sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O QUE FALTA NO REINO DOS CÉUS


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. 

Era uma tarde de inverno. Da janela via-se o céu azulado, mas lá fora estava gelado. Oras, pensei, aqui não cai neve, as mãos sem luvas não congelam, e do estacionamento a qualquer estabelecimento o vento frio que aumenta a sensação térmica não é tão torturante como o que sopra na região dos grandes lagos em Janeiro. Eu me preparava para sair quando a TV anunciou o excelente filme Reino dos Céus, que aqui no Brasil saiu como Cruzada. Resolvi ficar em casa e fui muito feliz com minha decisão. Depois da sessão de cinema, resolvi ouvir música e selecionei a gloriosa versão do Chandeen da canção In Power We EntrusThe Love Adocated do Dead Can Dance. Foi estranho como essa canção me levou imediatamente de volta ao filme que eu acabara de assistir e, mais estranho ainda, foi o que me veio à mente: Eu sempre vejo a cultura como uma mulher indefesa à mercê dos machistas. Às vezes sou cristão, às vezes não. Às vezes simplesmente ignoro um ataque dos misóginos, ou, então, me limito a retribuir suas agressões ao sexo frágil com uma homenagem à transcendência humana. Porém, às vezes, eu também atiro minhas pérolas aos porcos e aos cães. E esse é o grande risco que corro aqui. Antigamente, os porcos só pisoteavam nossas preciosidades, hoje eles as roubam. Lembrei-me, então, do filme Cruzada que acabara de assistir, e das atrocidades que se praticaram na terra santa em nome de deus em tempos longínquos. Esquecendo-se de mim e dos homens, tentei extrair daquela brutalidade alguma beleza inata ao ser humano quando este cavalga completamente nu e sem nenhum estandarte ideológico. Então, tentei transformar em palavras tudo o que minha alma sentia: A beleza se avista onde o oceano se confunde com o firmamento, De longe, vozes humanas a saúdam com brados efusivos, O som lhe chega aos delicados ouvidos, E ela o acolhe com ternura, Suaviza sua avidez e seu tom, E o sopra de volta com a brisa que o trouxe com brandura, As vozes humanas retumbam em coro e com mais ardor, A beleza cerra seus olhos, Relaxa a sua fronte, Descontrai seu sorriso, E se deixa embalar pelo som mundano e eufórico, As vozes assomassem-se, E a elas se juntam mais graves e agudos, Mais êxtase e clamor, A beleza se mantém impassível e atenta, Ouve e se acalenta, As vozes humanas se exaltam, Vão além dos limites da linha do horizonte, A beleza as traz de volta ao mirante, E graciosamente se move em suas direções como uma nuvem entregue às monções, As vozes sentem suas gentis pulsações, Percebem que ela emana meiguice à distância, É mais bela do que aparentava lá no fundo do céu, É o seu olhar que carrega sorrisos contagiantes, São seus lábios que sussurram como meninas dos olhos irradiantes, São as maçãs de seu rosto que exalam fragrância etérea, São seus cabelos que dão contornos à sua feição singela, É o seu semblante plácido que dá expressão à sua beleza, As vozes humanas emudecem, E se arrebatam com tão doce criatura, A beleza contagiada pelo calor humano, Baila ao redor das vozes, As envolve com afagos que chegam à alma, Seu olhar resplandece, E infunde mais luz tênue ao sol poente, Seus gestos delicados encantam as águas do mar, E se elevam até a lua crescente, Sua boca toca as vozes humanas, E as enche de carinho jamais recebido antes, Seus cabelos se desfraldam ao relento do entardecer, Sua leveza se esgueira suavemente até o novo amanhecer, E as vozes humanas embargadas, Soluçam e balbuciam, A beleza lhes toca os lábios com dedos singelos, E deixa seu silêncio comovente penetrar em suas entranhas, Até que elas descubram seu reino interior, Até que ela exteriorize toda sua celestial subserviência ao amor.



HOJE À NOITE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


HÁ UM AVIÃO ESPERANDO POR MIM NO AEROPORTO
FORAM TRÊS DIAS TOMANDO BANHO DE CIVILIZAÇÃO
OXFORD ESNOBA CHARME COM MULHERES DE ENFEITE
OLHOS AZUIS NAS LOIRAS BONITAS DE ROUPA E CORPO
PINTAS NOS ROSTOS DAS RUIVAS ESCULPIDAS À MÃO
OLHOS VERDES NAS MORENAS BRANCAS COMO LEITE


PICADILLY CIRCUS TEM ROUPA DOS ANOS SESSENTA
TEMPOS E LUGARES ONDE EU DEVERIA TER CRESCIDO
SINTO-ME UM JOVEM BEM MENOS DE MEIA-IDADE
PROVO DA CULTURA COM PALADAR E QUE SUSTENTA
JÁ EXPERIMENTO DÉJÀ VUS COM O SEXTO SENTIDO
JÁ ESTIVE AQUI COMO OUTRA PERSONALIDADE


