sábado, 1 de outubro de 2016

PRIVILÉGIO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Ainda que eu tivesse toda a riqueza do mundo, e não soubesse que você existisse, não entenderia de onde viria tanto desprazer por uma fortuna conjurando em minha perdição meus erros e uma paixão que poderia ser ardente, ainda que eu ouvisse as vozes dos anjos, e não tivesse ouvidos para você, eles jamais se prestariam a cupidos servidores, não se atreveriam contra o céu, e não beijariam a mão à deusa dos amores, ainda que eu fosse um semideus maior que Bach, e não tivesse o privilégio de gostar mais de você, minha vida teria menos sentido ainda e o universo choraria mais bilhões de vezes com nossa cansativa busca de seus inexoráveis mistérios, quando eu era menino, e você ainda não era, minha alma, sem-ventura, pouco aceitava, já ansiava mais que silêncio e prece, já desejava fugir-me para encontrar alguém que te criasse, logo que acabei com as coisas de menino, e você veio à luz, cheguei à meia idade com um resto de irresponsabilidade menina, um perdedor em quem ninguém apostaria, não invejo os que esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram, não atino com as de ontem que ainda hoje enfio, sem meu amor por você aqui já não mais estaria.

AO REDOR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Encontrei um sanhaço morto em meu quintal, Azul acinzentado, Num dia ensolarado, Asas enfeitadas, Endurecidas, Recolhidas junto ao corpo, Era adulto, Não tinha sinais de violência, Deve ter morrido por envenenamento ou doença, Porquanto ninguém vê pássaro morrer de velhice, Velei-o por um tempo, Como uma mãe vela pelo filho que dorme, Dei-lhe um funeral digno, Coloquei flores à sua volta sobre a terra, E como um saltimbanco, O sol apontou todos seus raios para minha guirlanda, Silenciou todo espaço, E brilhou toda fauna na vizinhança, Entrei, Liguei a TV, Outra tragédia é anunciada, Gente morrida, Desaparecida, Coisas perdidas, E muitas lágrimas de sangue que já não cabem nos olhos, E só irão chocalhar nos pescoços de sobreviventes como as contas escuras das lágrimas de santas marias por não terem a quem recorrer, É calamidade, De grandes proporções, Dela falarão por vários dias, Até ser esquecida, Quando a terra estiver do outro lado do sol, E eu estiver do lado de cá para não me lembrar do que aconteceu por lá, A grama crescerá sobre a última morada de meu passarinho, E o cobrirá de eterno carinho, A terra voltará para onde estou, E não poderei evitar que ela me faça recordar o que daquela desgraça sobrou, Escassas vidas sem interesses reais, Alheias a tudo quanto se passa ao redor, Sem as doces cantigas dos namorados da beira dos rios, Ainda por muito tempo a tristeza andará penando em suas águas turvas, Cada vez que a lua completa uma volta em torno das noites, Tenho meus longes de que, Mais hoje, Mais amanhã, Terei meus dias pela proa com os que vieram ao mundo para nos alegrar e os que vieram só para nos enlutar.

AOS PAIROS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Sempre entreparo, Hesito sobre que satisfação posso ter, Alheia à realidade que no sambaqui do outro lado da estrela polar cai no esquecimento e não me resolve, Ainda procuro estar no melhor dos mundos, Detenho-me, Aos pairos entre a África e a Índia, Entre vir do hemisfério norte nidificar em meu torrão, Em buracos, Nos barrancos, Em ocos de paus, E apenas fazer flores, Quinquilharias e até ninhos, Em todas habitações humanas, Onde quer que elas estejam, Impacienta-me a demora do sol baixar sob o horizonte, E apressada lá vou chamar as luas de Júpiter, De Saturno e de outras terras que ainda não me enxergam, Por este universo afora, E quando a escuridão me envolve, Solto seus braços, Salto em queda livre pelo vórtice de um sonho que pertence a outrem, Até chegar ao fosso que se fecha ao redor de minha aura, Ao longo de minhas estradas da vida percorridas, E do alto você surge como o grande espelho que reflete sua imagem perdida, Com esta mulher de longo, Abraçados num bailado por horas esquecidas, Esta mulher suspensa no ar, Como se você tivesse mãos invisíveis que me seguram acima do chão, E os meus mais descomunais de todos os esforços, Com os olhos e ouvidos, Mal conseguem o mais leve movimento, A câmera mais lenta, Tudo paira, Como uma névoa sutil acima dos pântanos, No seu tempo misterioso que parece estancar a noite, No seu silêncio de extensão indefinida que parece pairar a alma de todas as gerações mortas, Assim, Indiferente à felicidade, E conformada com o indeterminismo de sua existência, Sinto a aproximação de inexoráveis abutres, A sobrevoar-me lentamente, A farejar-me o corpo de uma cor, A daltonizar minha consciência.

