quinta-feira, 22 de junho de 2017

PREFÁCIO E PRÓLOGO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


PREFÁCIO

UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é uma coleção de centenas de textos, abrangendo todos os gêneros literários, desde uma simples poesia até um artigo acadêmico, e somam cerca de mil publicações.

O primeiro título selecionado para este livro foi COELHO ENFORCADO, uma imagem recorrente em meus sonhos quando eu sofria de terror noturno na infância. Eu tinha escolhido esta imagem para o nome deste livro depois de ter lido HORSE´S NECK (PESCOÇO DE CAVALO), de Pete Townshend, líder e mentor da lendária banda de rock britânico chamada THE WHO. Esta escolha deveu-se não apenas ao fato de Pete Townshend ter sido um de meus ídolos desde a adolescência até os dias de hoje, mas também porque seu livro, traduzido no Brasil com o título TREZE, tem algumas perspectivas em comum com minhas ideias que não se limitam a contos: o nome de um animal no título, o formato (antologia de prosa e verso), espiritualidade, infância, ficção, sonhos e casos mal resolvidos, Pete com cavalos, e eu com o inconsciente coletivo.

No prefácio de seu livro Pete diz: Esta coleção de prosa e verso foi escrita entre 1979 e 1984. Eu nunca desejei simplesmente contar minha própria história, mas tentei cobrir uma ampla gama de sentimentos. Assim, a coleção abre com uma história de infância lembrada de forma obscura e fecha com um vívido vislumbre do futuro bem próximo. Minha mãe aparece neste livro, mas sua personalidade muda constantemente porque esta ‘mãe’ são muitas mães, muitos professores. Cada história lida com um aspecto da minha luta para descobrir o que realmente é a beleza.

Eu não sou talentoso e famoso como Pete e também não tenho nada de importante na minha vida para contar. Sou uma daquelas dez pessoas medíocres que, segundo Carl Jung, não valem uma pessoa de valor porque, de acordo com este famoso psiquiatra, a natureza é aristocrática. Apesar das limitações impostas pelo meu ordinarismo, descobri que a natureza é democrática e trata de igual para igual os bem-nascidos e os malnascidos, e é por isso que um plebeu tem tanto para criar e revelar quanto um nobre. Tentarei comprovar isso (e outros fatos curiosos e extraordinários da vida) num romance que escrevi, chamado VALE DA AMOREIRA, e que será publicado neste livro em partes (parágrafos).

Eu sempre quis ser escritor, mas optei por outra profissão. Agora, tardiamente, resolvi tentar escrever para valer e publicar o que antes escrevia como hobby e como terapia para combater minha depressão que me persegue desde o meu nascimento e continuará me afligindo até minha morte. Este livro é um mero treinamento, ainda pobre de ideias e de verve literária, porque não sei escrever, mas quero aprender. Nele o leitor encontrará contos enfadonhos, todos mal escritos, mas também se surpreenderá com outros mediocremente intrigantes.

Enquanto ainda pensava em escrever um livro só de contos, eu iria dar a ele o nome de MEU PESCOÇO DE CAVALO, mas mudei de ideia e decidi, então, dar-lhe o nome de TERRA DOS LOTÓFAGOS, limitando-o à antologia de contos, depois de ter ouvido um álbum tributo ao DEAD CAN DANCE chamado LOTUS EATERS e que contém uma versão da música BYLAR por ATARAXIA e que inspirou o conto ALÉM DO PORTÃO que será publicado neste livro. No entanto, como uma pessoa volúvel e insegura que sempre fui, reconsiderei e, finalmente, optei por um um livro mais amplo e colocar ao lado dos contos diversos textos tais como crônica, prosa, verso, poesia narrativa, ficção histórica e científica, diálogos no estilo de peças teatrais, minhas viagens pelo exterior, lembranças de minha infância e adolescência e outros gêneros literários. 

A ampliação de TERRA DOS LOTÓFAGOS deveu-se ao fato de todos os meus escritos lidarem com aspectos da minha luta para descobrir o significado de muitos concretismos e abstrações, e não apenas de uma delas, como a beleza de Pete, e, ao mesmo tempo, reunirem uma quantidade de quinquilharias muito maior que os poucos, mas excelentes textos encontrados no livro de Pete. Assim, resolvi dar-lhe um nome mais condizente com a diversidade e quantidade de textos, UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA, mais longo, muito mais longo que o pescoço de um cavalo. Antes de chegar a este título mais adequado para um livro de temas tão variados, considerei nomes como DIÁRIO DE DEIRDRE ULTRAMARI e FRAGMENTOS DE DIÁRIOS PERDIDOS.


