quinta-feira, 22 de setembro de 2016

CORDÃO DE PRATA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Um coração começa a bater
Onde há silêncio e nenhuma gravidade
Uma inconsciência começa a sonhar
Sonhos dela
Sonhos seus
Sonhos de dois mundos
Um par de olhos fechados abre-se
Onde a visão é turva e de curto alcance
Uma mente começa a pensar
Pensamentos dela
Pensamentos seus
Pensamentos de duas inteligências
Uma boca cerrada começa a se abrir
Onde há alimento de mulher
Um pulmão começa a respirar
Respirações dela
Respirações suas
Respirações de dois elementos
Um par de ouvidos começa a ouvir
Onde há ressonância e nenhuma agitação
Um corpo começa a sentir
Sentimentos dela
Sentimentos seus
Sentimentos de dois estímulos
Um par de lágrimas começa a escorrer
Onde há água e nenhum temor
Uma alma começa a intuir
Intuições dela
Intuições suas
Intuições de duas empatias
Um espaço começa a se expandir
Onde há fardo e nenhuma segurança
Uma consciência começa a amar
Amores dela
Amores seus
Amores de duas criaturas

video

PARÁGRAFOS 95 A 98 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O daimon de Tilly costumava lhe dizer que a vida em si já é uma expiação e o aconselhava a carregar sua cruz com classe e jamais cair na tentação do satanás de aliviar o peso do seu fardo, e não ter com ele nenhum tipo de envolvimento, nem por brincadeira. O daimon de Tilly era adivinho, filósofo, profeta e cristológico.
Cuide para que não recaiam sobre ti carmas recalcitrantes por teres envaidecido o arqui-inimigo de deus na sua própria casa com a desculpa de que uma vez lá estando nada te custaria saudá-lo. Em verdade te digo, chegará um dia em que encontrarás o tinhoso numa boa hora e ele tentará te seduzir e te fazer hóspede em sua morada, se demorará na sua mestria cerimonial e tardará em lhe servir uma saideira de modo que para se desvencilhar dele terás que ser mais ardiloso que o próprio.
Tilly costumava participar a Onedin tudo o que seu daimon lhe dizia, e Onedin não só se encantava com essas histórias de gênios como também adorava remedá-las, parafraseá-las e parodiá-las, pelo simples prazer de entreter sua mente. Não existe nenhuma palavra no vocabulário desta língua ou de qualquer outra estrangeira que possa explicar Onedin. Espirituoso é um vocábulo atraente e tentador, mas está muito distante de uma definição apropriada para o caráter de Onedin. A maior dificuldade de se encontrar palavras para explicar a personalidade de Onedin talvez resida no fato dele sempre parecer se situar exatamente na fronteira que separa um gênio de um louco. Ele não era nem um, nem outro e tampouco um meio termo dos dois. Talvez fosse um novo tipo psicológico ainda não descoberto pelos cientistas. Talvez ele fosse aquela resposta que Tilly recebeu do Dr. Allen Hynek: Se eu dissesse de onde ele vem eu estaria mentindo, pois ninguém nem mesmo sabe o que ele é. Mas, como dizia aquele presidente ignorante e obtuso da América, make no mistake about it, Onedin era humano e deste globo terrestre e nele vivia embora ele fosse capaz de se desvencilhar o suficiente de todos os laços da realidade relativa para criar seu próprio mundo. E ele viva como qualquer cidadão que tem o direito de entrar numa biblioteca pública, folhear e tomar livros emprestados, devolve-los e consultar outros. Ele também ouvia vozes, mas nunca as atribuía a daimons. Nunca acreditou que alguém pensasse ou falasse por ele. Sempre achou que as vozes eram apenas ecos de seus próprios pensamentos, típicas de uma pessoa que, como ele, tinha o costume de constantemente falar com seus botões e confabular com sua consciência. Ele também tinha visões, mas nunca se deixou envolver por elas, e também jamais abstraiu delas qualquer ideia própria. Ele simplesmente as contemplava enquanto seu incansável inconsciente se incumbia do resto. Onedin era sociável, participativo, oferecido e de raciocínio rápido. Ele respondia a tudo, no ato, sem pensar muito e sem nenhuma intenção de zombar ou de pousar de engraçado e intelectual. Nenhuma pergunta ou observação a ele feita ficava sem resposta ou sem um comentário. Onedin só emudecia diante de Tilly, a quem ouvia atentamente, e para os demais falava tudo o que Tilly remoía em casa, sozinho, por horas a fio, lamentando-se sempre por não ter dito o que precisava ser dito na hora certa, e inutilmente se vangloriando de todas as respostas à altura que ele esculpia meticulosamente, imaginando o efeito que elas teriam produzido se fossem ditas nos instantes que já passaram e não voltam mais. Onedin era um anseio por rigidez de caráter aparentado por Tilly e este um sonho de liberalismo inconsciente representado por Onedin que não era santo, nem satânico, nem tão burro, e muito longe de ser brilhante, mas não totalmente desprovido de malícia beatificada, bondade mefistofélica, repentes irracionais e sobre-humanos. Era inútil querer encontrar em suas palavras beleza e elegância de expressão, vivacidade de matuto, ou ironia refinada e voltairiana. Onedin era também muito prestativo, ou pelo menos isso era o que ele fingia ser, e falava por falar, para não se omitir e não ser negligenciado, sempre com boa fluência e conteúdo, parecendo culto, mas era apenas um curioso, um palpiteiro afetado por criptomnésia crônica e, invariavelmente, se complicava, pois boa parte do que dizia sempre transgredia o contexto em que se encontrava. Onedin lembrava muita a morte quando esta cometia um deslize. Quanto mais ele queria consertar uma ideia mal formulada e mal compreendida, mais ele se alongava, iniciando um interminável corolário de complicações, mas ele sempre acabava encontrando meios de se safar tão intrincados quanto suas próprias enrascadas. Se não fosse o fato dele ter registrado esta história, ele seria mais uma pessoa inexplicável, passageira e esquecível, como Pacífico e Bombeiro, mais um ser cuja existência na terra passou completamente despercebida, um nome que nunca existiu para a posteridade, um ser sem sentido, como a terra antes do surgimento da capacidade reflexiva do homem e que não fazia sentido para os seres que a habitavam e nem para este universo que a abriga como uma das inúmeras e  pequenas incrustações num grão de areia do oceano. Se um dia Onedin apreendeu um pouco de ingenuidade no seu convívio com Tilly, este pouco de pureza que ele conservou foi contaminado pela perversão e hipocrisia da sociedade e pelo seu total desapego a juízos de conduta humana no que concerne conceitos do bem e do mal, mas o seu sarcasmo ficava reservado somente aos seus pensamentos que eram dirigidos mais enfática e desavergonhadamente aos perpetradores do mal, como o belzebu mutreteiro das advertências do daimon de Tilly.
Sabe, seu capeta, não querendo fazer média com o senhor, mas eu acho o seu inferno impecável. Estas fornalhas inspiradas no holocausto de Hiroshima são impagáveis. E eu que pensei que fosse encontrar aqui apenas aqueles caldeirões de pigmeus, fogueiras da santa inquisição e até mesmo aqueles fornos dos campos de concentração nazistas! Agora, essa sopa de merda que é servida aqui é simplesmente do cacete, ou melhor, do anus mesmo, e com certeza faria os mais finos paladares das moscas parasitas do distrito federal renderem-se ao seu inigualável sabor. E esse cheiro de enxofre então? É denso, substancioso e delirante! Nem todos os peidos de toda a humanidade soltos ao mesmo tempo se comparam a esse telecoteco em sovaco de nêga, cheio de manteiga de se lambuzar, e com catinga de macaco misturada com a de gambá. Estou tão chapado que vou voltar planando. O senhor me dá licença mas eu tenho que ir mesmo, mas eu retorno. Eu preciso ir porque não acho justo deixar meus amigos e convivas se iludindo com o reino absoluto dos céus depois de eu ter conhecido esta livre democracia terrena que não cobra dízimos e nem exige vestes nupciais para entrar. O senhor não perde por esperar! Este seu humilde e honrado penetra há de aqui regressar em breve como o melhor guia de almas e balas perdidas que esta zona maravilhosa cheia de encantos mil jamais viu.