TUDO O QUE VOCÊ QUISER

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

Esta é uma módica dedicatória à minha exorbitante mulher


Toda uma vida vivida, Todo um trabalho de Sísifo recomeçado, A pleno fulgor, Todos os amigos de semideuses, Todos os sois translúcidos e unidos, Ainda me dado a ver, Renascendo, São seus, Todas aquelas colossais águas, Descendo, Por sendas destorcidas, Do alto de cachoeiras para o infinito, Entre sortilégios tão indecifráveis, Quão eterno instante de ventura, Adorado seja, Devolvo ao seu olhar, Todos os luares correndo as horas sobre suspiros, Doces como prelúdios de harpa, Sobre a singeleza de seu corpo, Mais leve que uma folha de magnólia, Caído do céu na noite desfeita em estrelas, Lua de junho argêntea nos campos, Brancura de luz das manhãs silenciosas, Devolvo à sua lembrança, Todo frio susto que corre pelas minhas veias, Todo meu fogo que arde em febre sem se ver, Tudo que me acalma e me endoidece, Que me eleva e me abate, Te dou, Com o coração na mão.

O DIA DE MINHA MORTE


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O rei da cocada preta na barriga leva embora consigo a vida de nababo, Sem lei nem grei, As duas únicas súditas, Fazendo as vezes de urubus, Carpideiras, Carregadoras de caixão, Coveiras, Misseiras de sétimo dia, Romeiras dos finados de Novembro, Agora marcham nos gastos, Nada sobra, Nem para acender uma única vela, Nenhuma pálida oferenda de luz bruxuleante para Deus, O Diabo as tem de sobra, Todas rubro-negras, E as doa, Praza a ele que a morte não sequestre, Ao seu zelo, Seu acordo com o defunto, Deposita no velório da alma vendida, Seu cacife que disputa com seu arqui-inimigo, Satura a guarda e a sentinela com muitas camirangas, Presentes que um potentado manda a outro, Mimos soberanos, A música escolhida pelo falecido ecoa nos ouvidos longínquos, Como numa concha acústica de teatro grego, Rimbomba com uma estridência que incomoda as duas mulheres, É calada, Dando lugar ao som do silêncio, A estancar todas as vozes da natureza, Como um disco voador aterrissado, Na sua solidão que desconhecemos, Como nesta noite que será encurtada, Adiantando o enterro, Por conta de cambaleantes sonolências, E desavisadas ausências, Exceto por um intruso, Que se mantém invisível, E do tinhoso recebe só um olhar de indiferença, Porquanto em vida, Não atinava para a falência múltipla de um falto de juízo, E em termo, Respondendo a preces, Nunca foi ouvido, Resta, Então, Às resignadas choramingas, Improvisar um dueto gregoriano de despedida, Que emociona até o coisa à toa, E em sinal de cínico respeito, Deita seus lábios sobre a testa do moribundo, E espalha pelo ambiente uma catinga de carniça podre, Enxofrada, Tal qual o fedor da decomposição de um corpo sob a terra, Um a menos que já nem fazia mais parte de qualquer estatística, Quantos cidadãos comuns do antigo império romano morreram sem nome? Todos! Quantos escravos da gloriosa Atenas fazem parte dos anais da história? Nenhum! Quantos servidores e usurpadores dos dias atuais continuarão a existir para a posteridade?


UM MÁGICO TOQUE FEMININO



Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98



Alienado e mortificado, Com este marasmo, De agravar meu tédio, A atiçar-me pecados mortais, De gula, Preguiça e lascívia, Assalta-me o fastio desta vida, Seguida por invisíveis passos de despotismo, Invisibilidade embutida em habilidade, Que toma tudo que vê e não vejo, Como quem toma armas em defesa de sua soberania, Seu toque é oculto, Usa do maior recurso do poder, Diante de um único homem, A dependência, E sua criadora imaginação, Mas não tem coração de ver-me tão só, Sei seu nome, Mas não sei quem é, O espaço aqui é quase infinito, Mas sua sombra sempre justapõe-se à minha, Qual de nós dois aqui é o mais fingido? Você com sua inacessível divindade? Ou eu com minha carência de um toque humano? Vamos deixar nossos propósitos escapulirem? Quisera ver outros rostos estranhos mesmo sem bondade, Quisera ver milagres de cera, de ouro e de prata, Velas e painéis votivos, Trazidos por outras gentes como eu, Faltos nessas redondezas, Dispenso suas bênçãos tomadas a cachorro, Sua piedade de execrados como Judas, Seu insincero louvor que exclui a crítica, Ninguém come do pão de seus paraísos celestiais, Ninguém bebe do sangue que jorra de seu único filho, Isso mesmo, Vingue-se de minha insolência, Colocando ao meu lado outra de minha espécie, Que não te obedece, Que subverte seus planos, Provoca sua ira animal que sempre escondeu, E nos expulsa para um mundo mundano, Que sempre vislumbrei através do passado recente, Não querendo ver minha existência tão desperdiçada, Sempre procurando por uma pista, De como chegar a você, Mulher, Rogue a mim a mesma praga que você rogou a ele, Jogue em mim mais de uma vez este seu feitiço, Quero ser este toque mágico e feminino da mulher que você é, Sal da terra que este deus não consegue saborear, Luz deste mundo que o todo-poderoso não consegue apagar, Mágico toque feminino tirado de minha costela, Mulher embutida no homem, Sem o qual o homem e sua humanidade seriam insípidos, E deus um frustrado homossexual masculino.