Quando li o artigo O escritor está nu, de Pilar Fazito, publicado no diário site Digestivo Cultural em 2010, nele encontrei as palavras exatas para explicar a maneira como sempre tive vontade de escrever: completamente desnudado como amantes durante o ato sexual. Sem pudor. Sem nenhum receio de dizer o que sinto. Sem dar a mínima para o que os outros pensam de mim. Parafraseando Pilar Fazito, procurei escrever fazendo sexo com entrega total, não apenas despreocupado com os poucos fiapos de pelo que jazem sozinhos na vastidão de um peitoral pouco malhado como ela diz, mas escancarando o torso de macaco gordo e tetudo que fui enquanto escrevia este livro. Macaco politica, social e moralmente incorreto que põe por escrito o que pensa, tudo que a maioria dos humanos pensa, mas tem medo de dizer.


Ler UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer a antiga rota da seda que, na verdade, era uma série de rotas interligadas através da Ásia do Sul, usadas no comércio da seda entre o Oriente e a Europa, só que começando pelo fim, em Istambul, visitando seus bazares, como o Bazar das Especiarias, o Grande Bazar, O Bazar Egípcio, onde se encontra de tudo: frutas, tapetes, ervas medicinais, jóias, louças, condimentos, roupas, comidas exóticas e uma lista interminável de bugigangas, cada uma delas disponível em todos os tipos imagináveis, e com muitas cores, como a palheta de um desenhista profissional que contém mais de 500 tons de cores. Entrar no BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer uma série de rotas que ligam o cérebro à alma e conhecer muitos dos ingredientes que lhes dão vida. Todos os contos da TERRA DOS LOTÓFAGOS foram incorporados a este livro. 


As ideias de todos os textos vêm do intelecto e este, por sua vez, é impulsionado pela alma alimentada por música e pela intuição materializada por uma ilustração. Músicas e ilustrações não estão em cada texto por acaso.  A música é a alma do intelecto e a ilustração seus olhos.


UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA será publicado somente no meu blog (com links no Facebook e no Google +), em partes (textos) individuais no meu grupo no facebook chamado Textos de Alceu Natali https://www.facebook.com/groups/316295385178582/´, 
pelo menos uma vez por semana.


O prólogo continua sendo o mesmo que havia sido escolhido para a TERRA DOS LOTÓFAGOS.


Dedico UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA ao saudoso Armando Natali, meu pai e o melhor e único amigo que tive em minha vida, à Cecília Silveira Macedo, minha esposa e fiel companheira de árduas batalhas, à Ana Carolina Macedo Natali, minha filha quem espero ver crescer, formar-se, ter uma profissão, uma carreira e independência ideológica, e à humilde família de minha esposa que mora em Belo Horizonte e que vem me ajudando muito e incondicionalmente durante os últimos cinco anos que têm sido os piores da minha vida. Meus sinceros agradecimentos a Altair, Cristina, Deirdre, Douglas, Maria José, Maria Lúcia, Marinho, Renato e Scott.


