados, e no Brasil os governados morrem de rir com as piadinhas sobre a corrupção de seus governantes, mas não atinam para o fato de que corruptos impunes morrem de rir com as piadinhas que os otários contam sobre eles. ’Don’t you think the joker laughs at you? Ha ha ha! See how they smile like pigs in a sty. See how they snied’ (John Lennon).

É a vitória da testa curta, o triunfo das toupeiras. Inteligência é chata – com seus labirintos. Inteligência nos desampara; burrice consola, explica. O bom asno é bem-vindo, o inteligente é olhado de esguelha. Na burrice, não há dúvidas. A burrice não tem fraturas. A burrice alivia – o erro é sempre do outro. A burrice é mais fácil de entender. A burrice é mais “comercial”.A burrice ativa e autoconfiante parece uma forma perversa de “liberdade”. A burrice é a ignorância com fome de sentido. O problema é que a burrice no poder chama-se “fascismo”. Há tempos, me impressionou a declaração de austríacos nazistas: “Votamos no Haider (o neonazista) porque não aguentamos mais a monotonia da política, o tédio do ‘bem’, do ‘correto.’” Sente-se no ar uma fome de chefes. Ninguém se liga muito na liberdade fraternal. O sucesso planetário dos evangélicos, as massas delirando com ídolos de rock, com ditadores como Chávez, Ahmadinejad mostram a solidão da democracia diante dos anseios por slogans irracionais, pelo fundamentalismo da crueldade prática, das “soluções finais”.

O mundo é burro e valoriza a estupidez. Vencem sempre os de testa curta porque seus preguiçosos eleitores têm memória e cultura curtas. Vencem sempre as toupeiras porque os golfinhos não se metem com política. A inteligência sempre foi chata, intrincada e desanimadora. Você encontra milhões de pessoas que leram Paulo Coelho, Stephenie Meyer e J. K. Rowling, mas nenhuma entre elas que leu James Joyce. ‘Ulisses’ complica e desola, é ‘ilegível’ segundo Paulo Coelho, enquanto ‘Crepúsculos’, ‘Alquimistas’ e ‘Harry Potters’ esclarecem e consolam. O bom asno que carrega o mitológico cristo é exaltado enquanto a coruja sábia e agorenta é afastada com terços, réstias de alho e reza brava. A estupidez não machuca, está sempre certa, vende fácil, é entendível e autoconfiante. Ela apenas parece uma forma perversa de liberdade. No fundo, ela é uma forma de confinamento inconsciente no coletivo subdesenvolvido, uma fuga do anonimato e da solidão intelectiva. No poder só ficam os tapados, pseudointelectuais, fascistas, comunistas, corruptos, amorais e ladrões de colarinhos brancos. Mas é o povo que os coloca no poder. Como disse Carl Jung, o segredo compartilhado é o cimento de coesão de uma sociedade. Se não existe um segredo, se inventa um. E eu digo que toda sociedade não vive sem um chefe. Se não há um chefe disponível, se inventa um. Liberdade fraternal? Em qual planeta existe isso? Nem no Tibete, antes da invasão chinesa, onde era proibida a entrada de estrangeiros, e onde havia uma rígida hierarquia: líderes de um lado, vassalos do outro. Eu também me impressiono com a declaração de austríacos nazistas de que eles votaram no neonazista Haider por não aguentarem mais a monotonia da politica, do tedio do bem, do correto. Contudo, o mundo inteiro anda entediado. Até mesmo os civilizados escandinavos bocejam com a chatice de suas monarquias parlamentares e constitucionais próximas da perfeição, com índices de corrupção, pobreza e violência próximos de zero e com muito pouco com que se preocupar. No ano passado, eles resolveram quebrar a monotonia e fazer algumas extravagâncias. ‘Que tal darmos o Nobel da Paz para um homem que nada fez por ela, mas que representa uma minoria segregada na maior potência econômica e militar do mundo e que, ironicamente, foi escolhido por uma maioria para governa-la? Seria a maior de todas as ironias, não?’ Os otimistas retrucam: ’Isto é um sublime incentivo às promessas de campanha de paz para nunca mais termos outro George W. Bush’. Os realistas morrem de rir: ‘O cara acabou de aprovar o maior orçamento militar da história dos EUA! Para quê? Guerras, oras!’. E os escandinavos, definitivamente, andam fastidiosos: ‘E que tal escolhermos para sediar os jogos olímpicos uma cidade falida do terceiro mundo tropical, governada pelo crime organizado e coadjuvado pela corrupção galopante de seus políticos eleitos por um povo que prima por insistir em perpetua-los como seus monarcas absolutos? Será muito divertido ver os atletas do primeiro mundo às voltas com a malandragem e bandidagem, não?’ O sucesso planetário dos evangélicos já era previsível. O ocidente vem se guiando pela fé cega há dois mil anos. Com televisão via satélite, os matusquelas levam esta estupidez para todos os cantos do planeta. As massas sempre deliraram com ídolos do rock, antes, durante e depois dos Beatles. Eu não vejo massas delirando, mas oprimidas e intimidadas com ditadores como Chaves e Ahmadinejad. Quem delirou, por décadas, com ditadores como Fidel Castro e mitológicos aprendizes de caudilhos como Che Guevara não foi a massa, mas as celebridades e os ‘intelectuais’ do terceiro mundo. Isso, sim, é burrice na velocidade da luz. A democracia continuará solitária no terceiro mundo por um bom tempo e o fundamentalismo da crueldade prática e das soluções finais está sendo importado do islamismo para a América Latina por tiranos como Chaves e imbecis como Morales.