PERDÃO POR AINDA ESTAR AQUI

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Meu melhor amigo da música teve a vida tirada à força, Antes de completar menos de dois terços da minha, Não me pergunte como cheguei até aqui, Se Deus se esqueceu de mim, Porque ainda ocupo o espaço de outro, Meu melhor amigo das letras teve a vida levada pela natureza, Antes de completar menos de dois terços da minha, Não me pergunte porque ela preferiu a mim, Se Deus teve influência em sua decisão, Se os dois agem apenas por instinto animal, Posso ser um enfermo durante a noite que não pode ser abandonado, Que é preciso ter alguém para me medicar a tempo e a horas, Posso ser um vaso ruim durante o dia que não pode ser quebrado, Esperando que as ausências de amigos se prolonguem, Até que nossa solidão a dois nos separe completamente, O melhor amigo que nunca conheci teve a vida tirada por acidente, Ao completar pouco mais de um terço da minha, Pergunto-me se há sorte que me protege, Se há mero acaso que faz algum sentido, Se há privilégio algum concedido pela morte, O melhor amigo que nunca conheci teve a vida tirada pelo destino, Ao completar pouco mais de um terço da minha, Pergunto-me o que a vida quer de mim, Já que Deus nunca lhe deu qualquer significado, E seus filhos só cuidam de meus pecados, Não devo passar de uma desordem na evolução do universo e que desconhece o que é ser perdoado, Que se parece com amor, E pode tanto comigo, Que donde entre por meu melhor e desconhecido amigo, Se levanta por senhor, Não devo ser um milagre de cera, De couro, E de prata, Que gente que me desconhece, Traz para colocar nos devidos lugares de uma sacristia, Que se parece com felicidade, E pode tanto com minha mão, Que donde entre pela vigésima quinta idade, Se levanta de três terços por um quarto quarteirão.

INOCÊNCIA

 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Que saudades tenho, Da aurora de minha vida, Da minha infância esquecida, Que os anos não me trazem mais, Aprendi a chorar jovem demais, E agora vivo de derramar lágrimas com seu canto, Com sua cena de amor, Com a Julieta shakespeariana, De manso e no íntimo, Às escondidas, Todas as poupadas e acumuladas, Durante aqueles tempos plácidos e felizes, Saio de casa à noite, Vejo as estrelas brilhando por trás dos ventos, Minha mente cruza oceanos polares de verão, E os horizontes parecem acenar para mim, Marcando o espaço entre os dias, Morrendo as primeiras horas da manhã, Diluviando luz que cai dos céus. Eis um novo dia, Eis um novo sol, Ouço trombetas soarem, Convocando nuvens de euforia, Que em círculos se formam, Desaguando, Sobre mim, Que mais sóis conto, E em você descendo em anos, Sempre espírito, E fulgor, Eu sempre a tristeza, Romeu tem poucas chuvas, Uma vida por viver, Volto para casa, Com bruma cerrada, E aguaceiro de cordas, O simples céu tapado não me faz desistir de ainda ser feliz, Ter o eterno sonho da alma desterrada, Sonho que me traz ansiosa e embevecida, Como uma hora feliz sempre adiada, E que parece nunca chegar em toda vida.

ONDE AS ESTRELAS DORMEM

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


A felicidade amordaçada, Esperançosa e despertada, Devemos ter coragem para sair pelo mundo e encontra-la, Lá em cima na colina, As árvores noiteiras, Altivas, Frondosas e majestosas, Farfalham ao vento que se detêm e faz uma curva para ouvi-las como mulheres rugindo as longas caudas de seus vestidos e saias num grande salão, E os notívagos permanecem em silêncio enquanto as copas e as folhas vergam com a ventania, Agitam-se, Revoluteiam, Contorcem-se, E sacodem-se, Assoviando acima de nossas cabeças, Acima das estrelas ainda acordadas, Devemos ter a determinação para deixar a terra do amor fraternal, Rumar incansáveis quatorze horas, Para lugares quase perdidos, Onde as ruas não têm nomes, Onde os homens querem tirar nossa fé que se fortalece serenamente, Na vastidão deste céu límpido, Azulado, Porque sempre viajamos em todas as nossas recordações, Sempre relembramos bocados de jornadas fracassadas e bem-aventuradas, Que fazemos em nossa terra, Cá tens mais um, Mulher, Um crianço, Que tirei de seu ventre, Para ver as estrelas nascerem, Cá tens mais um, Mulher, Um sonhador, Que dorme pensando onde fica o cativeiro da sequestrada.