video

THE BEATLES: ONDE VOCÊ ESTAVA? ALLEN GINSBERG, POETA AMERICANO DA CONTRACULTURA E REBELIÕES JUVENIS DOS ANOS 60


Texto de autoria de Alceu Natali, baseado em depoimento de ALLEN GINSBERG à revista Rolling Stone. Direito autoral protegido pela Lei 9610/98.

Lembro-me direitinho daquela noite, do momento exato, quando fui a um lugar em Nova Iorque chamado THE DOM, e os Beatles cantaram I WANT TO HOLD YOUR HAND, com aquele som contralto intenso, OOOH, que entrou direto no meu crânio e, num instante, percebi que aquele som iria entrar direto no crânio da civilização ocidental. Comecei a dançar em público pela primeira vez na minha vida. Senti um prazer e um relaxamento impetuoso, mandando às favas toda timidez e todas as preocupações da vida. Eles tinham um ritmo alegre. Suas vozes eram generosas, francas, joviais e solidárias. Eles não eram apenas quatro caras formando uma banda. Eles se amavam, tinham muita consideração uns pelos outros. Lembro-me que naquela noite no THE DOM me dei conta que a dança dos negros havia sido devolvida aos brancos ocidentais, que as pessoas iriam retornar aos seus corpos, e que os americanos iriam rebolar. Os Beatles mudaram a consciência dos americanos. Inventaram uma música repleta de masculinidade aliada a ternura e vulnerabilidade cabais. E quando foi aceita na América, esta música, mais do que qualquer outra coisa e qualquer outra pessoa neste país, nos ensinou a ter uns com os outros um certo tipo de relação mais afetiva, mais sincera e de mente mais aberta. Os Beatles fizeram isso com a América e com o mundo inteiro. Na mesma época, aquele garoto de apenas 15 anos do hemisfério sul, citado no primeiro texto acima
, já havia sentido I WANT TO HOLD YOUR HAND não apenas penetrar em seu crânio, mas também cortar seu coração, quando ele, inocentemente, brincava com o jogo de botão e pela primeira vez em sua vida sentiu sua alma extasiar-se, arrebatar-se e comover-se com uma música saindo do rádio ao seu lado. O garoto era tímido e bipolar, mas já conseguia dançar em público nos bailinhos nas casas dos amigos nos fins de semana. A partir daquele momento, ele aprendeu também a tocar guitarra e a cantar, cantar em inglês todas as músicas dos Beatles. Seus amigos também se apaixonaram pela música dos Beatles, mas não entediam o que eles diziam naquela língua estrangeira. Mas entender para quê? Música é melodia e não letra. Quem gosta de palavras lê poesia. Quem gosta de música não se importa se ela é cantada em língua viva ou morta. O que importa é a melodia, o arranjo, a progressão e originalidade melódicas, a voz humana, solo ou em coro, fazendo apenas o papel de mais um instrumento no conjunto. São estes ingredientes, e não as palavras, que alimentam a alma. E almas de todo o mundo conheceram um novo alimento que não se provava desde os tempos de Beethoven, Mozart, Bach e outros gênios da música clássica. Sem os Beatles, nós jamais teríamos música na forma como os britânicos continuam quintessenciando até os dias de hoje. 