Nos anos 60, havia o encantamento de uma nova era, com a glória da juventude, a alegria da democracia criativa; achávamos que a ciência e a arte iam nos trazer uma nova beleza de viver. Em 68, não foram apenas as revoltas juvenis que morreram; Começou uma vida congestionada, sem espaço para sutilezas de liberdade. 1968 virou o Mundo para a direita, depois de um breve e claro instante. Assassinaram Luther King, Bob Kennedy, Praga livre foi massacrada. Na cultura, os anos 70 começaram com a frase profética de Lennon de que "o sonho acabara" e, logo depois, com a morte sintomática de Janis Joplin e Hendrix, com o fim dos Beatles e com a chegada dos caretas “embalos de sábado à noite”. Parece bobagem, mas uma falsa “liberdade” careta (disfarçada de “revolta”) virou o principal produto do mercado de massas – a volta da burrice foi triunfal.

O encantamento de uma nova era nos anos 60 foi marcado pela música, mormente a beatlemania. Não se fala em anos 60 sem falar nos Beatles, um fenômeno artístico com desdobramentos sociais, mas não políticos. Realmente, a revolução musical promovida pelos Beatles trouxe uma nova beleza de viver, mas da ciência eu nunca esperei nada. A corrida espacial para a lua inaugurada por John Kennedy, por exemplo, teve apenas motivações políticas mesquinhas. Não passou de uma disputa ideológica entre os EUA e a ex URSS. Os americanos ganharam, mas da lua não ganhamos nada. Antes e depois de 68 o mundo do lado de cá da cortina de ferro sempre esteve do lado direito. As sutilezas de liberdades no Brasil terminaram em 1964. Revoltas estudantis surgem e passam como nuvens. Elas não morreram em 1968, mas, ao contrário, várias delas, coincidentemente, tiveram início em 1968 por motivos diferentes. Os estudantes franceses e mexicanos reivindicavam melhores condições de ensino. Na Argentina e no Chile as manifestações eram contra a opressão do regime militar. No Brasil, o movimento estudantil não terminou com o assassinato do estudante Edson Luiz, em 28 de março de 1968. Naquela fatídica noite de 1975, eu estava lá na PUC-SP quando Erasmo Dias invadiu a universidade com um verdadeiro exército, massacrando o movimento da UNE, destruindo o patrimônio, batendo nos alunos e prendendo muita gente (eu escapei por muito pouco). Mais importantes que os movimentos estudantis da Europa e da América Latina de 68, foram as grandes manifestações da juventude americana nas ruas contra a guerra no Vietnã nos anos 60 e 70. Líderes que contrariam as convenções e os interesses da extrema-direita burra e fundamentalista e da classe dominante são sempre assassinados. Isso aconteceu com John, Bob, Luther King, Chico Mendes, Dorothy Stang, e ainda vai acontecer com muita gente. Mas aqui no Brasil não é preciso ser líder de qualquer coisa para ser assassinado. Basta ser do povo porque a vida por aqui não vale nada. Mata-se por nada. Parafraseando minha avó espanhola, para morrer assassinado aqui no Brasil basta estar vivo. Praga não era livre nos anos 60. Ela perdeu sua liberdade logo após segunda guerra mundial e não em 1968. A frase de John Lennon não foi nada profética. Foi óbvia. Todo sonho precisa acabar. Se não acaba não é um sonho. E ninguém pode ser um Beatle a vida inteira. A decrepitude aniquila o talento. Ouça as músicas que o Paul McCartney compõe nos dias de hoje. Eu não tenho coragem de comprar um álbum dele. Leia o último livro de Platão chamado ‘Leis’ e veja o que a senilidade é capaz de fazer com um gênio. A morte de Hendrix foi uma perda irreparável para a música, mas a de Janis Joplin não. Mama Cass era melhor e, nos dias de hoje, a chapada Amy Winehouse e a encantadora Sia também são bem melhores que Janis. Caretas existem em todos as épocas. Enquanto eles divertiam-se com os embalos de sábado à noite nos anos 70, gente ‘cool’ curtia os Rolling Stones, o The Who, o Led Zeppelin, o Sex Pistols, etc. Não podemos esquecer que nos anos 60, enquanto os ‘cools’ curtiam os Beatles e os invasores britânicos, muitos caretas por aqui curtiam bossa-nova, Tropicália e jovem guarda. Eu concordo que uma falsa “liberdade” careta, disfarçada de “revolta”, virou o principal produto do mercado de massas, mas isto não é uma triunfal volta da burrice porque ela nunca se ausentou. Ela costuma migrar e passar temporadas em lugares diferentes, à maneira de vários países, inclusive o nosso, que todos os anos elegem uma cidade diferente como capital cultural. Em termos de burrice mundial, chegou a vez do Brasil.

Claro que o mundo está muito mais informado, comunicando-se horizontalmente, digitalizado pelos milagres da tecnologia da informação, internet, etc.. claro. Mas, os efeitos colaterais são imensos. Vejam nos twitter e orkuts da vida a burrice viajando na velocidade da luz. Junto coma revolução da informação há a restauração alegre da imbecilidade. Lá fora, Forrest Gump, o herói babaca, foi o precursor; Bush foi seu sucessor, orgulhoso da própria burrice. Uma vez em Yale, ele disse: “Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidentes dos USA.”