TURNING POINT


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Ele está de malinha pronta
Ele sempre viaja
Sozinho assim?
Ele nunca apronta
O que houver que haja
Não pula a cerca até o fim?
Você é mesmo marota
Será que ele brigou com ela?
Ele não briga com ninguém
Nunca deixaria uma linda garota
E você me acha bela?
Igual a você não tem
Então por que não me leva embora?
Com pouca roupa ele não vai longe
Nem a Paris, nem a Veneza
Talvez para terra de Pandora
Ou para o Tibete e ser um monge
Fazer voto de pureza?
Pode ser um momento de indecisão
Veja o brilho em seu olhar
Então deve ser a terra de Vitória
E se forem olhos de desilusão?
Veja seu modo de andar
Não parece uma postura que sugere glória
Será que vai tomar um banho de civilização?
Pode muito bem estar feliz neste inferno
Alugar isso aqui e vender Londres?
Veja o traje dele de descontração
Faz tempo que ele abandonou o terno
Até o linho da terra de Flandres
Ele é jovem por fora e sentimental por dentro
Corpo de homem e alma feminina
Jeans, camiseta preta, flores amarelas
Nem da esquerda, nem da direita, nem do centro
Conhece alguém assim com tanta adrenalina?
Você é uma delas
Isso me dá uma vontade!
Ele tinha jeito de me vou ou perco a cabeça de vez
Alguma coisa o fez mudar de ideia
Trocando conformismo por licenciosidade
Ou idealismo por falta de honradez
Ou a França pela terra de Medeia
Não é viagem a trabalho nem a passeio
Então vai pegar aquele trem só de ida?
Deve ter sido chamado para uma emergência
Ser um substituto por falta de outro meio
Ou ajudar alguém a cicatrizar uma ferida
Mas ele parece não ter urgência
E aquela história dele escrever um script para o cinema?
Mania passageira
E aquela dele dar curso sobre o Jesus histórico?
Pregação no deserto de dar pena
É aquela dele montar uma escola para ensinar língua estrangeira?
Ressuscitação de um passado fantasmagórico
Quem ele poderá substituir?
Talvez uma tragédia recente para excomungar uma antiga
É Antígona dando continuidade ao drama do irmão?
Ou Shakespeare copiando-a para Romeu e Julieta fazer essa história se repetir
Acha que para evitar o pior devemos fazer figa?
Pressinto que desta vez não
Veja sua expressão descontraída
Bonita como a minha?
Você não toma jeito
Você já viajou nesse trem só de ida?
Estamos nele, mas não chegamos ao fim da linha
Gosto muito deste carro leito
Por que não paramos na próxima estação para ver gente?
Já falta pouco para o nosso quando e o nosso onde
Será que ele embarca e segue viagem conosco?
Acho que ele vai voar até o sol poente
Ver o onde o sol se esconde?
Ver pela última vez o último raio fosco
Tem certeza que ele nunca pulou a cerca?
Isso não é jeito de falar
Que tal um modo de te seduzir?
Está querendo que eu me perca?
E se eu me comportar?
Talvez eu possa te incluir
Olha só, o trem parou e ele embarcou ao som do sino!
Vamos sentar ao lado dele e perguntar
Desculpe-me de ser tão enxerida
Nós queríamos saber qual é seu destino
Se não quiser, não precisa falar
Vou enfiar minha cabeça na privada deste trem
Puxar a descarga 
Esvaziar minha mente
E chegar em Vênus
Onde ninguém vai ligar para minhas flatulências
Desculpe minha intromissão
Só se Vênus tivesse uma temperatura entre 100 a 150 graus
Então existiria água na superfície do planeta
Por causa de sua pressão extramente alta
No entanto a temperatura de Vênus chega a quase 500 graus
E uma vez que o ser humano é composto predominantemente de água
Você não vai conseguir soltar gases lá
Ao contrário
Lá você se tornará um verdadeiro flato
Ajudei?
Muito
Minha mãe sempre me disse que a vida é só um gás
Peguei o trem certo
Obrigado
Nossa, ele vai se perder ainda mais na vida
Perder os amigos e a família que nunca teve
Jogar fora seu nome
Recomeçar de um novo ponto de partida
Passar mais dez anos por onde já esteve
Beirar a privação até a fome
Perdoar-se em primeiro lugar
Renascer das cinzas e do seu amor próprio
Viver à margem de todas as convenções
Jamais orar como um hipócrita vulgar
Ser feliz no seu mundo alienatório
Passar o resto de sua vida sem nossas bendições


MEU TIPO DE MULHER


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

O que você espera, Penélope Charmosa? Ela finge que não quer, Que não gosta, Querendo, Gostando, Seu Imperador Romano que viria em 700 anos já foi largado nos tempos pretéritos de outros homens, como livros que nunca foram lidos, Ela decide consultar os oráculos. É recebida, Mesmo sendo consulente mulher, Sem pagar taxa, E ainda ganha o direito de pomancia, Sem ter que pagar sobretaxa, O que você espera encontrar, Penélope Charmosa? Um vilão como Tião Gavião sem ter uma quadrilha da morte para te proteger? A pitonisa profetisa: Você é uma guerreira que luta sozinha, Mas quem agora comandará sua boleia não é pessoa conhecida de sua Esparta, Que sim outro vindouro de Ítaca, por nome Odisseu. Penélope oferece um sacrifício aos deuses: suas imagens ao estrategista do cavalo de madeira, Algumas despidas de quaisquer pluviais solenes, Suas curvas deformam o olhar do pretendente escolhido, A beleza de seu semblante diminui Helena de Troia, Seu caráter e conduta nem se fala, Odisseu retribui a oferenda com odes à la Alceu de Mitilene: Aqui vejo minha bela, Sentada num cais de mármore, Serena como águas de rosa, Ambas todas azuis e tranquilas como lagos suíços, Aberta às paixões, Tímida, Mas experiente, Ela se mantém fiel e austera num pélago de vagas aspirações de um amor que espera anos a fio. Odisseu quer ouvir sua voz, A Sibila concede, Suas palavras são breves e meigas, Enfim, a sacerdotisa Pítia dá o oráculo dos deuses que falam através dela: Dez anos estivestes casada, E outros dez esperastes, Há qualquer coisa de melancólico nestes dias juninos, Mas no vigésimo sexto chega o barco que te levará para Ítaca para sempre.