MARYLEBONE TEM IGREJA QUE NÃO SERVE PARA REZAR
DO ALTO DE SUAS PRATELEIRAS DESCE UM TOMO RARO
CRISTÃOS VENDENDO LIVROS QUE DESAFIAM A FÉ CRISTÃ
SEM ELES JAMAIS SABERIA DE SEGREDOS A DESVENDAR
PAIXÃO DE CRIANÇA E CONHECIMENTO QUE ME É CARO
DISPENSA DEUS, FÉ CEGA, DOGMAS, MITOS E VIDA VÃ


HOJE À NOITE SINTO AMOR
HOJE À NOITE SINTO ENCANTO
HOJE À NOITE SINTO FERVOR
HOJE À NOITE NÃO HÁ PRANTO
HOJE À NOITE NÃO HÁ DOR
HOJÉ À NOITE NÃO HÁ TANTO


CARNABY TEM PSICODELISMO QUE VIROU UM CÂNTICO
ESPECTROS DOS BEATLES VOAM EM TODOS MOMENTOS
O AUGE DA CRIATIVIDADE E VIRTUOSISMO RECEBE PALMA
INSPIRAÇÃO QUE VEIO DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO
A MELHOR MÚSICA DO PLANETA DE TODOS OS TEMPOS
DEU UM VERDADEIRO SENTIDO AO ALIMENTO DA ALMA


LONDRES TEM A MESMICE TURÍSTICA COMO TODA CIDADE
O TÂMISA CARREGA BARCOS COM MUITOS PASSAGEIROS
O BIG BEN NÃO ATRASA UMA ÚNICA FRAÇÃO DE SEGUNDO
MADAME TUSSAUD MOLDA EM CERA TODA CELEBRIDADE
A RAINHA TROCA SUA GUARDA SÓ PARA ESTRANGEIROS
A TORRE NÃO DECEPA MAIS A CABEÇA DE TODO MUNDO


O BRITISH MUSEUM TEM O LIVRO DE ANI DA EGIPTOLOGIA
A ABBEY ROAD TEM FAIXA DE PEDESTRES QUE VIROU MIMO
O HYDE PARK TEM BANCOS COM NOME DE GENTE DE NEON
O MARQUEE CLUB TEM O THE WHO COM TODA SUA MAGIA
A DARTFORT TEM PEDRAS QUE ROLAM E NÃO CRIAM LIMO
O ALBERT HALL TEM ESPAÇO PARA OS BURACOS DE JOHN


HOJE À NOITE TENHO QUE PARTIR
HOJE À NOITE TENHO QUE VOLTAR PARA CASA
HOJE À NOITE TENHO QUE ME DESPEDIR
HOJE À NOITE NÃO TENHO VONTADE
HOJE À NOITE NÃO QUERO IR
HOJE À NOITE NÃO SINTO SAUDADE


MARIA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98
Se desejar, clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo

Maria que é a Maria, É cheia de graça, Cheia de raça, É Madalena, É mãe e tia, É Mariana, É Ana Bolena, Tem corpo que arrepia, Não tem quem não ama, Casada ou solteira, Solidária e companheira, Morre esposa traída, E de seu ventre sai uma rainha, Mulher destemida, Mais poderosa que o rei no xadrez, Lava, passa e cozinha, Não há doce que ainda não fez, Doce de amendoim que o menino roubou, Grita pede, moleque, que te dou, É bonita e valente, Não tem medo do sertão, Não tem medo do que não sente, Luta com o coração, Reza Ave-Maria, Compadecida, É quase negra como Nossa Senhora Aparecida, É a Maria judia, Que inventou o banho-maria, A gororoba com coco ralado, Que ficou mais mole que seu nome, Miriam soberana do hebraico modificado, Que em grego virou Maria, Cobiçada por todo homem, Por toda Maria, Que não vai com as outras, Tem sua ideia factícia, Alma pura como poucas, Ajuda todos os seus, É a preferida de Deus, Brilha no céu, Como Três-Marias, Cada uma com seu véu, Abençoando todas as romarias, Dança no ar enquanto trabalha e canta, Lança sob o luar seu charme enquanto a noite avança, E sob o sol, Sua meiguice que nos encanta, É Maria do futebol, Alegria do povo, É Maria de todos nós, Que desafia quem nasceu primeiro, Não precisa responder a sós, Nem a galinha nem o ovo, É Maria morena do mundo inteiro.

