quinta-feira, 22 de setembro de 2016

CORDÃO DE PRATA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Um coração começa a bater
Onde há silêncio e nenhuma gravidade
Uma inconsciência começa a sonhar
Sonhos dela
Sonhos seus
Sonhos de dois mundos
Um par de olhos fechados abre-se
Onde a visão é turva e de curto alcance
Uma mente começa a pensar
Pensamentos dela
Pensamentos seus
Pensamentos de duas inteligências
Uma boca cerrada começa a se abrir
Onde há alimento de mulher
Um pulmão começa a respirar
Respirações dela
Respirações suas
Respirações de dois elementos
Um par de ouvidos começa a ouvir
Onde há ressonância e nenhuma agitação
Um corpo começa a sentir
Sentimentos dela
Sentimentos seus
Sentimentos de dois estímulos
Um par de lágrimas começa a escorrer
Onde há água e nenhum temor
Uma alma começa a intuir
Intuições dela
Intuições suas
Intuições de duas empatias
Um espaço começa a se expandir
Onde há fardo e nenhuma segurança
Uma consciência começa a amar
Amores dela
Amores seus
Amores de duas criaturas

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PARÁGRAFOS 95 A 98 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O daimon de Tilly costumava lhe dizer que a vida em si já é uma expiação e o aconselhava a carregar sua cruz com classe e jamais cair na tentação do satanás de aliviar o peso do seu fardo, e não ter com ele nenhum tipo de envolvimento, nem por brincadeira. O daimon de Tilly era adivinho, filósofo, profeta e cristológico.
Cuide para que não recaiam sobre ti carmas recalcitrantes por teres envaidecido o arqui-inimigo de deus na sua própria casa com a desculpa de que uma vez lá estando nada te custaria saudá-lo. Em verdade te digo, chegará um dia em que encontrarás o tinhoso numa boa hora e ele tentará te seduzir e te fazer hóspede em sua morada, se demorará na sua mestria cerimonial e tardará em lhe servir uma saideira de modo que para se desvencilhar dele terás que ser mais ardiloso que o próprio.
Tilly costumava participar a Onedin tudo o que seu daimon lhe dizia, e Onedin não só se encantava com essas histórias de gênios como também adorava remedá-las, parafraseá-las e parodiá-las, pelo simples prazer de entreter sua mente. Não existe nenhuma palavra no vocabulário desta língua ou de qualquer outra estrangeira que possa explicar Onedin. Espirituoso é um vocábulo atraente e tentador, mas está muito distante de uma definição apropriada para o caráter de Onedin. A maior dificuldade de se encontrar palavras para explicar a personalidade de Onedin talvez resida no fato dele sempre parecer se situar exatamente na fronteira que separa um gênio de um louco. Ele não era nem um, nem outro e tampouco um meio termo dos dois. Talvez fosse um novo tipo psicológico ainda não descoberto pelos cientistas. Talvez ele fosse aquela resposta que Tilly recebeu do Dr. Allen Hynek: Se eu dissesse de onde ele vem eu estaria mentindo, pois ninguém nem mesmo sabe o que ele é. Mas, como dizia aquele presidente ignorante e obtuso da América, make no mistake about it, Onedin era humano e deste globo terrestre e nele vivia embora ele fosse capaz de se desvencilhar o suficiente de todos os laços da realidade relativa para criar seu próprio mundo. E ele viva como qualquer cidadão que tem o direito de entrar numa biblioteca pública, folhear e tomar livros emprestados, devolve-los e consultar outros. Ele também ouvia vozes, mas nunca as atribuía a daimons. Nunca acreditou que alguém pensasse ou falasse por ele. Sempre achou que as vozes eram apenas ecos de seus próprios pensamentos, típicas de uma pessoa que, como ele, tinha o costume de constantemente falar com seus botões e confabular com sua consciência. Ele também tinha visões, mas nunca se deixou envolver por elas, e também jamais abstraiu delas qualquer ideia própria. Ele simplesmente as contemplava enquanto seu incansável inconsciente se incumbia do resto. Onedin era sociável, participativo, oferecido e de raciocínio rápido. Ele respondia a tudo, no ato, sem pensar muito e sem nenhuma intenção de zombar ou de pousar de engraçado