Alceu Natali
São Paulo, 21 de Agosto de 2014


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PRÓLOGO

O vento e meu timoneiro mantinham-nos na rota certa e eu teria chegado à minha terra natal são e salvo, mas o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas desviaram-me do curso, no momento em que eu estava tornando a dobrar a Malea, levando-me para além da Cythera. Nove dias de ventos violentos afastaram-me dali, e no décimo dia aportamos na terra onde vivem os comedores de Lótus que se alimentam do fruto que brota desta flor. Descemos em terra firme e apanhamos água para abastecer os navios. Meus companheiros fizeram uma rápida refeição junto aos nossos barcos de águas rasas. Depois de comer e beber enviei alguns de meus companheiros para instruírem-se sobre os homens que comem o alimento que cresce nesta terra. Eu escolhi dois de meus homens e com eles enviei um terceiro como mensageiro. Eles partiram em seguida e encontraram-se com os comedores de Lótus e estes não demonstraram nenhuma hostilidade, mas, ao contrário, deram-lhes para comer a planta do Lótus, cujo fruto, doce como o mel, fez com que todo o homem que provou dele perdesse o desejo de voltar para casa e de vir contar-nos o que lhe sucedeu. Eles queriam lá ficar, permanecer com os comedores de Lótus, alimentando-se daquela planta, ávidos por esquecer a viagem de volta para casa. Eu os forcei a voltarem aos navios e, com olhos cheios de lágrimas, eles foram arrastados para baixo dos bancos de remos e lá eu os amarrei. Depois, ordenei aos meus outros homens de confiança para que embarcassem e começassem a remar rápido, caso algum outro homem viesse a comer um Lótus e abandonasse a ideia de fazer a jornada de volta. Eles apressaram-se para os navios, tomaram seus lugares de maneira ordenada em suas fileiras e golpearam o mar cinzento com as pás de seus remos. Porém, o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas que nos trouxeram para esta terra continuavam conspirando contra nós, detendo nosso avanço, por isso pedi aos meus remadores para imprimirem mais velocidade, pois a terra dos comedores de Lótus ainda estava muito próxima de nossos navios e a maré poderia levar-nos de volta para lá. Um de meus companheiros, ao dar mais potência aos seus braços, deixou cair uma flor de Lótus que ele escondia. Imediatamente, repreendi-o e amarrei-o junto aos outros três debaixo dos bancos de remos. Apanhei a flor de Lótus trazida a bordo sem que eu soubesse e, antes de jogá-la ao mar, aproximei meu nariz dela só para experimentar seu aroma, e assim que o fiz, senti uma enorme vontade de prová-la, mas resisti à tentação e apenas toquei-lhe com a ponta da língua para sentir seu gosto, mas isto bastou para que eu a devorasse rapidamente e desejasse voltar para a terra dos comedores de Lótus que ainda não se encontrava distante. Então, atirei-me ao mar e com ligeiras braçadas logo cheguei à praia e fui encontrar-me com os comedores de Lótus que me deram uma ótima acolhida, ofereceram-me Lótus até me fartar e perder a vontade de voltar para casa. Eu não saberia mais viver noutro lugar a não ser neste. Aqui esquecerei do meu passado e começarei uma nova vida. Este lugar é letárgico e me dá muito sono. Mas é disso que mais preciso: sono para  sonhar.




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DREAM SONGS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

O que se apesenta neste momento em minha memória, Ainda não são anéis que refulgem nos dedos, Nem padre que não celebra na noite de Natal por menos de mil reais, São os acordeões que empoeiraram-se nas feiras de pechinchas, E não vibram seus  teclados diatônicos e seus botões cromáticos, Nem nas mais cafonas sessões de pulgueiros, Um desprezo ignóbil por Dominguinhos, O maior de nossa música, São, também, os pilhéricos pianos, Dos diabos, Que nunca despertaram para martelar a madeira revestida de feltro e brandir nossos recintos, Outro vil descaso com Chopin, Um dos maiores de nossos clássicos, Mais que esses dois, São os violões, Que, Solitários, Ressoaram um rico e imagístico repertório  de canções, Como num sonho, No qual o próprio sonho encontrou um mágico ensejo para incumbir o quarteto mais famoso do mundo, A executar uma melodia gerada de uma só voz e um único acompanhamento, Algo que transcende de longe nossa razão e nossa imaginação, Da mesma forma que todos seus plágios inconscientes alcançam perdão pelo bom gosto, Pela Sensação que é estar ao lado dela, Tão sensacional como na progressão de Men Men Mentiras, Mas nada a ver a com a tardia e narcisista Sou Uma Sensação, E as imitações não param por aí, A Guerra Terminou, Uma que não precisava ser vencida por ninguém, Combina, Como Romeu e Julieta, O Anjo Da Manhã com Tudo O Que Você Precisa É Amor, A prostituta que passa a noite comigo e chega em casa, Sorrateira, Com o canto do bem-te-vi, Até os pássaros sabem que ela passa o vício e o vírus do cupido, E esses complexos sonoros avançam com Não Não Não, Embarcando No Último Trem Para Clarksville, E vão parar nas estações das  morbígeras morbidezes, Quem Abriu Meu Túmulo?, Para roubar?, É Lá Que Eu Jazo, É lá que devo te procurar? Mas eis que um caprichoso arranjo dos mais belos crisântemos, Chamado originalidade, Tira os acordes do jazigo, Mergulham-nos em preciosidades de beber até fazer mal, Ninguém Consegue Amar Meu Amor,  Uma sutileza expressiva só ouvida nos salões musicais dos anos britânicos, Como, Bem aqui vem uma redundância, Como Minha Garota É Às Vezes, À qual não poderia faltar uma paixão ardente e ufanista, Minha Cidade De São Paulo, Nem pieguices adolescentes, Por Favor Nunca Me Deixe, A la Charles Aznavour, Por que só existe uma? Porque É Somente Você, Só existe uma mulher no mundo? Sexta De Manhã, A celebração de uma vitória onde não houve perdedores, E de pensar que tudo isso começou com ingenuidades, Chamando Atenção, De quem? Da mesma fêmea de sempre? Mesmo Se, Mesmo se o quê? Ninguém sabe, Dinheiro Não É Tudo, Naqueles tempos, Mas não nesses dias, Escreva Com Minha Caneta, Sem título seria melhor, As lhanezas evoluíram um pouco com É Melhor Você Esquece-la, A mesma a quem se implora para ficar, The Scary Song, Por falta de outro nome,  E de pensar que tudo morreu com as esquecidas pelo tempo, O Marinheiro, A Deusa, E de se pensar que tudo ainda vai ressuscitar com os nomes de seus tristonhos compositores: Ay See Us Nay Tall, Ay See Us Blue, Crying Is Our Label, Pain Is Our Rule.