video

QUIASMO RIMADO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


A Estive no Vale da Amoreira e soube do crime proibido de se comentar
B Fui à casa da Cândida, conheci sua mãe e sua avó que gostam de conversar
C Estive na Galileia, vi Jesus e a rainha da Inglaterra
D Lady Jane levou-me ao convento na idade média onde minha amada se aferra
E Estive no consultório da Lilian para socorrer uma vida que estava por um fio
F Voei até Nimes nublada e acinzentada sobre a baixada Fluminense no Rio
G Encontrei-me com a civilização dos ursos humanos de diferentes ideologias
H Falei com meu pai pela última vez amarrado a uma cama e cheio de agonias
I Pediram-me para explicar a espada de Dâmocles que afeta dois casais
J Sai voando pela janela até a casa de meus pais
K Segui voando pelas ruas e atravessei a porta de cultos espirituais
L Voltei a Galileia e invadi a área reservada à crucificação
L Ali morri com uma lança romana cravando-me no chão
K Encontrei Dona Ana sentada trabalhando desde tempos imemoriais
J Só duas jovens freiras morenas reconheceram-me na minha invisibilidade
I Li no jornal que a insegurança do poder paira sobre nossa infidelidade
H Reencontrei meu pai num hospital na cidade de Campo de Marte que não tem mar
G Encontrei-me com os humanos do futuro que são todos gêmeos e falam bem devagar
F Visitei a Nimes romana no sul do território francês
E Trouxe de volta o rebelde e quase suicida japonês
D O amor de minha vida virou freira e trocou-me por Deus
C Fui levado ao Himalaia para ver o homem das neves lá do alto acenar adeus
B Na casa da minha amiga, o cão vivo é manso, mas o morto era bravo e ladrou
A Descobri quem matou, quem morreu e quem escapou


video

ESCOLHIDA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Sírio, As trilhas encruzilhadas, 
Revoluciona promessas, Esquece-as, 
Orbita, Realidades escondidas, 
O espelho que se ofusca em reflexo, 

Dos embalos nos braços da mãe, 
Até as danças com a irmã, 
De uma escolha Sofia morre metade, 
Último olhar para a filha, Qual eterno amanhã. 

Campos de centeios dobrados, 
Transladados, Rotacionados em Zeus, 
Se assopram, Menina e boneca apartadas
Em corpo e espírito: Aural, Quase Deus!

To pneuma pnei qegei


video

FLATULÊNCIAS ACADÊMICAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. 

A jovem Dra Sigasmunda Peud, graduada em Gasorréia, pela University of Chicago, EUA, mestrado em Química da Flatulência, pela University of Cambridge, Inglaterra, doutorados em Problemas Filosóficos, Teológicos, Psicológicos, Sociológicos e Flatulentos do Homem Contemporâneo, pela Yale University, EUA, em Movimentos Peristálticos do Flato, pela University College London, Inglaterra, em Anatomia da Flatulência, pela Imperial College London, Inglaterra, em Imagens Arquetípicas da Flatulência, pela University of Oxford, Inglaterra, em História da Flatulência dos Seres Vivos do Planeta Terra, pela Harvard University, EUA, membro permanente do Departamento de Fisiologia Flatulenta da Princeton University dos EUA, do Departamento de Estudos Peidorreiros da Massachusetts Institute of Technology (MIT) dos EUA, e do Conselho de Segurança do Acordo de Proliferação de Gases não tóxicos das Nações Unidas, ganhou notoriedade mundial com o lançamento de seu best-seller, Eu e a Flatulência. O livro bateu todos os recordes mundiais de vendas, 6 bilhões de exemplares, superando a Bíblia que era o livro mais vendido no mundo. Foi traduzido para mais de 200 idiomas e mais de 5.000 dialetos e já se encontra na sua 156629ª edição. A Dra. Peud já recebeu indicações simultâneas aos Prêmios Nobel de Química, Medicina, Física, Psicologia e Antropologia. Num gesto inédito na carreira desta emérita profissional dos gases, e seguindo seu impulso filantro-peidorráceo, a Dra. Peud resolveu atender aos anseios dos quase 3 bilhões de leitores que aguardam a próxima edição de seu livro na fila de espera, e disponibilizou seu correio eletrônico para o público em geral e dar uma oportunidade única aos leigos. A assessoria da Dra. Peud selecionou algumas dos bilhões de perguntas que ela recebeu nesta primeira semana:

Quantos traques uma pessoa solta por dia? É verdade que os homens peidam mais que as mulheres? (Ernestina Traque da Silva, Jacaré dos Homens, AL).