e intelectual. Nenhuma pergunta ou observação a ele feita ficava sem resposta ou sem um comentário. Onedin só emudecia diante de Tilly, a quem ouvia atentamente, e para os demais falava tudo o que Tilly remoía em casa, sozinho, por horas a fio, lamentando-se sempre por não ter dito o que precisava ser dito na hora certa, e inutilmente se vangloriando de todas as respostas à altura que ele esculpia meticulosamente, imaginando o efeito que elas teriam produzido se fossem ditas nos instantes que já passaram e não voltam mais. Onedin era um anseio por rigidez de caráter aparentado por Tilly e este um sonho de liberalismo inconsciente representado por Onedin que não era santo, nem satânico, nem tão burro, e muito longe de ser brilhante, mas não totalmente desprovido de malícia beatificada, bondade mefistofélica, repentes irracionais e sobre-humanos. Era inútil querer encontrar em suas palavras beleza e elegância de expressão, vivacidade de matuto, ou ironia refinada e voltairiana. Onedin era também muito prestativo, ou pelo menos isso era o que ele fingia ser, e falava por falar, para não se omitir e não ser negligenciado, sempre com boa fluência e conteúdo, parecendo culto, mas era apenas um curioso, um palpiteiro afetado por criptomnésia crônica e, invariavelmente, se complicava, pois boa parte do que dizia sempre transgredia o contexto em que se encontrava. Onedin lembrava muita a morte quando esta cometia um deslize. Quanto mais ele queria consertar uma ideia mal formulada e mal compreendida, mais ele se alongava, iniciando um interminável corolário de complicações, mas ele sempre acabava encontrando meios de se safar tão intrincados quanto suas próprias enrascadas. Se não fosse o fato dele ter registrado esta história, ele seria mais uma pessoa inexplicável, passageira e esquecível, como Pacífico e Bombeiro, mais um ser cuja existência na terra passou completamente despercebida, um nome que nunca existiu para a posteridade, um ser sem sentido, como a terra antes do surgimento da capacidade reflexiva do homem e que não fazia sentido para os seres que a habitavam e nem para este universo que a abriga como uma das inúmeras e  pequenas incrustações num grão de areia do oceano. Se um dia Onedin apreendeu um pouco de ingenuidade no seu convívio com Tilly, este pouco de pureza que ele conservou foi contaminado pela perversão e hipocrisia da sociedade e pelo seu total desapego a juízos de conduta humana no que concerne conceitos do bem e do mal, mas o seu sarcasmo ficava reservado somente aos seus pensamentos que eram dirigidos mais enfática e desavergonhadamente aos perpetradores do mal, como o belzebu mutreteiro das advertências do daimon de Tilly.
Sabe, seu capeta, não querendo fazer média com o senhor, mas eu acho o seu inferno impecável. Estas fornalhas inspiradas no holocausto de Hiroshima são impagáveis. E eu que pensei que fosse encontrar aqui apenas aqueles caldeirões de pigmeus, fogueiras da santa inquisição e até mesmo aqueles fornos dos campos de concentração nazistas! Agora, essa sopa de merda que é servida aqui é simplesmente do cacete, ou melhor, do anus mesmo, e com certeza faria os mais finos paladares das moscas parasitas do distrito federal renderem-se ao seu inigualável sabor. E esse cheiro de enxofre então? É denso, substancioso e delirante! Nem todos os peidos de toda a humanidade soltos ao mesmo tempo se comparam a esse telecoteco em sovaco de nêga, cheio de manteiga de se lambuzar, e com catinga de macaco misturada com a de gambá. Estou tão chapado que vou voltar planando. O senhor me dá licença mas eu tenho que ir mesmo, mas eu retorno. Eu preciso ir porque não acho justo deixar meus amigos e convivas se iludindo com o reino absoluto dos céus depois de eu ter conhecido esta livre democracia terrena que não cobra dízimos e nem exige vestes nupciais para entrar. O senhor não perde por esperar! Este seu humilde e honrado penetra há de aqui regressar em breve como o melhor guia de almas e balas perdidas que esta zona maravilhosa cheia de encantos mil jamais viu.


