quarta-feira, 12 de outubro de 2016

PARÁGRAFOS 2 A 5 DO LIVRO VALE DA AMOREIRA


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Sem realmente saber como e por onde começar, Onedin deteve-se por algum tempo no fato desse caso insólito ter tido como ponto de partida Tilly correndo de alguém, algo que se repetiu de forma notável em ao longa de sua vida. Todavia, continuava atormentando-o a preocupação em trazer essa quimera o mais próximo possível daquilo que se considera efetivamente existir, missão que sempre temeu ser tão inconsequente e irracional quanto trazer o reino dos céus à terra santa nos tempos das cruzadas. Consultou o dicionário em busca de outras definições para uma palavra conveniente que lhe veio à mente para explicar este imbróglio, e foi numa frase de João Gaspar Simões contida no dicionário que encontrou o fio da meada deste livro. Se o daimon de Tilly ouvisse esta última palavra, ele imediatamente advertiria Onedin de que esse calhamaço de escritos não passaria de uma surrada colcha de retalhos roubados do melhor de todos os pais dos burros de sua língua. Mas é certo também que Onedin fingiria não ter ouvido o acautelamento e começaria a divagar.
Por que alguém escreve coisas para enganar os outros? Como se descobre que alguém escreve coisas feitas para enganar, mas que não enganam ninguém? Como a incoerência, o sonambulismo, o onirismo, o ilogismo e a eventualidade levam a tal descoberta?
Enquanto meditava sobre estas questões, Onedin decidiu recapitular as mais marcantes circunstancias separadas pela relatividade do tempo em que Tilly precisou sair correndo, e optou por substituir os verdadeiros nomes dos personagens e dos lugares desta história fora do comum para evitar constrangimentos.
A impressionante e derradeira conversa com Tilly impregnou-se na memória de Onedin de forma indelével e trazia-lhe recorrentes lembranças da última vez que Tilly correu tanto, numa situação semelhante à penúltima, e ambas caracterizadas por palavras opostas àquelas que João Gaspar Simões empregou para falar da poesia de Eugênio de Andrade: uma coerente com o conteúdo básico do conhecimento absoluto, e outra com ocorrências simultâneas sem relação causal, mas com o mesmo significado; ambas muito mais que sonâmbulas, verdadeiras projeções astrais; oníricas, mas impessoais; tão lógicas quanto o conceito de desordem no universo e tão constantes como a insensata busca do homem por um significado para a vida. E ao contrário da maneira de conceber e realizar atribuída pelo crítico ao poeta, as verdades que nesta penúltima se comprimiam intensamente como num ovo cósmico eclodiram quando Onedin pretendia dizer coisas feitas para não enganar, mas que acabam fazendo com que todos se sintam enganados. No entanto, estarão irremediavelmente enganados para sempre aqueles que nunca se empenharem em compreender a querença desta explosão:
Quero luz!, gritava Tilly com medo do escuro.

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