A TERRA É FEMININA


 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Minha imperatriz romana, Aurora de meus pensamentos de que meus romances escondidos pouco interesse despertam em seus olhos de boa mente, Onde raios de luzes boreais andam eminentes, Ninguém jamais verá seu sentimento inquieto e secreto, Nenhum coração te apunhalará no mundo, Deixa-me segurar suas mãos de anéis, Em braços de ferro, Te levar para regiões devolutas, Para onde a coragem é sarmatiana, Intrépida como os antigos saxônicos diante da morte, Ardente como nosso amor diante da chama que não se vê, Vamos fazer a Bretanha francesa atravessar o mar até a grande ilha, Onde vive Morgana com sua senhora do lago, E lá fazer nossa pátria suspirada de suas mais doces esperanças, As únicas impaciências de sua alma, De poucos fogos, De muitos amigos em espírito, Gente nossa, Sem fossos, Barbacãs, Sem a muralha de Adriano, Onde Elisabete jamais venderá nenhuma de suas convicções, Qualquer nação de bicho fêmea, Incluída a terra, Que também é mulher.



EX UMBRIS FURTUM AD LUCEM

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

É um  horror sentir estes baixos calões, Gatunos, Funkeiros, Como só este país pode criar, Joias superfaturadas para adentrar como sócio nas quadrilhas que assaltam residências, Seus advogados desonestos, De porta de cadeia, Levantam objeções a quaisquer propostas de moralização, E travam sobre os cadáveres das vítimas de seus clientes uma briga peito a peito pelos seus espólios, Um cortar de ferros e um ressaltar de sangue que espirra às faces dos mortos, Ficam com todos os despojos do diabo, As tropas policiais perseguem e roubam todos os ladrões cercados, Em meio aos escombros humanos, Surge uma donzela esquecida viva, E dela saem músicas, Que roubam e requintam a sensibilidade, Saem de linda mulher que rouba corações, São estas parcelas redivivas, Restos de um exemplo e de um nome, As que promovem a mais sólida e benéfica imortalidade àqueles que se finaram, Cortejados pela saudade e admiração de todos, A música também é roubada, Qualquer investigação que se faça vai roubar um bom tempo, Vai descobrir que as somas roubadas são muito mais elevadas, Roubam-me de uma de minhas demoiselles a brisa que doudeja indiscreta arregaçando o lenço à tão linda jovem que alegre passeia, E se diz, Ainda, Que a morte veio roubar-lhe os sofrimentos, Um infeliz acaso que roubou de uma merreca de felicidade uma pobre família, Roubam à saída dos bancos, Roubam um beijo à rosa perfumada, Aquela que não fala, Mas só rouba a fragrância que ela exala, A lei de Deus, Assim como a dos homens, Proíbe roubar, O açougueiro rouba no peso da carne, Mas os antigos egípcios não aligeiravam o alqueire, Me chamam de esquisitão, Que rouba-se às manifestações de apreço dos amigos que não tenho.


SWINGING LONDON



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Olhamos para o alto, Para um céu azulado, Desanuviado, E em nossos olhos caem esparsos pingos de chuva num dia ensolarado, Olhamos à nossa direita, Para o outro lado do Atlântico, E em nossos ouvidos penetram descriminados tons negros, Preservamos suas cores em nosso íntimo, E trocamos suas almas pelas nossas, E a Londinium dos romanos, Nivelada ao chão pela rainha Boudica, Na década de 60 de dois mil anos atrás, Deixa agora, Nestes novos e gloriosos anos 60, De ser capital de um império, Para ser o centro da efervescência cultural e artística do mundo, Trocamos nossa rainha palaciana por uma modelista, Que deixou nossas pernas à vista, Nossas roupas com matizes mais vivas, Abandonamos nossas armas, E conquistamos todos os países com nossa moda e nossos costumes, Resgatamos da antiga ilha Grega de Delos, Santuário de Apolo e Ártemis, O elixir que mantém nossas mentes abertas à percepção do desconhecido, Do inusitado, Dando-nos o poder da criatividade e originalidade, Nos tornamos modernos, Descolados, E arrojados, Substituímos nossos banjos por guitarras elétricas, E revolucionamos a música, Pondo Mozart, Beethoven e Bach para dançar em seus túmulos, Escandalizamos nossos conservadores, Incluindo os pequenos carros Mini-Coopers na frota de táxis, E usando nossa bandeira para confeccionar calcinhas, O mundo nos olha e nos ouve, E em todos os seus sentidos vibra a cidade mais avant-garde do planeta, E lhe retribuímos a admiração, Dando-lhe de presente, Os Beatles, Os Rolling Stones, E o The Who, E Deus nos agradece.