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THE BEATLES: ONDE VOCÊ ESTAVA? ALLEN GINSBERG, POETA AMERICANO DA CONTRACULTURA E REBELIÕES JUVENIS DOS ANOS 60


Texto de autoria de Alceu Natali, baseado em depoimento de ALLEN GINSBERG à revista Rolling Stone. Direito autoral protegido pela Lei 9610/98.

Lembro-me direitinho daquela noite, do momento exato, quando fui a um lugar em Nova Iorque chamado THE DOM, e os Beatles cantaram I WANT TO HOLD YOUR HAND, com aquele som contralto intenso, OOOH, que entrou direto no meu crânio e, num instante, percebi que aquele som iria entrar direto no crânio da civilização ocidental. Comecei a dançar em público pela primeira vez na minha vida. Senti um prazer e um relaxamento impetuoso, mandando às favas toda timidez e todas as preocupações da vida. Eles tinham um ritmo alegre. Suas vozes eram generosas, francas, joviais e solidárias. Eles não eram apenas quatro caras formando uma banda. Eles se amavam, tinham muita consideração uns pelos outros. Lembro-me que naquela noite no THE DOM me dei conta que a dança dos negros havia sido devolvida aos brancos ocidentais, que as pessoas iriam retornar aos seus corpos, e que os americanos iriam rebolar. Os Beatles mudaram a consciência dos americanos. Inventaram uma música repleta de masculinidade aliada a ternura e vulnerabilidade cabais. E quando foi aceita na América, esta música, mais do que qualquer outra coisa e qualquer outra pessoa neste país, nos ensinou a ter uns com os outros um certo tipo de relação mais afetiva, mais sincera e de mente mais aberta. Os Beatles fizeram isso com a América e com o mundo inteiro. Na mesma época, aquele garoto de apenas 15 anos do hemisfério sul, citado no primeiro texto acima
, já havia sentido I WANT TO HOLD YOUR HAND não apenas penetrar em seu crânio, mas também cortar seu coração, quando ele, inocentemente, brincava com o jogo de botão e pela primeira vez em sua vida sentiu sua alma extasiar-se, arrebatar-se e comover-se com uma música saindo do rádio ao seu lado. O garoto era tímido e bipolar, mas já conseguia dançar em público nos bailinhos nas casas dos amigos nos fins de semana. A partir daquele momento, ele aprendeu também a tocar guitarra e a cantar, cantar em inglês todas as músicas dos Beatles. Seus amigos também se apaixonaram pela música dos Beatles, mas não entediam o que eles diziam naquela língua estrangeira. Mas entender para quê? Música é melodia e não letra. Quem gosta de palavras lê poesia. Quem gosta de música não se importa se ela é cantada em língua viva ou morta. O que importa é a melodia, o arranjo, a progressão e originalidade melódicas, a voz humana, solo ou em coro, fazendo apenas o papel de mais um instrumento no conjunto. São estes ingredientes, e não as palavras, que alimentam a alma. E almas de todo o mundo conheceram um novo alimento que não se provava desde os tempos de Beethoven, Mozart, Bach e outros gênios da música clássica. Sem os Beatles, nós jamais teríamos música na forma como os britânicos continuam quintessenciando até os dias de hoje. 