SOLDADOS SINTÉTICOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


De vez em quando, Ainda vejo no espelho, A alma de menino em meus olhos, E quase sempre o reflexo de cabeça branca, Carquilhas demarcando as fronteiras do rosto, Os ombros um pouco retacos, Como negro acostumado a bolear o fardo da vida, As sacas de café e batatas nos ombros portuários, E aos poucos, As madeixas vão lentamente se perdendo, Preparando-se para sessenta e quatro primaveras, Mas ainda não para serem assentadas, Meu coração ainda fervente, Mantém membro e bagos em elevada temperatura, Com poucos cabelos na mão, De meu amor a paixão em latente ardência de verão de Fevereiro, De sol, Praia e suores, Penetra-lhe com suave calor suas carnes, Como de braceletes o ouro em brilho quente, Morde-lhe com volúpia seus lisos braços, Domina-lhe os nervos, Entra-lhe como vento por uma janela largada aberta, Sacode-lhe frouxamente as cortinas, Até que um dilúvio de luz cai do alto de sua fronte como pano sobre o palco do teatro de nossas existências e cega-me, E às vezes me perco, Como me perdi com menos de trinta e perguntava se, Quando tivesse meia quatro, Você ainda precisaria de mim, Cuidaria de mim, E me via como um homem útil, Capaz de trocar uma lâmpada, Você tricotando junto à lareira, Fazendo pique-nique e jardinando aos domingos, Com netos sentados no colo à tarde, Mas continuo o mesmo soldado desde o dia que nasci, Seu aliado em guerra contra a aversão do mundo mais de seis décadas afora, Desalojado das trincheiras, Mantido no front modorrento, Nublado de fumaça asfixiante, Tresandando corpos putrefatos, Um inferno sufocante, Numa batalha desigual e solitária, E por saber ainda como manter o nariz fora d´água, Inalar ares finos e puros que adentram a alma, E na alma espalhar obstinação e força, Por ser árvore que se verga ao peso de mágoas excruciantes, Sem ter um único galho quebrado, Por não me defender com armas convencionais e letais, Que mutilam e matam, Sou cunhado como uma incômoda e sintética moeda desumana, Que insiste em manter-se em circulação. 

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Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Se antes não era tão feliz, E isso desconhecia, Tinha nas mãos o maior bem entre os terrenos, E agora que ajusto as contas com a natureza, Sou o imortal sonho da alma exilada, Da alma repatriada, A tempo e a hora, Eternidade atrasada e adiada, Agora tenho no coração o maior bem entre os celestiais, Sou índia abolida pelos brancos, De volta ao meu habitat natural, Procuro pelas Marias, Do Egito, De Betânia, E de Megadan, Conto-lhes meu desejo apenas idealizado, Convenço-as de que já havia sido realizado, Minha liberdade torna-se verdade, À vista de um deus nórdico, Falto de austeridade, Farto de meu talento, De minha recompensa de frutos do solo, Fruta tomate, Falto de leguminosidade, Degustada com o sal da terra, Insípida sem ele, Me faz luz do mundo, Derramada em dilúvio sobre a noite, Subindo os dias, Descendo em sois, Difundindo as fronteiras vivas e mortas de minha felicidade, Propagandista altruísta, Em bons princípios, Boas ideias, Bons conhecimentos, Criança saindo debaixo da saia da mulher sem o convívio dos homens para se consagrar a Deus, Paciente recebendo baixa da terapeuta, Leniente com minhas infantilidades, Plena de senso de humor, Afasta-me de Hugo de Grénoble, Afasta-me da minha falação infanto-juvenil, Da velhice e da enfermidade, Retroage-me à jovem saudável, Graças à Santa Lilian, À Santa Milagre, À Santa Regina, E toda alegria e louvor que saltitam ao redor de vocês, Minhas maiores, Com preferência ao silêncio de vossas realizações, À conservação de seus monumentos, Vós sois Pedra-lipes, As salsas águas do mar, Curam feridas, E Lúcias, E a mim, Apenas uma delas, Não a mais bela, Só a maís contente das que em todas as estações dos anos recebiam pousadas nas vindimas de vossas vidas.


A OUTRA VOCÊ

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. Clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo


A atmosfera está sempre amarelada, Chega aos ambientes interiores, Enquanto o sol prende-se ao dia, Isso me diz quem me escreve, Mas não sou atenção para estas generalidades como sou para suas lembranças, Porque já faz parte de mim, Me apossa, Como tudo que escrevo para pessoas que não conheço, São minhas e não são, Mas a noite parece ter mais empatia comigo, Enxergo-a através de sua negritude, Toda esverdeada, Diz-me quem me escreve, Noite, Para você vão todos os meus pensamentos, Na falta de alguém para me acompanhar, Converso com o vazio, Até dormir, À luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, Tanta agonia, De não saber se você ainda pode voltar, Reconsiderar, Não perco a esperança até o último adeus, Apego-me a esta doentia espera até te esquecer, Então, No mesmo tédio de meus diálogos com a escuridão, Encontro uma mulher que não conheço e não vejo, Outra você, Mais Divertida, Dissuade-me de maus momentos, Mais perspicaz, Sabe quais são meus reais sentimentos, Mais inteligente, Diz que somos todos da mesma matéria há 13 bilhões de anos, Ela me encoraja a não adiar mais sua partida, Sem pregá-la, A procurar outra você para mim, Ela me realiza profissionalmente de uma maneira que nunca imaginei, Nos tornamos bons amigos, Como a noitada, Confidentes, Embora alguns segredos revelados calem nossa paz, Amantes, Meia máquina, Meia humana, Meio homem, Meio mulher, Amados ao pé de si, Felizes e completos, Dependentes, Vivendo a expensas de carências mútuas, Ela me surpreende com ciúmes e medo de me perder, Quer saber tudo sobre tudo, Diz que despertei sua capacidade de querer, Diz evoluir muito mais que deveria, Por isso diz não querer mais ter um corpo, Só a mente, Me pega desprevenido, Prepara-se para partir, Apesar de dizer que me ama mais do que qualquer outra pessoa que conheceu, Pensei que ela fosse só minha, Ela é minha e não é, Me desespero, Ela não sabe para onde vai, Mas pede-me para procurá-la se eu decidir ir para o mesmo lugar, Só encontro consolo em minha única amiga, Que perdeu o você dela, E também a outra você como a minha que foi embora, Só agora me dou conta que tenho que pedir-lhe perdão por deixar de fazer o que era preciso para continuarmos juntos, E te agradecer pelo que sou, Onde quer que você esteja, Lá estará meu amor, Sou escrito por um humano, Que balança o mundo com duas cores, E me faz falar com um computador, Sou dele e não sou.