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terça-feira, 13 de junho de 2017

SEJA FEITA SUA VONTADE ASSIM NA PRAIA GRANDE COMO NA CIDADE MAIOR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Cai a noite baixa e curta de verão, Sobre um mar de rosas, Azulão na escuridão, E tranquilo como um lago suíço, Com escassas luzes bruxuleantes tocando os barcos adiante no intangível horizonte, Lá pelos idos da alta idade média dos anos dourados, E eu, Sócio fóbico e fobofóbico, Sou rastejado em passos de cobra, Lenta e pegajosa, Para a pista de cimento do Pelicano, rodeada de palmeiras, De ar-livre, De muitas vestes aquarelistas, Rezo minhas rezas, Outros cantam seus cantos, E todos dançam conforme as músicas que alertam, amor de praia não sobe a serra, A menina que me tira tem o venerado símbolo da metade da idade de menor, Seus cabelos são lindos pendões de inocência, Que a brisa beija e balança, Tem o nome da mais badalada rua da minha pauliceia desvairada, Logo torna-se minha primeira namorada, Sem jamais saber que teve um romance, A vigésima quinta hora retorna todos ao edifício brasil, Mas a madrugada é apenas uma criança de peito, Os da maioridade, Com seus carburetos, Arrastam suas redes nas águas mornas ao relento, Eu fico para trás, Recosto minha cabeça no colo de outra cuja graça se perdeu com o tempo, Esta sim, De minoridade absoluta, Sabe embrenhar seus dedos pelas minhas madeixas, Tresnoitar, Curva seus lábios sobre os meus, exala um misto de perfume, E de cheiro áspero de raízes e seiva, Relaxa os nervos, Adormece o cérebro, Põe seu coração à larga, Sussurra no meu ouvido um galanteio, A namoração vai escalar os oitocentos metros até o planalto de onde viemos, E depois, Depois deixamos a vida viver sua vida.     

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sexta-feira, 2 de junho de 2017

CICLO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Cuca, Vai embora, Acabou minha hora, Uma gota vermelha brilhante chamusca meu céu, Já não é mais papai Noel, Não venha me pegar, O papa-gente vem me buscar, Ele grita meu nome e me assusta, Pá-á-pá-santa-justa, Ele é ela que apanha meu último sono, É deus deixando-me no abandono, Rezo ave Maria, Todo dia, Rezo pai nosso, Mais que posso, Ele que é ela aparece de xandor, Conhece minha vida de cor, Minhas andanças, Minhas esperanças, Cuca, Se você vier me buscar, Só me leve para o mar, Se podes me ajudar, Peça a Moira Nona que teceu meu nascimento, Para deixar a intenção do Manjaléu cair na planura do rio do esquecimento, Que a Parca Décima adultere meu sorteio, E possa prolongar meu ciclo neste mundo de devaneio, Que a filha da necessidade Morta, Cegue esta tesoura abominável que o fio da minha vida ainda não corta.