Em média, uma pessoa produz cerca de meio litro de gases por dia, distribuídos em, aproximadamente, 14 peidos. Embora possa parecer difícil determinar seu volume flatulento diário, você pode fazer um controle da quantidade de peidos que solta. Encare isso como um projeto dos tempos de escola para a feira de ciências. Anote tudo o que você come e cada peido que você solta. Você pode, também, fazer um registro separado dos seus peidos potencialmente fedorentos. Assim, você poderá estabelecer uma relação entre o que você come, quantas vezes você peida e o potencial odorífico de cada peido. Quanto aos peidos por gênero, as mulheres peidam tanto quanto os homens. A diferença é que os homens se vangloriam demais de seus peidos, enquanto as mulheres são mais modestas. Existe uma enorme variação nos indivíduos no que diz respeito à quantidade de gás flatulento produzido por dia, mas esta variação não está associada ao gênero. Os antigos já diziam que o homem peida mais que a mulher. Se isso fosse verdade, então disso se poderia concluir que a mulher é mais parcimoniosa, mas, na verdade, ela expele mais gás por peido do que o homem. Outro conceito errado é achar que os peidos dos homens são mais fedidos que os peidos das mulheres, o que não é verdade. Meus estudos científicos do peido feminino atestam que o peido da mulher tem uma concentração de gases fedorentos mais alta do que dos peidos masculinos. O que tem induzido muitas pessoas ao erro é o fato de que os peidos dos homens são apenas mais volumosos que o das mulheres. Os dois fatores, volumétrico nos homens e de alta concentração nas mulheres, se equiparam, com a mesma quantidade de moléculas, de tal forma que os peidos de ambos têm o mesmo fedor.

Prezada Dra. Peud. Gostaria de saber qual é cor do pum. Consultei vários livros, mas não encontrei resposta. Um abraço. (Bufaldo Roncado, Jati Jijoca de Jericoacoara, CE).

Caro Sr. Bufaldo. Sua pergunta é muito pertinente visto que, não só a cor, mas também a constituição do peido em si desperta interesse mundial e atinge dimensões incalculáveis, com as mais variadas implicações científicas, sociais e até mesmo religiosas. O assunto tem sido motivo de muitos simpósios internacionais no meio acadêmico. Eu entendo sua dificuldade em encontrar uma resposta para sua pergunta em compêndios ortodoxos, visto que o estudo do peido é uma especialidade de acesso restrito ao leigo, dai minha ideia de lançar um livro que pudesse ser compreendido pelo público em geral e não somente pelos catedráticos. Vamos lá, então, à sua pergunta. O peido não tem cor. Todos os gases que compõem o peido não têm uma cor inerente. Os românticos veem nisso uma grande vantagem. Dizem eles que se o peido fosse, por exemplo, laranja fosforescente, acabaria a graça e o mistério sobre quem soltou um peido enrustido. De qualquer maneira, um gás de alto gabarito, como é o gás do peido, sempre sugere a ideia de cor nas pessoas. O assunto é polêmico e motivo de várias controvérsias e até mesmo dissensões nas comunidades científicas. Existem as mais variadas e divergentes opiniões. Há pessoas que acham que o peido é amarelo, outras acham que é verde. Há, no entanto, um consenso entre os pesquisadores de que o peido deve ser marrom. Logicamente, esta opinião está, diretamente, associada às fezes que, às vezes, sai junto com o peido do descuidado. Apesar da confirmação científica de que o peido não tem cor, ainda há muitas especulações sobre o assunto. Um cientista americano sugeriu que se o peido fosse visível ele seria parecido com um torresmo. Há um caso curioso de uma criança na Dinamarca que eu pesquisei e que costumava desenhar peidos na forma de um triângulo amarelo cheio de buracos, como um queijo Suíço. Há também um médium Kardecista na França com quem conversei e que afirma que o peido se parece com nódulos de carvão, de cor preta e de forma esférica, mas irregular. As diferentes teses sobre a cor do peido têm gerado muitas polêmicas. Na tradição cristã, há fatos, não comprovados por evidências concretas, de que Jesus costumava soltar peidos com efeitos especiais. Visionários e gnósticos em geral dizem que seus peidos descreviam verdadeiras parábolas no ar e deixavam um lindo rastro de cores como o arco-íris e a aurora boreal, mas, evidentemente, estas elucubrações aparecem somente no contexto da tradição oral, não havendo provas científicas para corrobora-las.

Gostaria de saber se é possível saborear uma bufa. (Puma de Oliveira, Reserva do Cabaçal, MT).

Sim, é possível. O paladar detecta substâncias líquidas e possíveis de serem dissolvidas em líquidos. Você pode saborear um peido quando suas moléculas constituintes entram em solução com sua saliva.

Os dinossauros soltavam gases? (Ventosina da Purificação, Pau dos Ferros, RN).

Cara Ventosina. O único fóssil com peidos encontrado pela ciência é de uma espécie de cupim. Mas isso não invalida o conhecimento óbvio que se tem de que os dinossauros peidavam e muito. Peidavam com um som ensurdecedor e um fedor devastador. Basta lembrarmos que os répteis dos nossos dias são descendentes diretos dos dinossauros. Como é do conhecimento de todos, o peido dos répteis é um dos mais fedorentos e, muitas vezes, ele é usado como arma de ataque para imobilizar uma presa. Tendo em vista o tamanho gigantesco dos dinossauros comparados aos répteis atuais, seus peidos funcionavam como armas letais. Já existe uma nova tese no mundo acadêmico afirmando que a extinção dos dinossauros talvez não se deveu ao efeito estufa causado por um enorme meteoro que caiu sobre a terra. Já existem hipóteses, bem fundamentadas, que atribuem o desaparecimento dos dinossauros a uma verdadeira guerra de peidos entre eles e que teria tornado o ar da terra irrespirável por muitos anos. Algumas hipóteses chegam a afirmar que tal guerra de peidos foi, provavelmente, iniciada pelo Tiranossauro Rex, um dinossauro voraz, carnívoro e predador, que devia usar o peido como arma para levar vantagem no abate de dinossauros herbívoros. Estes últimos, por sua vez, se defendiam soltando peidos estrondosos e fedorentos. Tal peidorreira teria espalhado-se por toda superfície terrestre e aniquilado todas as especieis de dinossauros.