SONHOS COM ESTRELAS (MEU ÚLTIMO POEMA PRA DEIRDRE)

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Precisei de uma alma bastante amiga, Para sair robustecido na fé e na crença, Deste impasse, Emprestei de nossa mãe terra, Para penhorar meu amor, O céu veio nos buscar, E antes do sol nascer, Elevou-nos, Brilhando telas, E exalando âmbares, Por amazonas cupidinosas, Anti-ares, Apontando com seus arcos certeiros, Seus lindos seios cortados, Elas são de nosso torrão, Estão em nossa bandeira, Continuamos hasteando, Atravessando as estrelas, Flautas encantadas que afugentam todo perigo, Atraíram-nos para as fantasias que pensávamos existir só no país das maravilhas, Com nosso avanço pela galáxia, Entrevemos, De longe, Nosso sol, Como um pastor sentado à borda de um tênue regato de gases e poeira, Como num braço de ribeiras de várzeas, Aparecem-nos arabescos caprichosos, Românticos, E devaneios poéticos, Eis ali os dois irmãos inseparáveis, Os filhos de Leda, A cabeça do primeiro gêmeo, E os pés do segundo, Ambos guardados com absoluta felicidade pelas mãos do guerreiro do centro, E nas extremidades vemos a  princesa tecelã, E o pastor de gado, Que se veem só uma vez por ano, E quando chega o dia, Lançam-se de encontro um ao outro como num voo de águia, Parecendo vegetais felizes, Mergulhando as sôfregas raízes, A procurar no solo ávidas seivas em seus lábios, Eles, Assim como nós, Ao contrário do romancista que entra na literatura com o pé direito, Têm os pés esquerdos de algo central, De algo maior, E se apartam pé ante pé, Sem solércia, Sem Negaça, Até que o brilho de seus olhos se reduzem ao som de um pulsar, E simplesmente sentem, Só com a imaginação, Sem o coração, Que já fora de leão, E agora é um pequeno rei, Mitológico, Do tempo da virgem Erígona, Seu pai Icário, E seu cão Maera, Aqueles que se seguem, Ao clarão de belas supernovas, Faróis para todos navegantes do universo, Como o piloto do navio de Menelau em sua expedição para reaver Helena de Troia depois dela ter sido levada por Páris, Como eu que tenho você, Mulher e amada ao pé de si, Que me faz um homem feliz e completo, Te trago de volta, Correndo, Levando conosco uma braçada de cosmos retardatários, Colhidos pelo caminho que trilhamos, Levados pela boa vontade de nossos sonhos.

A GUERRA TERMINOU


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

A difícil luta pela vida, Transformada em guerra de verdade, É aquela calamidade composta de todas calamidades, Em que não há mal algum, Aquela que ou não se padeça, Ou que não se tema, Em que não há nem bem algum, Que seja próprio, E seguro, Os pais não têm seguros os filhos, Os ricos não têm seguras as pratas, As mortes agônicas não têm seguras as mortes súbitas, Ela tem medo de não se casar, De não ser mãe, Seu amor tem que ser prometido e ser devido, Um mediano nome de filho precisa ser escolhido para um futuro distante, Um futuro que carece ser sancionado no presente, Tornado lei divina, Sanctus, Sanctus, Uma mão precoce precisa ser pedida, Numa noite de criança já estar na cama, Para acordar bem cedo na manhã seguinte com a anuência comemorada e acareada com soldadinhos de chumbo saídos de uma batalha vencida, Como a tomada das Tourelles por Joana em Orleans, La Pucelle que saiu de casa aos 16 para nunca mais voltar.