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terça-feira, 30 de maio de 2017

SEM SABER PORQUE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

As cartas da juventude se perderam, Mas ainda frui o prazer de nos vermos, Ao longe, A encenarmos ao som de lira, Ponteando as estanças de poesia mélica e elegíaca, Às vezes sofremos com o olhar, Às vezes sofremos com o sofrer, Gostar sempre gostamos, Mas nunca sabemos porque, Tampouco há Senhor, Que ensina seus servos, Que padecem o tormento de mal saber, Como bolos de véspera, e pães amanhecidos, Às vezes não sabemos se nossas feridas podem curar outras, Qual salsas águas do mar a cicatrizar pedra-lipes,  devem ser belos os cristais das vozes que nunca ouvimos, Pensativas as mentes quando estão a sós, Contemplativas quando, diante do nada, sentem-se esquecidas, sem lágrimas nos olhos, que se escondem como atrizes por trás das cortinas, os contornos devem ser odes profundamente imagéticas, Podem ser afins as almas, clonagens hibridizadas que chegaram ao fim, gostar sem saber porque deve ser assim, Somos temporãos e tardios, somos tempolábeis, gigantes vermelhas que se encolhem em anãs brancas, o choro contido sorrindo um sorriso triste, ninfas que prescindem os casulos e crisalidam uma borboleta, Ódio escudeiro contra os vilões do amor.

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sábado, 20 de maio de 2017

GOOD WINE ALL PARTY LONG


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Meat Is Murder was my first close encounter with the boys from Manchester and this MIM got me on my knees. I had to know more about this next big thing. Not too long The Smiths fell into my hands and whispered in my ears they were sort of skipping stages, like jumping from a Please Please Me to A Hard Day's Night and then to a Rubber Soul and then god only knows to what next. Too soon a rumor of an even better than the real thing spread in my neighborhood on the grounds that it was an imported, hard to find and priceless Hatful of Hollow. And I paid the price which turned out to be an anticipated and expensive invitation to a big party celebrating the long awaited death of the blue blood queen of Camelot. The party's treats and traits included only caviar and vintage wine and lasted for a whole week, like in those wedding parties in the old days of Cana in Palestine of the first century of the Common Era. An inside out dressed guest at this Dead Queen party approached whom he thought to be the bridegroom and said to him: Every man at the beginning sets out the good wine, and when the guests have well drunk, then the inferior. You have kept the good wine until now. I think that guest was that Amazon bloke who wrote a review of this album stating that The Smiths are essentially a singles band. He was drunk but I think he was right; after all, every Smiths album is great and made of hit singles only. If you like good wine like that one served at Cana 2,000 years ago, I recommend you to start with The Smiths, Meat is Murder, Hatful of Hollow, Louder Than Bombs and Strangeways, Here We Come. Save this Dead Queen brand for a very special date, like your own funeral, for instances! Long live Morrissey and Marrs!

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terça-feira, 16 de maio de 2017

SÓCRATES NA TERRA DO BEIJA-FLOR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