Antigamente, só a mídia televisiva e impressa podia ser ouvida e lida. As informações eram privilégios de poucos. Nos dias de hoje, com os milagres da tecnologia, não só o conhecimento esta à disposição das pessoas comuns, mas também os microfones e os espaços literários da internet. Se há burrice viajando na velocidade da luz nos twitters e orkuts da vida, ela é um reflexo da herança cultural legada ao povo através da mídia de seu país. Existe coisa mais burra do que as novelas da rede globo? Sim, existe! O Big Brother Brasil, versão erótica das banalidades globais, uma escola preparatória para jovens mulheres que pretendem ganhar a vida pousando nuas. O problema é que um intelectual como Arnaldo Jabor não pode escrever e falar da burrice manipuladora de seu patrão global, mas somente da burrice dos outros. A revolução da informação não restaura a imbecilidade, ela apenas estende aos imbecis o espaço outrora reservado somente à midia. Desculpe-me, mas dizer que Forrest Gump é um herói babaca é outra estupidez crassa. Forrest Gump é um bom filme, uma gozação total, uma paródia que faz a debilidade mental triunfar sobre a inteligência. Nada mais adequado para o mundo em que vivemos. Todos sabem que o Bush é burro. Durante sua primeira campanha à presidência, ao responder a pergunta de um jornalista, ele disse que não conhecia esta ‘banda de rock’ chamada Talibã. Mas ele não é o único burro. Ronald Reagan era tão burro quanto o Bush e os americanos o consideram um de seus maiores ídolos nacionais.

Atenção: não penso em Lula no Brasil, não. Ele é inteligentíssimo e tem a sagacidade de usar a ignorância não só como medalha de sucesso (“Eu era ignorante e venci”), mas sabe também, brilhante e pragmático, que as plataformas políticas têm de ser óbvias e de fácil leitura.

Atenção: quando se fala de burrice, o primeiro nome que me vem à mente é ‘Lula'. Ele é burro para valer, ignorante, analfabeto, como disse Caetano Veloso, e malandro. A plataforma política dele é fiel ao velho ditado de que cada povo tem o governo que merece.

Vai explicar o que é “subperonismo” para as massas do Bolsa-Família...

É claro que isso é impossível. O Brasileiro não sabe nem o que é democracia e nem conhece seus direitos.

Daí, uma das razões para o ‘nada’ da oposição atual tucana: a dificuldade de se formular uma plataforma suficientemente burra para ser entendida. No Brasil, contaminado pelo ar-do-tempo, a fome de simplismo domina a política, a cultura e a vida social. Vivemos em suspense, pois o pensamento petista dominante entre acadêmicos e intelectuais (mesmo os que se opõem, têm medo de ser “contra”) continua com a ideia de “confronto”, de “luta de classes”, de "tomada do poder”, como tumores inoperáveis na cabeça.

Não se pode esperar nada de gente como o Coronel Sarney do voto de cabresto e dos atos secretos, do Color pilantra e aspirador de pó, do bunda mole do FHC e das crias como Aécio Neves, Serra, Russef e o escambau. Como dizia um amigo meu, já que é para esculachar vamos votar no Eneas, ou, como dizia o meu pai do tempo do Jânio pau-d’água: ‘Este ano a turma vai votar no cacareco.’

Isto cria também entre nós apenas um ânimo de queixas e rancor diante da vitória acachapante do “lulismo”. Não há mais polêmicas; apenas a aceitação do atual governo como um destino inevitável.

Ele é o ‘cara’. Tem aprovação da maioria (quase 80%). Portanto, lulista é o novo sinônimo de brasileiro.

Lula não é filho do Brasil não; é o “cavalo” do Brasil – nele baixaram todos os desejos simplistas da população, que ele executa com maestria e maquiavelismo. Muita gente acha que a burrice é a moradia da verdade, como se houvesse algo de “sagrado” na ignorância dos pobres, uma sabedoria que pode desmascarar a “mentira inteligente” do mundo. Para eles, só os pobres de espírito verão Deus, como reza a tradição. Lula pensou, brilhantemente: “Sabe o que mais? O Brasil é burro demais para uma política sofisticada. Vou manter a macroeconomia que o FHC deixou e aceitarei toda a canalhice do sistema político; é a única maneira de governar.” É incrível, porque a mistura de sorte na economia mundial com esta “sabedoria da ignorância” tem dado alguns bons resultados.