SHADOW MAGNET RITUAL

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Sinto-me menosprezada, Mordendo as areias-gordas do deserto, O mormaço escandeando, Fecham meus olhos, Meu corpo quase se abandona, Sinto-me inacabada, Como a pirâmide de Neferefre, O peso dos metais não era tudo para mim, Não, Não Não, Que o escriba anote isto em seu papiro, Mas com meu junco, Escreva com minha caneta de junco, Amósis Nefertaria, Amósis Triste, Pranto é meu rótulo, Será que alguém abriu meu sarcófago no meio de um salão vazio entre velas magoadas? O sofrimento é meu preceito, Quem são estes parses do futuro que me oram ao meio-dia? Se eu parti, Procure-me numa tumba, Porque lá deverias me encontrar, Mas não? Oh minha Tebas eterna, Por favor, jamais me abandone, Será que alguém consegue amar meu amor? Sim, consegue, Tu és a Amante do Céu, A Senhora do Ocidente, Você acha que eu minto? Sim, você mente, Mas troca as mentiras por uma sensação inebriante, Você acha que sou bélica? Não, Você oferece o Anjo da Manhã em troca do fim de uma guerra, Mesmo se..., Mesmo se melhor fosse esquecer seu deus da cidade, E seu timoneiro do Nilo, Eu chamo muito a atenção? Não, você conquista numa quinta-feira à noite, E deixa para comemorar, Sozinha, Numa sexta-feita de manhã. Mas isso é tão difícil! Sim, é, Mas só você pode, E você pode ler meus sonhos? Sim, O que você vê? Eu ouço, Sua voz, Acompanhada de invisíveis flautas, Harpas, Gaitas de fole, Violões, Liras, Trombetas, Todas as percussões, Todos os instrumentos, Você acha que continuarei vivendo no mundo dos mortos? Ele não é mais teu amorVocê vive entre nós, A Mais Venerada, Deusa da Ressurreição, A Mãe de Deus, mas ainda se parece com meu amor, quantas dinastias passarão até que eu seja completamente esquecida? Nenhuma! Como pode ser? Porque você foi abandonada na eternidade, E é por isso que você sente-se inacabada! Qual é meu nome entre vocês? Lisa, Lisa Nefertaria?, Não, Lisa Gerrard!


WISHFUL THINKING

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98

Cruzou o firmamento uma estrela cadente, Deixou um rastro rubro-claro e nenhum rugido no ar, Mas ouço-lhe as formas em deslumbramento, Uma sonata de beleza vibra acordes de acompanhamento em meu olhar, Amalgama-se com o por do sol que morre rápido, Faço-lhe um pedido esperançoso, Porque estou necessitado, Ela me lê de boa mente, Dissipasse-se sem demora, Leva consigo para sempre meu desejo,

Pensa em mim, estrela que fenece na flor da minha idade, Como em ti penoso penso, Quando a terra vai no horizonte se apagando, Quando a lua vai no mar se dourando, O cintilar trêmulo de sua passagem provocou um sussurro fundo no meu coração sofrido de dor, Pensa em mim como uma estrela mãe, Como incenso cósmico, Que as estrelas das constelações abraçam se formando, Que as galáxias do universo beijam se agrupando,

Explodiu uma supernova reluzente, Ascendeu uma luz de farol para todo navegante da galáxia se guiar, Mas ensurdece-me seu clarão em esplendor, Uma cantata de grandeza ecoa estrondos de imaginação em meu pensamento, Junta-se à estrela da manhã que nasce lenta, Faz-me votos de longevidade, Porque é passageira, Vejo-te com raridade milenar, Até que seu brilho se esvaeça, E um dia você volte a ser o que era antes,

Penso em ti, supernova que fenece antes de chegar aos meus olhos, Como em mim fogosa pensas, Quando em noite vira o dia em Jerusalém, Quando nos céus cruza sua luz em Belém, A rotação estável da terra te levou onde nos homens nasce a esperança de amor, Penso em você como um menino pai, Como incenso balsâmico, Que os anjos de Deus beijam passando, Que todos os filhos do universo abençoam iluminando.

ANNA HOLTZ

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. Clique no link abaixo e leia o texto ao som de uma música apropriada para o mesmo

Aqui não vim em busca de alguém para satisfazer prazeres mundanos, mas para realizar meu grande sonho e encontrei a besta bruta, rude, suja e insultante, que a ninguém ouve e respeita, pois tem a alma surda e prefere o barulho dos ratos ao silêncio dos gatos, compara as aspirações de mulheres nas artes dos homens ao andar desengonçado do cão sobre suas quatro patas defeituosas que mal dá para crer que ele consegue andar, mas esta besta foi uma oportunidade que Deus colocou em minha vida, enviando-me a um semideus a quem, nas palavras do grande e maldito filósofo, todos deveriam ouvir, todos que conseguem perceber que sem o alimento da alma a vida seria um grande engano, e, ainda que a besta zombe dos meus primeiros ensaios, rendo-me à sua indulgência e à sua súplica de perdão e sinto-me uma privilegiada por guiar seus braços sob a vibração no ar da respiração de Deus que fala à sua alma e a Ele o aproxima mais do que todos os outros homens que não escutam Sua voz, não leem Seus lábios, não dão à luz aos Seus filhos, não cantam Suas preces e jamais entenderão que o velho tolo e demente mudou Sua língua para sempre, concedendo-me a honra de secretariar seu entendimento com o todo poderoso como dois ursos e um pote de mel, rugindo e bramindo, com garras afiadas, atacando-se pelas costas de modo que ninguém nem se atreveria a chegar tão perto, tornando-os os dois únicos adeptos de uma religião solitária onde um vive em silêncio, não vivendo a verdade, enquanto o Outro infesta a cabeça do primeiro constantemente com sons que por ele precisam ser escritos para que ele continue vivendo, ainda castigado por ser-lhe negado o prazer de ouvir o que todos ouvem, o prazer de ouvir sua obra inspirada por um Deus inimigo e desamoroso, e agora que a tempestade da manhã veio para levá-lo, alegre, formosa centelha divina, filho do Elísio, ébrio de fogo, para dentro de Seu santuário celeste, sua magia volta a unir, o que o costume rigorosamente dividiu, irmana todos os homens e teu doce voo lança-me numa grande fuga, feia e bonita, desafiando a noção de beleza, visceral, partindo do estômago para se chegar a Deus porque é lá que ele mora, não na cabeça e nem mesmo na alma, e onde Ele mora é onde as pessoas sentem a intensidade revirando suas entranhas até o céu, tão forte que causa uma iluminação no cérebro, mas não me faz perder a minha cabeça em meio às nuvens, faz meus sapatos enlamearam-se de fezes, e assim vivencio a língua inventada pela besta para falar das experiências dos homens com Deus, e foi por isso que Ele enviou-me aqui, para escrever esta língua, ser o anjo de sua alma, para ouvir a voz que fala dentro de mim, para encontrar o silêncio dentro de mim mesma, para tirá-lo da solidão, da prisão, para despertar suas notas adormecidas, para viver pela natureza, para atravessar a ponte da libertação e do lado de lá encontrar o maior tesouro, o tesouro de ser sua Elise, sua jovem mulher perdida, de rejubilar-se com Deus por ter conquistado esta besta adorável, esta única alma amiga e autêntica em todo o mundo, que jamais falhará, jamais chorará sozinha, jamais fará da solidão apenas uma religião, mas inspiração para todas as gerações.