SOL ADORMECIDO NAS AVE-MARIAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Depois das ave-marias, A sombra do pôr do sol de manso derrama-se silenciosa sobre meu pranto, Espalha a luz da lua pelas minhas orações a bruxulear ante meus sacrários, Toma-me uma vestidura penitencial, Véu polvilhado de cinzas tirantes ao azul de uma última morada, A desolar-me com salseiro de um mar inexplicável, E de chuvas imperceptíveis, Guarda em mim minha tristeza inteira, Escreve-me com a mão esquerda para dissimular a letra, Para coincidir meus pesadelos vigeis com sonhos dourados, Para os mesmos e antigos anseios unirem-se na imaginação e fora dela, Chegando a desenfiar-me a camisa de dormir, Recaindo na cama, Ao ver, Ou, Antes não ver que ainda é escuridão, Que ainda são horas esquecidas, Que de devaneios ando, Que de água de purificação e sol da vida me simbolizo, E na noite vai minha estrela a resvalar as profundezas de minha alma, Com um consternado silêncio que vem do nada lunar, Como o tempo a acabar, Esta minha alma que a outros céus aspira, E pelo prazer íntimo suspira, Que do corpo fecundo ainda não se despede, Que não tendo um destino adoço nele de espírito se faz presente, Ante olhos inocentes e solitários, Cravados na penumbra, Fatigados de acreditar, De esperar, De braços pesados dos fardos a carregar, Então ele surge, Conformando-me, Indelével, Condescendendo-me, Esquivo e negro, Ocultando-se com argúcia inconteste, Demasiado intransigente, Todo moroso, No amanhecer cálido, Que a próxima noite fechará lenta e rapidamente, Quando na insônia batem as ave-marias, E no sono profundo o mundo se descobre.  



AZUL INFINITO



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Sei porque você fica aí, De pé, Olhando gente passar, Ouvindo gente falar, Tentando dar um sentido à sua vida, Pondo de lado os vícios e a cobiça, Para valorizar as virtudes da verdadeira amizade, E eu aqui me sento, Mergulho meu olhar no infinito, Fugindo da materialidade, Perdendo-me na transparência, No vazio, Da água, Do ar, À mercê da mulher, Como um barco vogando ao sabor da corrente, Porque nela tudo se suaviza, Tudo perde forma e substância, O mar deixa de ser mar para ser apenas um cursor, Como pássaro voando ao capricho do vento, Porque nela tudo se desmaterializa, Tudo perde movimento e som, O céu deixa de ser céu para ser apenas sua cor, Sei que você está em busca de um sorriso para dar alívio à alma aflita, De alguém para quem chorar, Alguém para você proteger, Evitando a leviandade do jovem, Que faz sexo só para partir corações, E ainda não me levanto, Passo para o outro lado do espelho, Caminhando para a divagação, Abandonando o repouso terreno, O contentamento comigo mesmo, Num sonho, Com Rígel, Com Mégil, A viver pela mulher, Como uma supernova acrescentando mais luz ao universo, Porque nela tudo se acalma, Tudo ganha solene profundidade, A estrela deixa de ser estrela para ser apenas seu fulgor, Porque nela tudo se realiza, Tudo ganha simpatia e gentileza, A mulher não deixa de ser mulher, Porque nela tudo se relativiza, Nela tudo é tratado com absoluto amor.

TRADUÇÃO DA VIDA




Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 


Neste mundo material não se pode ser apenas espiritual, mas não é necessário ser sensual, olhar com sagacidade, não é necessário ter poder sobre o corpo, cobiçá-lo sem a alma, basta trazer beijos puros de volta dos lábios que os ungiram, sair da terra possuída e entrar na carne santificada, moldar existências em mãos com centelhas vestidas de crepúsculos espargindo flores das montanhas que conquistam as enchentes, maiores que pesadelos milionários e maquiavélicos que abominam o toque aveludado do pêssego, o encontro carinhoso entre a água e a calha do rio despido, deslizando por entre seios, penetrando-os, enterrando-se neles, bem fundo, tão fundo que faz calar, como se fosse tirar um momento da sanidade, e o que poderia tirar momentos de ternura poderia também tirar uma eternidade de animosidade, e pouco se pode fazer sem os dois, sem a corda da esperança a qual se pendura, que lança devaneadores do presente sobre o vão que separa o passado do futuro, deixando pedras e paus fora do caminho, revelando tudo para Deus e o mundo, entrando em sintonia como duas cordas afinadas na mesma melodia, amadurecida para aprender a chorar e amar sem se ferir, para ter desejos instintivos e quase infantis, procurando por mãos estendidas, por estrelas que explodem, pelo cosmos que abraça, por papai e mamãe, por proteção contra os tiranos, contra as danças dos demônios, contra os computadores que aprisionam em noites solitárias, entregando-se a um entendimento mais intenso, deixando o pêndulo do destino balançar entre homem e mulher, levando-os e trazendo-os para onde se deseja estar, mesmo sabendo que nenhum lugar jamais pertencerá a alguém, nem em toda dor, nem em toda felicidade, mas somente em sonhos, porque sendo eles uma tradução do despertar da vida, esta é também a tradução de um sonho, não passa de um sonho do qual acordamos morrendo.