Lula é filho do Brasil, é a alma do brasileiro e é correto dizer que ele é o “cavalo” do Brasil no qual baixaram todos os desejos simplistas da população, porém ele executa todos estes anseios com pura malandragem. Ele é malandro o suficiente para manter a política econômica do seu antecessor e desafeto que ele tanto criticou antes de tornar-se presidente (‘em time que está ganhando não se mexe’). Ele é malandro o suficiente para saber que é preciso ser corrupto, demagogo, ladrão e cínico para governar o Brasil (‘fui traído pelos meus amigos do mensalão’). Ele é malandro o suficiente para se esquivar de perguntas inconvenientes, para desconversar, para dizer que não sabia de nada, para fazer piada com coisa séria, para dizer que assinou um documento sem ler. Ele é malandro o suficiente para dizer que nunca antes na história deste país se abriu tantas CPIs para se apurar tantos escândalos. Nós, brasileiros, gostamos de ser enganados, e daqui menos de um ano esqueceremos que nunca antes na história deste país se viu tantos escândalos políticos como nos oito anos do governo Lula. Ele é o cara da vez. Ele foi eleito a personalidade do ano de 2009 pelo jornal francês Le Monde e recebeu o prêmio inédito de Estadista Global do Fórum de Davos. O Brasil é o burro da vez. Está descendo do quinto para o último dos infernos, para deleite do coisa à toa, e transformando-se num circo de dimensão continental, onde nós, palhaços, todos os dias fazemos rir a minoria que elegemos para nos assistir sem pagar ingresso, para mostrar a eles como somos engraçados. Como este país sempre será o paraíso dos ladrões e picadeiro para otários, o melhor é seguir vivendo e se divertir e, para se divertir, nada melhor do que ver o Lula ser eleito pela terceira vez. A corrupção nunca acabará, mas este Éden Fiscal dos criminosos será bem mais divertido com o Lula. Já que é para esculachar, é preferível o Lula gozador que oferece o SUS ao Obama ao escorregadio FHC que só faltava abaixar as calças para o Bush (‘o Iraque é um problema dos americanos’). E para terminar, esse bispo evangélico de gravata está querendo resgatar as ideias retrógradas da igreja aristotélica da idade média: ‘Na sabedoria há tristeza e quanto mais conhecimento se obtém mais tristeza advém’. And the way things are going, they're gonna crucify me (John Lennon).


ADEUS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Eu me preparava par ser jornalista. Prevenia minha namorada para que, quando casados, ela se acostumasse com minhas constantes ausências. Queria ser um correspondente internacional. Algumas poucas ciências exatas se colocavam no meu caminho. Então, por medo de enfrentá-las e para evitá-las, optei por outra humana na qual a exatidão exercia um papel bem menor. Comecei a estudar inglês sem saber porquê. Dei aulas em todas