Prezada Doutora. Gosto muito de peidar e de dar uns tapas num baseado. Quero saber se cheirar peidos deixa a gente chapado (Armando Pacau, São Domingos do Azeitão, MA).

Os peidos em geral não contêm agentes intoxicantes, todavia, a maioria dos peidos contêm pouco oxigênio e, se você cheirar altas concentrações de essência de peido, você pode sentir um pouco de tontura, simplesmente por causa da ausência de oxigênio. Por outro lado, se você inalar peidos ao ar livre e respirar rapidamente a fim de cheirar o maior número de peidos possíveis, você pode acionar a hiperventilação e, consequentemente, sentir tonturas. Existe um fator intrínseco e até mesmo hilário nesta questão: os peidos são tão divertidos do ponto de vista do som e do odor que você pode ‘viajar’ como se estivesse chapado, pelo simples valor recreativo dos peidos.

Gostaria de saber se segurar peidos é prejudicial à saúde (Puma dos Perdões, Piracuruca, PI).

Olá, Dona Puma. Há opiniões divergentes sobre o assunto. Desde o surgimento do Homo Sapiens, as pessoas acreditam que a retenção do peido faz mal à saúde. O Imperador Romano Cláudio, por exemplo, criou uma lei que legalizava a soltura de peidos em banquetes para evitar danos à saúde. Sempre houve uma crença generalizada de que a pessoa poderia se envenenar ou pegar alguma doença se ela segurasse seus peidos. Os médicos em geral dizem que não há mal algum na retenção de peidos. Eles dizem que o pior que pode acontecer é uma dor de estômago causada pela pressão do gás retido. Contudo, há alguns médicos que atestam que segurar peidos demasiadamente pode causar hemorroidas. Portanto, por via das dúvidas, é melhor soltar todos os peidos possíveis em qualquer lugar e a qualquer hora. A vida é muito mais saudável soltando peidos à vontade do que aprisionando-os. Afinal, Deus criou os peidos para serem livres.

Não sei se minha pergunta é pertinente, mas tenho curiosidade em saber porque o peido sai pelo ânus (Metanóia Gaspareta, Curionopolis, PA).

Metanóia, não existe pergunta impertinente. Tendo em vista que o gás tem uma densidade mais baixa que líquidos e sólidos, em tese, o peido deveria subir e sair pela boca ao invés de descer e sair pelo ânus. Ocorre que o intestino comprime seu conteúdo em direção ao anus através de uma série de contrações chamadas peristalse. Este processo é acionado ao comer e é por isso que sentimos vontade de evacuar e peidar logo após uma refeição. A peristalse cria uma zona de alta pressão, forçando o conteúdo do intestino, inclusive o gás, a se mover para um lugar de pressão mais baixa em direção ao anus. O gás é mais volátil que outros componentes, fazendo pequenas bolhas colidirem com bolhas maiores até o anus. Mesmo que a peristalse não esteja ativa, o peido pode subir, mas não vai muito longe, devido à complicada forma serpenteada do intestino. No entanto, não se esqueça que quando você está deitada, o anus não está nem para cima e nem para baixo. Nós devemos ser felizes pelo fato de nossos peidos saírem pelo nosso lado posterior. Imagine uma criatura marinha, como os crinoides, que tem um sistema gastrointestinal em forma de U e o anus deles fica do lado da boca.

O que aconteceria se uma pessoa pudesse soltar um peido no planeta Vênus (Bufaldina Peidrosa, Cupira, PE).

Parabéns, Bufaldina! Pergunta inteligentíssima! Se Vênus tivesse uma temperatura entre 100 a 150 graus, existiria água na superfície do planeta por causa de sua pressão atmosférica extremamente alta. No entanto, a temperatura de Vênus chega a quase 500 graus e, uma vez que o ser humano é composto, predominantemente, de água, uma pessoa em Vênus não conseguiria emitir gás, mas, ao contrário, ela se tornaria gás, isto é, se tornaria um verdadeiro peido. Além disso, uma vez que a atmosfera de Vênus contém muitos compostos de enxofre, um peido humano não teria cheiro nenhum. Se o seu marido ou namorado é romântico e curte um bom peido a dois, você não deve se surpreender se, um dia, receber um elogio carinhoso como este: Você é a Vênus de minha vida, que equivale a dizer Você é o peido de minha vida.

Quanto tempo leva para um peido chegar até o nariz mais próximo (Venusiana Ventosa Melo, Minador do Negrão, AL ).

O tempo de viagem de um peido depende das condições atmosféricas tais como umidade, temperatura, direção e velocidade do vento, o peso molecular das partículas do peido e a distância entre o emissor do peido e o seu receptor. O peido se dispersa assim que deixa sua fonte, o ânus, e sua potência diminui com sua diluição. Como regra geral, se um peido não for detectado em poucos segundos, ele ficará demasiadamente diluto à percepção e se perderá na atmosfera para sempre. Existem condições excepcionais quando um peido é liberado numa área bem delimitada tal como um elevador, uma saleta bem apertada, ou dentro de um carro com os vidros fechados. Essas condições limitam a quantidade máxima de diluição, e o peido pode permanecer numa concentração cheirável por um longo período de tempo até que ele se condense nas paredes do recinto. Assim, se, por acaso, você desejar compartilhar o cheiro do seu peido com seu marido ou seu namorado, escolha um lugar bem fechado e sem ventilação. Nunca é demais lembrar o velho ditado: Quem peida unido, permanece unido.