VESTIDA DE MODÉSTIA



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

A lua dona da noite, O sol do dia, A terra de sua vida, O ar da respiração murmurada, Para os ventos gerais reinarem, Render-se à doidice de seus sopros, Feito bando solto de demônios travessos e brincalhões, As nuvens carregadas não tomadas por Juno, Para Zeus brandir o raio com que troveja, Num relâmpago sobre dezoito chuvas, De muitas primaveras por viver, Sobre meus outonos avançados, Cobertos com o branco e vermelho de minha antiguidade, Sob seu pleno viço, De olhos negros, De alma da cor do mar profundo em tempo límpido, Despe-se do amor-próprio, Qual árvore das folhas, Qual névoa rompida pela luz da manhã, Toda veste-se de desapego e suficiência, E caminha para o universo, Para uma festa à fantasia de estrelas, Com sua aura luminosa como único adereço, Tocando nos infinitos astros de meia-claridade que lhe guarnecem o espaço, E de espaço, Ouve-se notas longínquas de uma melodia que escapa-lhe de boa mente, A cantarolar palavras no interior de uma simplicidade singular, Vedada ao mundo, Ocupado com a loucura de suas importâncias, Feito solitário preso em anjo desenxabido e macambúzio. 


APENAS DIFERENTE (dedicado a Mary Temple Grandin)

Dedicado a Mary Temple Grandin, americana autista que aprendeu a falar tardiamente, com a ajuda da mãe, que recusou-se a interná-la e insistiu para que ela estudasse. Temple é  Bacharel em Psicologia, com Mestrado e Doutorado em Zootecnia. Ela revolucionou as práticas para o tratamento racional de animais vivos em fazendas e abatedouros e hoje ministra cursos em universidades e é a mais bem sucedida e célebre profissional norte-americana com autismo, altamente respeitada no segmento de manejo pecuário

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Se eu tivesse seus olhos, Poderia ouvir o som das estrelas, E como minha voz muda quando estou zangada, Feliz, E mais satisfeita, Se eu não tivesse uma mente, Os mortos morreriam para sempre, E eu não pararia de perguntar aos vivos para onde eles vão, Se eu entendesse bem as pessoas, Não entenderia melhor os animais, E seria tão cruel quanto à natureza, Se eu não tivesse você, Não seria independente, Nem poderia dar um significado à minha existência, Se eu não pudesse ver a morte, Antes dela estar viva, Não me sentiria próxima de Deus, E não saberia como a vida é tão preciosa, Se eu tivesse medo de atravessar a escuridão, O vendaval, E a tempestade, Meus sonhos seriam abalados, E caminharia eternamente sozinha, Sem esperança no coração, Se não existisse alguém de boa vontade para me mostrar perspectivas, As portas não se abririam para mim, E minhas ideias morreriam comigo, Se eu fosse estrangeira, Menos mimada, Mais exigida, Menos prolixa, Mais pragmática e objetiva, Seria melhor sucedida, Mas não seria eu mesma, Se você tivesse meus olhos, Veria o mesmo mundo, Mas com outro tipo de inteligência, Se eu conseguisse te abraçar, Entenderia porque você faz o que faz, E porque as pessoas são capazes de amar, Se você vestisse meu corpo e minha alma, Entenderia porque sou tão diferente, Mas não inferior.

SILVANA FAZ FALTA AO MUNDO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


O que te proponho não é mister, Entre neste sonho quando lhe convier, Nada te prometo que eu não possa dar, O que te ofereço é poder te amar, Sonhe dentro de mim, Acompanhe todo enredo até o fim, E encontrará no seu sono apenas paz, Dorme um amigo, Acorde o que está preso e em perigo, E terá em sua existência o bom sonho que nunca se desfaz, Aqui se raia o sol só para você as 24 horas do dia, Aqui se ensaia em bemol só para você as 7 notas da melodia, A noite só chega para que você possa ver estrelas como luzes matutinas, O acorde só arpeja para que você possa ouvir os sons em claves femininas, Teu mar embravecido aqui é reflexo de calma que se reza, Teus vagalhões como montanhas que despedaçam-se com fúria nas falésias maciças aqui tornam-se mãos suaves e gentis que te erguem ao alto de um precipício e põem tuas pernas a dançar, Teu olhar entristecido aqui é espelho da alma que se embeleza, Tuas inquietações como rajadas que amedrontam-se com terror nas tempestades da vida aqui tornam-se brisas finas e puras que te sopram corpo acima e põem seu espírito a flutuar, O que te infundo não é simples fantasia, Desperte para o mundo mesmo em época tardia, O que desejo é ver você feliz, O que almejo é ser seu aprendiz. 