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QUIASMO RIMADO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


A Estive no Vale da Amoreira e soube do crime proibido de se comentar
B Fui à casa da Cândida, conheci sua mãe e sua avó que gostam de conversar
C Estive na Galileia, vi Jesus e a rainha da Inglaterra
D Lady Jane levou-me ao convento na idade média onde minha amada se aferra
E Estive no consultório da Lilian para socorrer uma vida que estava por um fio
F Voei até Nimes nublada e acinzentada sobre a baixada Fluminense no Rio
G Encontrei-me com a civilização dos ursos humanos de diferentes ideologias
H Falei com meu pai pela última vez amarrado a uma cama e cheio de agonias
I Pediram-me para explicar a espada de Dâmocles que afeta dois casais
J Sai voando pela janela até a casa de meus pais
K Segui voando pelas ruas e atravessei a porta de cultos espirituais
L Voltei a Galileia e invadi a área reservada à crucificação
L Ali morri com uma lança romana cravando-me no chão
K Encontrei Dona Ana sentada trabalhando desde tempos imemoriais
J Só duas jovens freiras morenas reconheceram-me na minha invisibilidade
I Li no jornal que a insegurança do poder paira sobre nossa infidelidade
H Reencontrei meu pai num hospital na cidade de Campo de Marte que não tem mar
G Encontrei-me com os humanos do futuro que são todos gêmeos e falam bem devagar
F Visitei a Nimes romana no sul do território francês
E Trouxe de volta o rebelde e quase suicida japonês
D O amor de minha vida virou freira e trocou-me por Deus
C Fui levado ao Himalaia para ver o homem das neves lá do alto acenar adeus
B Na casa da minha amiga, o cão vivo é manso, mas o morto era bravo e ladrou
A Descobri quem matou, quem morreu e quem escapou


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ESCOLHIDA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Sírio, As trilhas encruzilhadas, 
Revoluciona promessas, Esquece-as, 
Orbita, Realidades escondidas, 
O espelho que se ofusca em reflexo, 

Dos embalos nos braços da mãe, 
Até as danças com a irmã, 
De uma escolha Sofia morre metade, 
Último olhar para a filha, Qual eterno amanhã. 

Campos de centeios dobrados, 
Transladados, Rotacionados em Zeus, 
Se assopram, Menina e boneca apartadas
Em corpo e espírito: Aural, Quase Deus!

To pneuma pnei qegei


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AS BOAS NOVAS QUE OS CRISTÃOS COPIARAM DOS ROMANOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O assassinato de Júlio César no ano 44 a.e.c (Antes Da Era Comum, que o cristianismo chama de AC, antes de Cristo), mergulhou a República Romana numa guerra civil que durou 17 anos. No ano 27 a.e.c., Caio Otávio, membro de um rico e antigo ramo equestre da família plebeia dos Otávios, saiu vencedor, declarou o fim das guerras civis, recebeu o título de César Augusto pelo senado, transformou Roma no maior império da humanidade, do ponto de vista temporal, e instituiu a Pax Romana, um longo período de paz que duraria até o ano de 180 e.c. (Era Comum, que os cristãos chamam de DC, depois de Cristo).  Com a ascensão de César Augusto ao poder, templos asiáticos gravaram em lajes de mármore um decreto de mudança de calendário, dedicado ao império romano e a Augusto César, o primeiro imperador de Roma. Eis os dizeres destas lajes encontradas por toda a Ásia, especialmente na Grécia a.e.c. 


...Ao passo que a Providência adornou nossas vidas com o mais elevado de todos os bens: Augusto. E a Providência, com sua caridade, concedeu a nós e aos que virão depois de nós, um Salvador que pôs fim à guerra e colocará tudo em ordem pacífica e como resultado disto o aniversário de nosso Deus sinalizou o início das Boas Novas para o mundo. Portanto, os Gregos na Ásia decretaram que o Ano Novo começa para todas as cidades no dia 23 de Setembro e o primeiro mês será observado como o mês de César, o dia do aniversário de César...