Eu tenho vergonha de perguntar, mas com a senhora sinto-me mais à vontade. Meu noivo só consegue ejacular soltando muitos peidos e bem fedidos e ele vive insistindo comigo para que eu faça o mesmo. O problema é que eu não sei peidar tão bem como ele. Peço-lhe para me ajudar a salvar o meu noivado e o meu casamento que está chegando (Joana Sarpey d'Almeida, Olho D'Água do Borges, RN).

Querida amiga, você não precisa se envergonhar de nada. Mais de 1 bilhão de mulheres em todo o mundo já fizeram a mesma pergunta. Como você deve saber, a maioria das mulheres não consegue ter orgasmo, mas agora, com a liberação do peido, muitas mulheres conseguem ter vários orgasmos numa única relação. Aqui vai a receita para sua felicidade. Em primeiro lugar, vamos falar em termos de quantidade. Para soltar muitos peidos seguidos, você precisa comer alimentos ricos em açúcares de difícil digestão para os seres humanos, como a rafinose, a estaquiose e a verbascose. Os cientistas costumam chamar estes açúcares de ‘fatores de flatulências’ e, entre eles, o melhor estimulador de peidos é o feijão. Quando estes açúcares chegam ao intestino, as bactérias, literalmente, enlouquecem, entram em convulsão e formam muitos gases sem parar. Outros bons exemplos de alimentos com este potencial flatulento são o repolho, a couve-flor e ovos. Vamos, agora, tratar da qualidade de seus peidos. O odor dos peidos é formado a partir de pequenas quantidades de gás de sulfato de hidrogênio misturado com mercaptans. Estes compostos contêm enxofre. Compostos ricos em nitrogênio, tais como a escatole e índole são, também, ótimos para dar mau cheiro aos peidos. Para ter uma ótimo desempenho, sua dieta diária precisa conter estes compostos, bem como esses dois tipos de açúcares. Os alimentos que mais contribuem para a qualidade de seus peidos e, também, para sua quantidade, são couve-flor, ovos e carne. O feijão não dá fedor, mas ele é imprescindível na formação de uma verdadeira bateria de peidos. Comece sua dieta hoje mesmo e boa lua de mel.

Venho de uma família que cultiva a soltura de peidos em grupo há três gerações e me destaco como o descendente que mais peida com um fedor inigualável. Gosto de cheirar meus próprios peidos e não sei se isto é normal. De qualquer maneira, gostaria de saber se é possível engarrafar meus peidos para que eu possa cheirá-los na hora que eu quiser e se é possível congelar meus peidos para meus netos e bisnetos. Grato. (Flatus Populusque Romanus, Gloria do Goita, PE).

Caro Flatus, parabéns pelo seu desempenho e fama de peidador na família. É muito nobre de sua parte preocupar-se, também, com as futuras gerações. Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que não existe nada de errado em gostar de seus próprios peidos. Além de ser muito comum, é também algo universal. O prazer proporcionado pelo peido é benéfico à saúde. Nos dias de hoje, muitas pessoas em tratamento com psicólogos conscientizam seus traumas de infância com mais facilidade soltando peidos durante as sessões, dispensando o uso de antidepressivos e obtendo alta médica em menos tempo que o normal. Quanto ao engarrafamento de peidos, digo-lhe que, em tese, é possível conservá-los num recipiente, embora isso implique em vários problemas logísticos. Em princípio, eu recomendo o uso de um saco plástico, ao invés de uma garrafa de vidro, para se apanhar peidos no ar. Numa de minhas teses de doutorado, eu provei ser mais eficaz capturar peidos tomando banho numa banheira. Pegue um vidro e encha-o com a água do banho. Deixe o vidro debaixo d’água, com a boca virada para baixo. Recoste-se na banheira de forma a permitir que as bolhas de seus peidos possam emergir à superfície na sua frente. Apanhe as bolhas dos peidos com o vidro, tampe-o, mantendo-o debaixo d’água para colher peidos puros, sem serem contaminados pela atmosfera. Para desfrutar do aroma de seus peidos ao máximo, certifique-se que o vidro não esteja contaminado pelo produto que ele, originalmente, abrigava, como picles, azeitona e outros. Para finalizar, confirmo que é possível congelar os peidos. O componente de vapor d’água do peido congela rapidamente, mas para congelar um peido inteiro são necessárias condições nas quais prevaleçam alta pressão e baixa temperatura, como na produção de gelo seco. A constituição do peido permanece inalterada nesse procedimento. Portanto, ele continuará bem fedorento após o descongelamento e sua reversão ao estado gasoso.

Prezada Doutoura. Sou aposentado, tenho 68 anos e continuando peidando demais e já me sinto muito mal com isso, embora eu goste muito de peidar. Minha mulher vive pegando no meu pé. Ela diz que, como se não bastassem os peidos que soltei todas as noites durante mais de 40 anos de casamento, agora solto peidos por toda a casa durante o dia. Peço a gentileza de recomendar o que devo fazer. (Flatulentino Odoroso, Pindobacu, BA).

Veja bem, Sr. Flatulentino, eu entendo e respeito sua posição e, além de responder à sua pergunta, vou lhe dar um conselho também. As pessoas que engolem ar em demasia costumam soltar mais peidos do que as pessoas que não engolem ar. Se o senhor quer reduzir a quantidade de peidos por dia, deve evitar feijão, carne, repolho, ovos e couve-flor e se acostumar a comer devagar, mastigar com a boca fechada e não regurgitar nem sólidos nem líquidos. Deve evitar, também, o fumo, goma de mascar e chupar pirulito. Estas três atividades fazem com que a pessoa engula mais ar. No entanto, eu recomendo que o senhor tenha uma conversa séria com sua esposa e explique a ela que, na terceira idade, as pessoas têm liberdade total para peidar, sem pedir licença ou desculpa. O senhor trabalhou a vida toda e sofreu com os preconceitos de sua época quando não se admitia peidar no ambiente de trabalho, em público e na companhia de amigos. Diga a sua esposa que agora é o momento de desfrutar do melhor da vida: peidar à mesa, no sofá assistindo televisão, numa sala de cinema, dentro de um ônibus e de um elevador. Faça, também, um esforço e ensine sua esposa a curtir uma flatulência a dois.