NATUREZA MORTA



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


De onde vejo o sol há muito silêncio e nenhum movimento. Ele está longe do universo. Seu lar é a terra com seus passarozinhos redomoinhando o céu, silhuetando suas formas ágeis e delicadas, num bailado não ensaiado, diante e distante de uma chama branda que harmoniza-se com nuvens desamarradas e crestadas de rosa. De onde estou posso ler seus bicos cantando, ecoando e passando ao largo da minha imaginação, deixando-se levar pela aura que estende-se até onde as águas cacheadas de verde encontram-se com o firmamento macio e ainda anilado. Meus olhos percorrem prados ondulados até onde as montanhas esmeraldas alquimiam-se com o ouro do pôr do sol, juntando-se à serenidade da noite, caindo lentamente e acalmando o coração, que bate com a taciturnidade das estrelas e cumplicia-se com o sortilégio da alvorada. Da banda oposta vejo o lado iluminado movendo-se calado e com seu rosto espreitando a pálida escuridão. Ele ainda continua bem afastado do cosmos. O teto de seu lar está vazio, sem deixar nenhuma marca onde há pouco penduravam-se olhos cintilantes que de longe observavam almas com uma aparente insensibilidade de natureza morta. De onde ainda estou gostaria de vê-lo despontar no fundo do quintal de sua casa novamente, acordando e cativando a fauna no palco onde a mesma peça é representada todos os dias. Onde estarei dormindo pela última vez, meus olhos se voltarão para o alto e sondarão as mesmas imagens ilusórias. Meu espírito buscará os mesmos sentidos vãos. E por mais alto que eu pense, ninguém me ouvirá. E por mais distante que meu pensamento viaje, ninguém o encontrará. Por mais viva que esteja minha essência enquanto deixa marcas deléveis no mundo, é a magia de meus sonhos que viverá para sempre.


SENSIBILITATE ET SENSUALITAS SINE RATIONE CERTA ARTICLE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Põe-se a caminho sensualidade de sensibilidade, Faz vento soprar rente a um gênero frágil deitado em solo fértil, Esparrama cabelos, Pontas de tirso de hera e pâmpanos, Carregadas de pinhas com arranjo de flores de celofane, Cingidas de tijolo e salmão, Embrenhados por mãos entre fios emaranhados, Acariciados por suaves toques de veludo, Por lagartixas deslizando em vidraças como Jesus em água, E deixam mechas pendularem sobre olhos de caleidoscópio, vidros multicoloridos refletindo milhões de sóis, Milhões de escravos carregando bastões em círculos em torno de suas escravas, Negras do mundo que atraem seus brancos em trevas de dias findos, Fazendo-se acompanhar igualmente por bacos e tíades, Levando uns a sentirem-se o que é estar morto, Como se nunca tivessem nascidos, E outras a sentirem-se o que é ser lasciva e sentimental, Como se nunca atinassem para sexo oposto, E bastam-se por sua sensibilidade, E extravasam-se por sua sensualidade, E acoplam-se por leis naturais do sexo forte, Aliado de ruim com elas, De pior sem elas, Adversário de inconcebibilidade  sem feminilidade, De previsibilidade com masculinidade, Privando vivedores de cores, Flores de odores, Provadores de sabores, Trovadores de amores.      

ASSIM FLUÍA A INSONDÁVEL RELATIVIDADE DO TEMPO 2



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 


Não há nada mais mágico e revelador do que um sonho que te tira de uma vida sobreposta e te lança na dúvida entre morrer só com a lembrança e entregar-se ao conhecimento absoluto e extrair dele tudo que uma única vida sensorial jamais lhe dará. Na dúvida, perdemos tempo, desperdiçamos energia tentando encontrar um significado para a vida, mas ela é simplesmente tudo que acontece enquanto fazemos planos para ela. Para nós o tempo passa, mas na verdade ele só fica. Tenho as vozes dos anjos ressonando em minha mente, desvelando minha paixão e minha brandura. Tenho não apenas um único espelho da alma, mas dois, e quando acordo todas as manhãs meus olhos se abrem a se alinham, e entre eles é criada uma série interminável de reflexos, inebriantes, movendo-se uníssonos, sem terem consciência de si mesmos, luzes umas sob as outras, outras sob mais outras, mais outras sob o infinito. Nossas limitadas experiências não passam de uma projeção holográfica que sucede em algum lugar muito distante de tudo que nos cerca. Eu me belisco e sinto a dor, mas o beliscão reflete um processo paralelo que está muito distante da realidade. Tenho como provar que o mito da caverna de Platão não era uma simples metáfora. Sou capaz de aproximar-me da beira do horizonte de eventos das mais fantásticas ocorrências do universo, sem a preocupação de que estou tomando um caminho sem volta. Minha singularidade será apreendida só por mim, mas ficará estampada para sempre nesta vida ilusória. Não quero passar com o tempo. Quero ficar nele, com todas as minhas fantasias, e experimentar do que é feita a mágica no ar, do que são feitos os sonhos, do que é feito o tempo passar sem sair do lugar.