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PARÁGRAFOS 99 A 108 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Tilly exauriu tudo o que ele queria saber e divulgar sobre o The Who de maneira que não restou mais nenhuma gota etílica para transbordar o copo padecido e cheio de marolas que o Mensageiro da Decepção segurava com mãos trêmulas como se sofresse do mal de Parkinson. Este foi o início do fim do relacionamento entre os dois. A culpa não era do The Who, mas da falta de uma amizade genuína entre eles. Tilly, que se tornou seu companheiro de bebedeira, até que tentou. No auge de um de suas embriaguezes, Tilly propôs que os dois escrevessem um livro juntos, mas foi imediatamente ridicularizado. Tilly passou a ser tratado com mais compaixão e menos seriedade quando ele anunciou o abandono completo do fumo e do álcool por conta de um namoro que ele iniciara com algo que ele acreditava ser mais numinoso que um sonho, sendo que este em si já é algo demasiada e freudianamente infantil para a maioria para merecer crédito. Por fim, Tilly soltou um gás debochado, acintoso e fedorento na frente do Mensageiro o que lhe causou repulsa e indignação. O Mensageiro podia cair pelas tabelas, mas nunca perdia a compostura. Não soltava palavrões e nem urinava nas calças. Vomitava só quando chegava em casa. Assim, o cristo e o seu algoz fizeram um pacto não declarado de separação e nunca mais se viram. Da parte de Tilly, o que garantiu este afastamento definitivo foram aquela flatulência posta em liberdade incondicional, sua ausência no velório e no enterro da mãe do Mensageiro e sua recém-adquirida fama de embusteiro que se espalhou pela família até chegar aos ouvidos do Mensageiro. E da parte deste, foi apenas seu incurável hábito de desonrar um compromisso.

Para Tilly a palavra empenhada não tinha valor absoluto e dependia do grau de risco envolvido no seu cumprimento. Compromissos eram bem mais relativizados e se orientavam pela imprevisibilidade das circunstâncias que os cercavam. Tilly era capaz de escrever uma peça teatral em idioma estrangeiro para sua escola e ainda protagonizá-la e era capaz também de não comparecer no dia da sua primeira apresentação, deixando todo mundo na mão, porque seu pai chegou tarde e não pode lhe emprestar o carro como de costume. Tilly tinha medo de voltar da escola de ônibus à noite. Com um talento rarefeito como a atmosfera marciana e ainda eclipsado pelos seus fobos e deimos, em sua breve passagem por estas paragens Tilly acumulou os mais inimagináveis excessos que a natureza humana é capaz de cometer. Exageros que a natureza que obra sem malícia é incapaz de engendrar, mas que a ela são imputados por conta dos atos de deus que às vezes ela usa para se manifestar e dos quais o homem se aproveita para justificar a intempérie sua se cada dia.

Os nativos do paraíso perdido do norte homenageavam os mortos de caras pálidas com faces lavadas de pó azul. A vegetação verdejante das terras do novo mundo torna-se azul quando vista a uma distância excessiva. O preto culto que trabalha de paletó e gravata para o branco é negro do ébano, quase azul de tão preto. Mas o preto inculto, mísero e azul de tão negro é escravo no novo paraíso dos brancos e apelidado de azulão. As estrelas brancas que iluminam os céus do novo éden e que perdem o controle de suas temperaturas ficam azuis, as mais quentes do universo. Por isso o anil não combina com a frieza que lhe é atribuída e nem com Tilly. Ele não sabia mentir e se entregava facilmente. Tilly também não combinava com o tudo azul de seu país em completa ordem imoral e em franco progresso amoral. Ele combinava mais com a tristeza desta cor no lar dos bravos. Isso já era evidente quando ele compunha músicas num inglês atravessado na sua adolescência.

Ay see us nay tall. Ay see us blue. Crying is our label. Pain is our rule.

Tilly não tinha sangue azul. Era pobre. Não ficava azul de fome nem de raiva. Era esbelto, de corpo atlético. Comia só para repor calorias. Era chorão, medroso, ciumento e melindroso, mas não raivoso. O que, então, poderia fazê-lo migrar do enganoso vazio total e neutro para a mais absoluta casticidade? O espírito, pensou alto seu daimon polivalente, fazendo as vezes de um poeta.                   

O espírito cábulo que não se manifesta nem a cada lua azul. Joga só com o nome e pelo nome não atende quando invocado no reduto do seu suplicante ou em estância forânea. Tem ojeriza draculiana da luz do dia que desce com o fogo do sol e derrete o orvalho da terra, que não se debela com a água da chuva e só bruxuleia com o sopro do ar.
 