estas escolas particulares vagabundas que existem até hoje. Não desisti de ser repórter no exterior e de outra profissão que exigisse o domínio de idioma estrangeiro. Prestei muitos concursos e passei em vários, mas na hora de assumir o cargo fui sacaneado por diretores que deram minha vaga a parentes. Os que mais gosto de lembrar são o Museu da Casa Brasileira onde eu seria Monitor Cultural. Vai aqui um desconto para o Museu porque ele pertence ao estado e todo estado brasileiro contraiu o câncer da corrupção e da bandidagem. A empresa sueca Sandvik. Esta foi esquecida porque dei o troco noutra sueca. A gigante canadense Alcan. Foi difícil encontrar outra canadense tão grande para uma desforra do mesmo tamanho. Então precisei juntar algumas canadenses menores. O Bradesco. Levar o Bradesco a sério é o mesmo que pensar que temos governo neste país. Pausa para cantar
Passando por caminhos cortados, Por terrenos baldios encantados, Encontrei tesouros desenterrados, E emoldurei-os em todos os meus sonhos já sonhados, Fazendo amor com todos com quem me apaixonei, Todos que desejei, Descobri sentimentos que jamais imaginei, E depurei-os todos para a única pessoa que amarei, Ausentando-me dos tempos de ingenuidade, Dos tempos de maldade, Encontrei o ideal de felicidade, E completei-o com poesia e musicalidade, Cultivando amizade com todos que passaram pela minha vida, Pela minha lida, Descobri meu despreparo para uma partida, E enterrei-o numa irrevogável e triste despedida.
Até que um professor da faculdade de inglês que pensei que me odiasse me arrumou um emprego no Senac. Fiz as contas de quanto ganharia se eu desse aulas nos três turnos. Era muito pouco para minha ambição. Uma colega de classe que conhecia muito bem minha ganância me deu dois presentes: o livro Fernão Capelo Gaivota, e um emprego na Brastex, empresa de comércio exterior, onde ela trabalhava de secretaria. Minha insegurança era notória, capaz de se defender com falsidade, traição e covardia. Não me aguentava sozinho. Precisava de ajuda de fora para encobrir minha incompetência, e de dentro para fazer companhia à minha carência. Quem passou por mim saiu decepcionado. Comecei a sonhar acordado e viajar pelas estrelas. Queria ser astrônomo, talvez após ter lido o livro Alfa Centauro de Isaac Asimov, ou depois de saber do início do projeto SETI, já não me lembro. Esqueci que nada entendia de física. Prossegui delirando. Serei um estatístico (e a matemática?). Poderia trabalhar no Ibope ou no DataFolha. A ideia veio de meu fascínio pelo jogo de xadrez, minha obsessão por dominar a manjada abertura Rui Lopes com as brancas e a difícil defesa Siciliana com as pretas. Até que eu não era tão ruim no que fazia. Recebi um convite para ser gerente noutra cidade. Mas sair de São Paulo nem pensar. Mais uma pausa para cantar:

Passando por caminhos cortados, Por terrenos baldios encantados, Encontrei tesouros desenterrados, E emoldurei-os em todos os meus sonhos já sonhados, Fazendo amor com todos com quem me apaixonei, Todos que desejei, Descobri sentimentos que jamais imaginei, E depurei-os todos para a única pessoa que amarei, Ausentando-me dos tempos de ingenuidade, Dos tempos de maldade, Encontrei o ideal de felicidade, E completei-o com poesia e musicalidade, Cultivando amizade com todos que passaram pela minha vida, Pela minha lida, Descobri meu despreparo para uma partida, E enterrei-o numa irrevogável e triste despedida.

Estudei Administração de Empesas da mesma PUCSP onde fiz faculdade de Inglês. Abracei a carreira de comércio exterior. Erro fatal. Não há lugar para gente honesta neste país para esta profissão (na verdade, para todas). Dei muitas cabeçadas, como empregado em 10 anos, e como autônomo em 30 anos. Não se assustem! Sou velho, mas não tanto. Tenho 63, mas dentro deste corpo há uma jovem alma estudiosa, cheia de ideias, obstinada, que ainda tem um pouquinho de paciência com gente burra, Que gosta de ir às casas de shows em Londres para ouvir bandas de promissores garotos de 18 anos que sonham um dia ser um U2, um Oasis, um Radiohead, um Coldplay, Que senta num bar de calçada na Oxford Street só para curtir o vaivém do mulheril estonteante, vestido com excentricidade e psicodelismo, esbanjando charme, Que compra roupas paquistanesas, uma calça comprida, uma túnica que vai até o meio da canela e um echarpe que serve de turbante, mas não nas horríveis cores masculinas, branco, preto, cor de chumbo, cor de merda e de burro quando foge, mas nas cores femininas, combinação de bordô com salmão e o echarpe usado como echarpe mesmo, em volta do pescoço. Entrei numa multinacional japonesa aqui em São Paulo assim vestido e todos se escandalizaram. Os japas passaram de amarelo para branco marmóreo, em estado de livor mortis. Se eu contabilizar todas as vezes que fui sacaneado e sacaneei dá um empate técnico. No final, estou onde comecei: trabalhando 3 turnos e ganhando muito menos que minha ambição. Última pausa para cantar e ouvir a música que está rolando, muito melhor que esta conversa:
Passando por caminhos cortados, Por terrenos baldios encantados, Encontrei tesouros desenterrados, E emoldurei-os em todos os meus sonhos já sonhados, Fazendo amor com todos com quem me apaixonei, Todos que desejei, Descobri sentimentos que jamais imaginei, E depurei-os todos para a única pessoa que amarei, Ausentando-me dos tempos de ingenuidade, Dos tempos de maldade, Encontrei o ideal de felicidade, E completei-o com poesia e musicalidade, Cultivando amizade com todos que passaram pela minha vida, Pela minha lida, Descobri meu despreparo para uma partida, E enterrei-o numa irrevogável e triste despedida.