EPÍSTOLA ÀS LÉSBIAS E AOS MILÉSIOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98


Ela é feia e de baixa estatura como ele, e quando feios e baixos se multiplicam tornam-se depravados e turbulentos, e quando nos vemos frente a frente com depravados e turbulentos chamejamos avisos rubros, porque eles vestem roupa cargo sem nada rubro por baixo e poderiam ser Safo ou ninguém, Alceu como eu, porque sem máscaras poucos conseguem ser alguém. E elas socializam com os maridos como se quisessem provar que não se separarão, e eles são gárgulas encharcados de vodka e cerveja, levando a vida conjugal em banho-maria, fazendo amor em salmoura, e ninguém sabe se eles têm sido mais falsos fora do vidro de condimento do que dentro, e poderiam ser Zen ou ninguém, Maria como judia, porque sem máscaras eles não conseguem ser alguém. E ela é beata tanto quanto ele delira, e quando beatos e delirantes se juntam tornam-se requisitados e endeusados, e quando contrariamos os desígnios dos requisitados e endeusados eles correm de burro quando foge, porque vestimos camiseta gola de padre com colete ultrajante por cima e poderíamos ser Mara ou outrem, Alfredo como remedo, porque sem bengalas não chegamos até ninguém. E ela é famosa e homem como ele, e quando famosos e másculos se exilam tornam-se suicidas e combatentes, e quando estamos frente a frente com suicidas e combatentes chamejamos avisos amarelos, porque eles se travestem de fervor sem continência dourada por dentro e poderiam ser lírico ou ninguém, político como poético, porque amor e liberdade não têm porém. E elas dão ouvidos aos estranhos como se quisessem provar que eles não falharão, e eles são milongueiros soterrados em promessas e mentiras, levando uma vida em banho-joão, fazendo amor em conserva, e só Deus sabe o que eles verdadeiramente são entre quatro paredes e além delas, e poderiam ser Armando ou ninguém, Armando como ando, porque quem não usa máscaras não se detém.

SERENIDADE SOBRE A MÃE TERRA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Um vento inquieto dança folhas no chão
Uma estrela cadente fosforeia o céu noturno
O vaga-lume resplandece e enfeita a escuridão
O sorriso da criança serena o olhar soturno

A água da chuva abranda o mormaço
A flor desabrocha e doa seu mel à borboleta
Uma lágrima escorre e pede um abraço
Um pássaro colhe petiscos na sarjeta

A lua acorda para espiar os namorados
A madrugada pega no sono na alvorada
O beija-flor paira nos ares calados
Um sorriso abre-se para a pessoa amada

O relâmpago sai na frente do trovão
A libélula faz um voo rasante sobre o lago
Um trevo de quatro folhas espera sua mão
Uma pedra ocupa o meio do caminho vago

Um som distante entoa o murmúrio do mar
Um galho trazido pela brisa bate à porta
O casal de mãos dadas sai para passear
O artista no bosque pinta a natureza morta

Ondas solitárias lavam a praia
Amantes deitam-se sobre a grama alta
O dia não vai embora antes que o morcego saia
A terra é um proscênio com luzes da ribalta

Ainda há muita esperança no amor
Muita alegria mesmo na tristeza
O universo conspira a nosso favor
O universo sempre mantém a chama acesa

CONTES DU TEMPS PASSÉ


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Este é o lugar certo para mim, Cheio de energia, Com flor do jasmim, E arrebatada sua voz aqui é uma covardia,
Eu sou o homem certo para você explorar, Cheio de vida, Com flores para cheirar, E buscar em mim aqui é encontrar-se perdida,
Este é o tempo certo para mim, Cheio de criatividade, Com cochonilha-do-carmim, E passada a vida aqui é antever a eternidade,
Você é o tóxico oportuno para curtir, Cheia de segurança, Com flores para compartir, E traída sua perda aqui é ganhar sua confiança,
Este é o sonho certo para mim, Cheio de realização, Com todo o jardim, E fantasiada sua imagem aqui é realizar minha imaginação,
Eu sou o amigo certo para você legitimar, Cheio de ponderação, Com floreiras para cuidar, E destituídos de nomes tudo aqui é nenhuma possessão,
Este é o limite certo para mim, Cheio de garantia, Com flor de delfim, E sentida a saudade aqui é esquecer a alegria,
Você é a cura certa para minha alma, Cheia de vigor, Com a flor da palma, E desiludido seu cantar aqui é inarticular seu amor


NOVENA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Em meu seio você se esconde, Como à noite, Incauta colibri, Pronta para seu açoite, Abuse sua matumba-preta, Já se tem nove sois, Ligados de clandestinidade, Acoitada para a escuridão, Com o tempo a estar suave, E abandonados seus telheiros para o coito, Sua boa serva, Sua pior senhora, Deita sobre mim seu açoita-cavalo, Cavalgue-o e dispare-o comigo, Entre oito e dez chibatadas, E abandone-me esfolada, Um pé de milho solitário, De verdes espadanas esfolhadas, Minhas chagas têm melhor carnadura que outras, Nove delas cicatrizam depressa de golpes fundos, As demais podem dissipar num mês pelo sangue, Mas uma, Entre oito e dez, Vem à luz, Orfanada de seu amo, Cevada em senzala, De açúcar e café, Até, Antes da primeira ingenuidade, Quando no lugar do senhor-velho, Vem o novo, A me chamar de Isaura, Sem nove-horas, Para ensinar língua de senhorio, A dedilhar delicadezas com uma mão de cinco dedos, Dois lábios, E dois olhos fechados.