O espírito psicóide que vem do nada e vem do azul. Sintoniza um sincrônico e, sem ser chamado, a ele se reapresenta para onde quer que seu refúgio tenha se mudado. Colhe fôlego do ar e nele se camufla quando desce à terra, esgueirando-se pela água que não molha e pelo fogo que não queima.
 
O espírito desarmado que não traz inimigo e também não põe azul sobre azul. Fala com os olhos e pela mente se expressa em sonho, mas adormece os sentidos na vigília. Renova suas feições da terra e confunde como fogo amigo. Testemunha a água de lágrimas assustadas e o ar gentilmente abanado pelas preces murmuradas.
 

O espírito anacrônico que não deixa seu nome entrar num livro azul e o abandona numa lápide. Zela pelos que ficaram e dele não se sabe o que se espera, mas a ele mais se pede do que se tem para dar. Materializa-se como vapor de água que não pode ser bebida pela terra. Desaparece como o fogo da vela que se extingue e esvanece com o aroma de incenso que esteriliza o ar.


Tilly entrou para a espiritualidade como um anjo manquitolando e foi logo acolhido sob os auspícios de um cristo e de um patrono, e lá chegou como chegam todos os que procuram suas identidades nos conglomerados humanos e precisam ser resgatados do anonimato. Todos que se tratam de doenças psicossomáticas e são logo devolvidos à mesma vida de sempre. E de lá também saem contingentes flutuantes trocando a aldeia do campo pela da praia, e lá permanecem os capitães hereditários com seus séquitos de carregadores de tirso. Tilly estreou feito um aleijado de corpo e alma, embora não precisasse de muleta nem de cadeira de rodas e tivesse cabeça para pensar e uma fé menos cética que a de São Tomé. Antes de se apoiar nas próprias pernas e opiniões, ele adulou quem gosta de ser adulado e esnobou quem precisava ser amparado. Por uns tempos, Tilly se tornou mais um bobo da corte que dá quórum a discursos públicos e que, não se sentindo evidenciado o suficiente, revolve como figurante ao redor de coadjuvantes e engrossa rodinhas até poder chegar às bacantes. Antes de esboçar qualquer curiosidade científica, Tilly conviveu com boçais com iniciativa e que se escandalizam com o feminino na vida de deus, que priorizam a obsessão sobre a educação, que montam calendários letivos com esquemas de compensação de feriados, que se respaldam no ócio, na mordomia e na perpetuação do privilégio das repartições públicas e rezam como se estivessem carimbando documentos. Como todos os boçais, Tilly não conseguiu deixar de ser também um oportunista que aparece melhor no dia de servir caldo e água benta, no dia de dar bênçãos com mãos levianas. Para encontrar um refúgio para sua insegurança, Tilly deixou se guiar pelo cajado de pastores escatológicos. Para encontrar seu oásis ele peregrinou e se extenuou no deserto da ignorância. E para encontrar o porto protetor da sua alma naufragou nas águas do dogmatismo e se deixou levar pela maré do fanatismo.



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ANA CAROLINA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Volte mais uma vez à minha lembrança, Suba neste tamanho de criança, Estique as mãos para cima, Toque o céu com mãos de menina, Acenda cada estrela com dedos iluminados, Deixe a noite clarear todos os abandonados, Entre na minha vida mais uma vez de revés, Erga-se acima de seus próprios pés, Alce um voo de anjo com seus braços, Acompanhe o universo em todos os seus passos, Sobreponha suas mãos sobre cada cabeça, Vibre por elas e não deixe que nada lhes aconteça, Não me deixe nunca mais na saudade, Desça desse tamanho de maioridade, Dobre seus joelhos para baixo, Abençoe a terra sossegando seu facho, Apague cada mágoa com suas fervorosas vibrações, Deixe o mundo bater igual a todos os corações, Fique na minha vida para sempre em linha reta, Abaixe-se até o nível de sua postura ereta, Projete sua alma até alcançar a esperança, Deixe toda a humanidade com ar de criança, Receba a ingenuidade como num passe espiritual, Vibre com seus fluidos e espalhe seu amor imortal.


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