O QUE FICOU EM SEU LUGAR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98
Se desejar, clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo

Não me lembro das noites que você vinha me ver, As noites altas e mortas, Sem sonhos ou pesadelos, O seu ver deveria ser para ti um bem supremo, E me pergunto se a alma será, talvez, a função maior do olhar, Não me lembro de nenhum sentimento seu que a diferenciasse dos sentimentos gerais que visitam qualquer tipo de criança, Só os adultos me falavam de minhas brincadeiras e de minhas alegrias noturnas, E eles adivinhavam quando, Ao som de meus passos, E à porta de seus aposentos, Ouviam-me a voz e meu andar conheciam, Mas jamais se assustavam, Ao ver-me acordado para tê-la, A mais levantada recompensa que podia ansiar uma mulher que precisava de amor, De lágrimas enxugadas que derramaram à sua despedida, Sempre acordei com o espírito em paz, E nos meus dias viviam meus olhos de sonhador, E o afeto de que você me envolvia propagando-se ao redor deles, Você deveria estar dentro de mim quando carregava meu boneco de pano, Sentindo-se uma mãe com o filho no colo, Dizem que você sempre me acompanhava para onde eu fosse, E para onde fui um dia distante resolveram afastá-la de mim, Alguém que lhe ouvia e lhe sentia, Alguém que gritou aos seus ouvidos que se você realmente me amasse deveria afastar-se de mim para sempre, Sem nenhuma promessa de que me reencontraria, E de volta ao meu reduto, Você, Ainda saudosa e persistente, Se viu forçada a deixar-me dormir meu sono por uma Ave-maria, Com o coração liberto, Na mão de Deus, E nas minhas novas noites inquietas em outra estância viviam meus olhos paralisados por terror, Tormentos com o gosto da morte que você experimentou, Sem nenhum anjo protetor, Até que certa vez tudo passou, Com seu silêncio para lembrar, Pela voz dos tempos, Que a vida passa, E a morte também.


O AMOR ESTÁ POR TODA PARTE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

Dá arrepios do pé à cabeça, Surge quando nada mais se espera que aconteça, 

Sempre esteve escrito no céu, Cantado pelo vento, Doce como o mel, Livre como o pensamento, 

Nunca teve um antes, Nunca terá um depois, Eterniza os amantes, Platoniza uma relação a dois, 

Liberta corações acorrentados, Prende a razão na cela do sentimento, Desmancha prazeres indesejados,Traz de volta paixões esquecidas no tempo, 

Faz uma promessa de fidelidade, E recebe outra de volta, Redescobre a felicidade, E de sua mão jamais solta, 

Dorme com um rosto angelical, Olhar meigo e desconcertante, Acorda com uma voz jovial, Sorriso lindo e contagiante, 

Nunca teve um começo, Nunca terá um fim, Tem coração que bate do lado do avesso, Idade treze vezes maior que a de um querubim, 

Sempre será sentido no ar, Contado em prosa e verso, Profundo como o mar, Imenso como o universo, 

Dá calafrios da cabeça ao pé, Surge quando tudo o que sobrou é menos que a fé.


et We