A Dra Sigasmunda Peud está preparando um novo livro que vai estarrecer o mundo. Ela vai revelar como americanos e russos vêm trabalhando na produção de bombas mais poderosas que as de hidrogênio e cobalto, por meio de fricção dos átomos de peidos humanos e de répteis. 

AS BOAS NOVAS QUE OS CRISTÃOS COPIARAM DOS ROMANOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O assassinato de Júlio César no ano 44 a.e.c (Antes Da Era Comum, que o cristianismo chama de AC, antes de Cristo), mergulhou a República Romana numa guerra civil que durou 17 anos. No ano 27 a.e.c., Caio Otávio, membro de um rico e antigo ramo equestre da família plebeia dos Otávios, saiu vencedor, declarou o fim das guerras civis, recebeu o título de César Augusto pelo senado, transformou Roma no maior império da humanidade, do ponto de vista temporal, e instituiu a Pax Romana, um longo período de paz que duraria até o ano de 180 e.c. (Era Comum, que os cristãos chamam de DC, depois de Cristo).  Com a ascensão de César Augusto ao poder, templos asiáticos gravaram em lajes de mármore um decreto de mudança de calendário, dedicado ao império romano e a Augusto César, o primeiro imperador de Roma. Eis os dizeres destas lajes encontradas por toda a Ásia, especialmente na Grécia a.e.c. 


...Ao passo que a Providência adornou nossas vidas com o mais elevado de todos os bens: Augusto. E a Providência, com sua caridade, concedeu a nós e aos que virão depois de nós, um Salvador que pôs fim à guerra e colocará tudo em ordem pacífica e como resultado disto o aniversário de nosso Deus sinalizou o início das Boas Novas para o mundo. Portanto, os Gregos na Ásia decretaram que o Ano Novo começa para todas as cidades no dia 23 de Setembro e o primeiro mês será observado como o mês de César, o dia do aniversário de César...


video

PARÁGRAFOS 99 A 108 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Tilly exauriu tudo o que ele queria saber e divulgar sobre o The Who de maneira que não restou mais nenhuma gota etílica para transbordar o copo padecido e cheio de marolas que o Mensageiro da Decepção segurava com mãos trêmulas como se sofresse do mal de Parkinson. Este foi o início do fim do relacionamento entre os dois. A culpa não era do The Who, mas da falta de uma amizade genuína entre eles. Tilly, que se tornou seu companheiro de bebedeira, até que tentou. No auge de um de suas embriaguezes, Tilly propôs que os dois escrevessem um livro juntos, mas foi imediatamente ridicularizado. Tilly passou a ser tratado com mais compaixão e menos seriedade quando ele anunciou o abandono completo do fumo e do álcool por conta de um namoro que ele iniciara com algo que ele acreditava ser mais numinoso que um sonho, sendo que este em si já é algo demasiada e freudianamente infantil para a maioria para merecer crédito. Por fim, Tilly soltou um gás debochado, acintoso e fedorento na frente do Mensageiro o que lhe causou repulsa e indignação. O Mensageiro podia cair pelas tabelas, mas nunca perdia a compostura. Não soltava palavrões e nem urinava nas calças. Vomitava só quando chegava em casa. Assim, o cristo e o seu algoz fizeram um pacto não declarado de separação e nunca mais se viram. Da parte de Tilly, o que garantiu este afastamento definitivo foram aquela flatulência posta em liberdade incondicional, sua ausência no velório e no enterro da mãe do Mensageiro e sua recém-adquirida fama de embusteiro que se espalhou pela família até chegar aos ouvidos do Mensageiro. E da parte deste, foi apenas seu incurável hábito de desonrar um compromisso.

Para Tilly a palavra empenhada não tinha valor absoluto e dependia do grau de risco envolvido no seu cumprimento. Compromissos eram bem mais relativizados e se orientavam pela imprevisibilidade das circunstâncias que os cercavam. Tilly era capaz de escrever uma peça teatral em idioma estrangeiro para sua escola e ainda protagonizá-la e era capaz também de não comparecer no dia da sua primeira apresentação, deixando todo mundo na mão, porque seu pai chegou tarde e não pode lhe emprestar o carro como de costume. Tilly tinha medo de voltar da escola de ônibus à noite. Com um talento rarefeito como a atmosfera marciana e ainda eclipsado pelos seus fobos e deimos, em sua breve passagem por estas paragens Tilly acumulou os mais inimagináveis excessos que a natureza humana é capaz de cometer. Exageros que a natureza que obra sem malícia é incapaz de engendrar, mas que a ela são imputados por conta dos atos de deus que às vezes ela usa para se manifestar e dos quais o homem se aproveita para justificar a intempérie sua se cada dia.