HEARTS IN ATLANTIS


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 


Que bom estar protegido dentro do campo, Enquanto as nuvens fecham o céu com um manto, E minha alegria está só começando, Ontem minha mãe encerou o assoalho e meus botões estão deslizando, Eles ocupam todos os espaços como o carrossel Holandês, Como o mundaréu de barcos que entopem o cais do porto Marselhês, Com ouvidos de esguelho, Eles jogam ao som dessa música alta que sai do rádio perto da penteadeira e do espelho, Ela não incomoda o adulto de casa e nem o da vizinhança, Que sempre se põe a correr como criança, Ora sob a sombra para enxugar a testa e do calor se esconder, Ora sob jornal dobrado, Para cobrir a cabeça e para da chuva não sair molhado, 

Que bom ser jovem demais, Não saber interpretar sinais, Não ter coração rasgado que precisa ser remendado, E nem sofrimento que precise de tempo para ser curado, Hoje meu pai me comprou um monte de bolinhas e meus olhos estão cintilando, Eles fosforeiam toda a escuridão, Como o relâmpago de neon, Que ouve o grito de acusado e com um trovão responde, Como os pirilampos no mato que se juntam à garotada no esconde-esconde, Com asas de dragão eles alcançam as pipas nos céus de São Paulo que saem das linhas dos carreteis que os meninos soltam durante todas as férias de verão, Elas dividem as cores com o arco-íris da palheta e da bonança, Que sempre se abre como um leque de esperança, Ora de não crescer e de não amadurecer, Ora de prosperar e estrelar, mas não querendo ver o tempo andar, 

Que bom ter um açougueiro, Que me paga em dinheiro, O que sobra da leitura que meu pai recebe do jornaleiro, Amanhã vou pegar um ônibus até a Praça do Correio e meu coração está retumbando, Ele pode ser ouvido de longe, desde o Vale do Anhangabaú até o Largo Paiçandu. Com mãos ligeiras, Ele folheia toda as capas de vinil que as galerias da São João ostentam em suas disputadas prateleiras, Elas dão ao precioso acetato sonoro um encantador abrigo, E aumentam a coleção que monto com meu melhor amigo, Que nunca tem pressa e não usa relógios, nem para marcar o tempo de bola, da aula na escola ou do disco na vitrola, Nem para não perder o que passa na televisão, quem será o último a sair da cela do pião e a que horas soltarão o balão, 

Que bom ser menor de idade, Não dormir preocupado com o dia que está por vir, Fazer de cada encontro uma nova amizade, Não ter necessidade de fingir ou de mentir, Ontem meu irmão rapelou todas as figurinhas no jogo do abafa e minha boca está aguando, Elas preenchem todos os retângulos vazios no meu álbum do Rin-Tin-Tin, E comemoram com rá-tim-bum e tampinhas fazendo tlim-tlim, Com faro de labrador, Elas sentem de longe a aproximação de um invasor, Ele não vem desafiar os locais e nem desertar o lugar de onde veio, Só está fazendo incursões diplomáticas em território alheio, Ora como um pacificador entre grupos que estão tão próximos um do outro e se melindram por tão pouco, Ora como um conciliador de diferença individual, Para o benefício geral, 

Que bom ser pequeno e já ter uma renda, Que cresce com o que economizo dos trocados para a merenda, E com o que meus padrinhos me dão como oferenda, Hoje vou assistir à matinê no Cine Vera e minha alma está suspirando, Ela transpira nas mãos de minha namorada, E fica vermelha de vergonha a cada entreolhada, Com um corpo astral, Ela se transporta para a tela e encena seu turno na sentinela da cabana de escoteiro no matagal, Ela revela tudo o que a maioridade não mostra, Amigos do peito e nenhum inimigo pelas costas, Juramentos por tudo o que é sagrado, E nenhuma decepção por algo que não foi honrado, Dedos mindinhos cruzados para ficar de bem, E nenhum ressentimento negado nas palavras, mas que o coração ainda retém, 

Que bom que as nuvens no céu estão se dissipando, Os raios que despencam do sol estão se infiltrando, E a minha alegria está aumentando, Amanhã vou ao Acre Clube no Jardim França e meu fôlego está tinindo, Ele esconde o ar da água doce e clorada, Estufa os pulmões e libera energia vitalizada, Com braços finos, mergulha bem fundo, Para apanhar uma moeda solitária e ganhar o mundo, Ela substitui os membros superiores pelas pernas grossas, Que se empenham para manter medalhas que já são nossas, Ora nos esportes dando um salto sobre o varal, E fazendo gols na peladinha de quintal, Ora nas divagações sobre a ingenuidade desse mundo mágico criado por deus, E sobre a felicidade perdida por aqueles que não tiveram sonhos como os meus.