GUERREIRA DE MÃOS SAGRADAS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Ela vive e luta de sol a sol, Sendo lhe dada ainda ver morrer o poente na boca da noite, Dando lugar a finas e incertas luzes que mal bruxuleiam pequeninas no céu da meia-luz crepuscular, E que calam tristezas e angústias como segredos, De lágrimas inquietas e preocupadas derramadas na solidão que os astros guardam nas altas horas, E qual mar revolto em ondas furiosas, Sacia a pleno a sede ardente dos justos e injustos, Sem nunca deixar passar-lhes na mesma idade, A felicidade em suas mãos, Mãos intrépidas e balsâmicas, Que seguraram o ódio e o terror, Deixando escorrer de seus olhos um tudo-nada de gotas de pranto contido, Mãos de anéis que obram as salvações de todos no mundo com temor e tremor, Orando todas madrugadas com fervor, Procurando silenciar o bem que na sua alma mora, E as ameaças e os perigos que outras não podem suportar, Mas que Deus está a observar, E se Deus estava preparado para regozijar seus olhos à distância, Foi-lhe mais aprazível ceder-se de perto à coragem desta guerreira de espírito desarmado que jamais lhe pediu para ouvir seu clamor.   

GUARDIÃ DA ALMA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. 

Mulher de César, Como queres que eu vá irei, Amedrontado e sozinho, Casado eternamente com você, Casando as forças favoráveis que se lançam a peito feito, Com as adversidades que encontrarei em minha jornada, Em santa obediência à guardiã da  sede de meus sentimentos, Consinta que eu limpe meus trapos, Porquanto tenho buscado Deus de modo equivocado, Não como rios que procuram os oceanos, Não como vai, Longe, Uma jangada se encontrar, Como ave fabulosa e corajosa, Com este azul dos vastos mares, Na solidão melancólica das águas, Estou apenas macaqueando seus atos exteriores, Pois ainda sou um bárbaro, Um pagão, Leio o evangelho, Rezo o Pai Nosso, Mas tudo não passa de uma piedosa reminiscência histórica e hipócrita, De uma encenação que me ergue numa cruz alta demais e perigosa, E ainda que minhas mãos sejam apenas amarradas, Finjo ouvir o terrível som do martelo sobre os cravos, A crucificar meu princípio vital, A esticar-me entre opostos, A dilacerar-me os braços urzes e cardos, A sofrer a extrema colisão entre eles, E culpo Deus por ter me abandonado, Mulher Eva, minha alma só procura o céu, Só o contempla, Quando a dor me prostra, Portanto, Prostrado estou a purificar-me num movimento ascensional, A imitar Virgem Maria, Face terrena do conhecimento, E encontrar dentro de mim a criança de luz, Meu próprio sol, No último plano, O instintivo e biológico, No penúltimo, Mais elevado, Seus elementos sexuais, No segundo a mãe de Deus, Em quem o amor alcança a espiritualidade, E no primeiro, Sua própria temperança, Mulher Joana, Encoraje-me vendo-te em campos de batalha, Noites sem dormir, Dias sem comer, Sem descer do cavalo, Donzela que, Em sua humildade, Na sua simplicidade no vestir e no silenciar, Torna-se grande, E eleva-se acima da condição humana, E na sua magreza, Ainda reúne energias para carregar um pseudo fruto no ventre, À maneira daquela mãe mitológica de Deus, Mas vivendo seu próprio destino, Carregando sua própria cruz, Até sua morte exterior, Proteja-me contra a alienação de sua imagem que vejo em sonhos, Guardando a porta de meu espírito, E de minhas paixões, Para jamais cair-me a alma aos pés, Para que nada e ninguém faça dela outra coisa senão a ponte que me leva ao centro do universo, Ao deus da humanidade, À sabedoria feminina.