Os nativos do paraíso perdido do norte homenageavam os mortos de caras pálidas com faces lavadas de pó azul. A vegetação verdejante das terras do novo mundo torna-se azul quando vista a uma distância excessiva. O preto culto que trabalha de paletó e gravata para o branco é negro do ébano, quase azul de tão preto. Mas o preto inculto, mísero e azul de tão negro é escravo no novo paraíso dos brancos e apelidado de azulão. As estrelas brancas que iluminam os céus do novo éden e que perdem o controle de suas temperaturas ficam azuis, as mais quentes do universo. Por isso o anil não combina com a frieza que lhe é atribuída e nem com Tilly. Ele não sabia mentir e se entregava facilmente. Tilly também não combinava com o tudo azul de seu país em completa ordem imoral e em franco progresso amoral. Ele combinava mais com a tristeza desta cor no lar dos bravos. Isso já era evidente quando ele compunha músicas num inglês atravessado na sua adolescência.

Ay see us nay tall. Ay see us blue. Crying is our label. Pain is our rule.

Tilly não tinha sangue azul. Era pobre. Não ficava azul de fome nem de raiva. Era esbelto, de corpo atlético. Comia só para repor calorias. Era chorão, medroso, ciumento e melindroso, mas não raivoso. O que, então, poderia fazê-lo migrar do enganoso vazio total e neutro para a mais absoluta casticidade? O espírito, pensou alto seu daimon polivalente, fazendo as vezes de um poeta.                   

O espírito cábulo que não se manifesta nem a cada lua azul. Joga só com o nome e pelo nome não atende quando invocado no reduto do seu suplicante ou em estância forânea. Tem ojeriza draculiana da luz do dia que desce com o fogo do sol e derrete o orvalho da terra, que não se debela com a água da chuva e só bruxuleia com o sopro do ar.
 
O espírito psicóide que vem do nada e vem do azul. Sintoniza um sincrônico e, sem ser chamado, a ele se reapresenta para onde quer que seu refúgio tenha se mudado. Colhe fôlego do ar e nele se camufla quando desce à terra, esgueirando-se pela água que não molha e pelo fogo que não queima.
 
O espírito desarmado que não traz inimigo e também não põe azul sobre azul. Fala com os olhos e pela mente se expressa em sonho, mas adormece os sentidos na vigília. Renova suas feições da terra e confunde como fogo amigo. Testemunha a água de lágrimas assustadas e o ar gentilmente abanado pelas preces murmuradas.
 

O espírito anacrônico que não deixa seu nome entrar num livro azul e o abandona numa lápide. Zela pelos que ficaram e dele não se sabe o que se espera, mas a ele mais se pede do que se tem para dar. Materializa-se como vapor de água que não pode ser bebida pela terra. Desaparece como o fogo da vela que se extingue e esvanece com o aroma de incenso que esteriliza o ar.


Tilly entrou para a espiritualidade como um anjo manquitolando e foi logo acolhido sob os auspícios de um cristo e de um patrono, e lá chegou como chegam todos os que procuram suas identidades nos conglomerados humanos e precisam ser resgatados do anonimato. Todos que se tratam de doenças psicossomáticas e são logo devolvidos à mesma vida de sempre. E de lá também saem contingentes flutuantes trocando a aldeia do campo pela da praia, e lá permanecem os capitães hereditários com seus séquitos de carregadores de tirso. Tilly estreou feito um aleijado de corpo e alma, embora não precisasse de muleta nem de cadeira de rodas e tivesse cabeça para pensar e uma fé menos cética que a de São Tomé. Antes de se apoiar nas próprias pernas e opiniões, ele adulou quem gosta de ser adulado e esnobou quem precisava ser amparado. Por uns tempos, Tilly se tornou mais um bobo da corte que dá quórum a discursos públicos e que, não se sentindo evidenciado o suficiente, revolve como figurante ao redor de coadjuvantes e engrossa rodinhas até poder chegar às bacantes. Antes de esboçar qualquer curiosidade científica, Tilly conviveu com boçais com iniciativa e que se escandalizam com o feminino na vida de deus, que priorizam a obsessão sobre a educação, que montam calendários letivos com esquemas de compensação de feriados, que se respaldam no ócio, na mordomia e na perpetuação do privilégio das repartições públicas e rezam como se estivessem carimbando documentos. Como todos os boçais, Tilly não conseguiu deixar de ser também um oportunista que aparece melhor no dia de servir caldo e água benta, no dia de dar bênçãos com mãos levianas. Para encontrar um refúgio para sua insegurança, Tilly deixou se guiar pelo cajado de pastores escatológicos. Para encontrar seu oásis ele peregrinou e se extenuou no deserto da ignorância. E para encontrar o porto protetor da sua alma naufragou nas águas do dogmatismo e se deixou levar pela maré do fanatismo.



video

ANA CAROLINA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Volte mais uma vez à minha lembrança, Suba neste tamanho de criança, Estique as mãos para cima, Toque o céu com mãos de menina, Acenda cada estrela com dedos iluminados, Deixe a noite clarear todos os abandonados, Entre na minha vida mais uma vez de revés, Erga-se acima de seus próprios pés, Alce um voo de anjo com seus braços, Acompanhe o universo em todos os seus passos, Sobreponha suas mãos sobre cada cabeça, Vibre por elas e não deixe que nada lhes aconteça, Não me deixe nunca mais na saudade, Desça desse tamanho de maioridade, Dobre seus joelhos para baixo, Abençoe a terra sossegando seu facho, Apague cada mágoa com suas fervorosas vibrações, Deixe o mundo bater igual a todos os corações, Fique na minha vida para sempre em linha reta, Abaixe-se até o nível de sua postura ereta, Projete sua alma até alcançar a esperança, Deixe toda a humanidade com ar de criança, Receba a ingenuidade como num passe espiritual, Vibre com seus fluidos e espalhe seu amor imortal.


video