O Brasil masculino estava de ressaca. Eu e uma menor parcela da população feminina também. A seleção brasileira, patrocinada pela marca Topper da São Paulo Alpargatas S/A, acabara de ser deportada da Espanha por Paolo Rossi, Il Bambino d'Oro. Tele Santana, sempre sorridente e solícito, mesmo diante de uma decepção que parecia ser de proporção mundial, circulava pelas dependências do departamento de exportação da empresa, com a aura e a triunfal guirlanda de idealizador do futebol-arte, e autografava todos os pedidos. Em 1982, nenhum brasileiro imaginaria, nem nos mais aflitivos pesadelos, que o verdadeiro holocausto de nosso hegemônico esporte bretão viria 32 anos depois, em nossas plenas terras de palmeiras e floresta tropical, onde cantam uirapurus e sabiás. As águias alemãs que aqui gorjeariam, entoariam nossos cantos canarinhos, bem mais melodiosos do que as aves toscanas naquele fatídico dia no Sarriá. Foi a última vez que padeci com nosso esporte mais popular, e, na esteira de minha purgação, pus fim a um sofrimento que encontrou indescritível consolo com a quebra de um jejum de muitos e angustiantes meses de desemprego: eu estava de volta ao trabalho, e este seria o meu derradeiro na condição de empregado, de carteira assinada. Não me deram muito tempo para me familiarizar com os produtos que eu deveria exportar, o que estava em perfeita consonância com a sucessão de meses que levaram para me contratar, desde o dia que respondi a um anúncio no velho Estadão. Em menos de quatro semanas, fui despachado para nossos vizinhos do norte da America do Sul, da América Central e do Caribe, onde visitei lugares que deram arriscados e deleitosos contornos à minha primeira viagem àquelas bandas: as perigosas Bogotá e Cidade do Panamá, a medonha Zona Livre de Cólon, a sossegada Isla Margarita da Venezuela, a cordial e simpaticíssima Santo Domingo da República Dominicana, as paradisíacas Aruba, Curaçao e Barbados e, finalmente, o interessante e inesquecível Porto de Espanha, capital de Trinidad e Tobago. Este país que tinha, na época, menos de 1 milhão de habitantes, foi uma colônia britânica até 1962, e o inglês crioulo lá falado era e é, até hoje, bastante desafiador, mesmo para um nativo da Inglaterra. O drama pode ser sentido só com este exemplo: crowd (cráud), multidão, soa como crow (crou), corvo. O representante comercial, um indiano, teve a cortesia de enviar seu motorista particular para me apanhar no aeroporto, e me levar ao luxuoso hotel Hilton, de cinco estrelas, quatro a mais que o meu salário. Ao entrar para fazer o check-in, setor da recepção para registrar-se e receber a chave do quarto, segundo o Sr. Aurélio, deparei-me com um mundaréu de homens falando alto, com a boca e as mãos, como os italianos. Ao aproximar-me, me dei conta que eles algazarravam em português brasileiro! Reconheci alguns rostos e identifiquei-me ao mais próximo, Adilson Monteiro Alves, sociólogo e um dos fundadores da Democracia Corintiana. Ao saber que eu trabalhava para o patrocinador do clube, foi logo me apresentando ao presidente, Waldemar Pires, ao técnico, Mario Travaglini, e convidando-me a juntar-me à comitiva do time e assistir ao amistoso contra a seleção de Trinidad e Tobago no dia seguinte, uma sexta-feira, dia 3 de Setembro de 1982. Meu primeiro encontro com o agente de vendas, completamente esquecido pela Alpargatas, foi decepcionante, para ele, porque esperava que eu trouxesse a linha de calçados. Porém, eu era encarregado de vender somente produtos do setor chamado Resto, colchas de chenile e encerados - leiam meu texto SOMOS TODOS BOLIVIANOS. Nervoso e meio esnobe, ele designou seu assistente para me acompanhar nas visitas a clientes, e recusou meu convite para assistir ao jogo do Corinthians à noite. Mal sabia ele, e jamais explicaria Deus, que, em pouco tempo, atingiríamos a misteriosa receita de meio milhão de dólares anuais só com as antigas colchas Madrigal, num mercado menor que o bairro de Santo Amaro em São Paulo. Voltei ao hotel antes do pôr do sol. O calor era escaldante, como no verão carioca. Tirei o terno e a gravata, isso mesmo, você entendeu direito, esta indumentária me era imposta até nos desertos do Oriente Médio. De chinelo, camiseta e bermuda, fui para a área de lazer. Lá toda a delegação do Corinthians se concentrava. A maioria dos jogadores se divertia na piscina. Casagrande, com apenas 19 anos, era o brincalhão da turma. Adorava jogar os companheiros na água. Sócrates não se misturava. Ficava na companhia dos dirigentes e da comissão técnica. Tirei um cigarro do maço de Hollywood e acheguei-me dele, recostado numa espreguiçadeira, segurando um livro, provavelmente de filosofia sobre seu xará. Mal puxei conversa e ele me pediu um cancerígeno. Perguntei: Você voltou a fumar? – para se preparar para a copa do mundo na Espanha, Sócrates absteve-se do tabaco por seis meses. Constatei, então, uma de suas marcas registradas, sua fama de arrogante. E o que você tem a ver com isso? Entornei o caldo de nosso quase monólogo ao pedir a ele para me falar sobre aquela partida contra a Itália. Não quero falar mais sobre isso. Ele me pediu para acender o cigarro e continuou lendo. Mais tarde, naquela noite, eu teria um verdadeiro diálogo com ele, mais amistoso, digamos, mas, para ser sincero mesmo, em circunstância anômala, na qual se inseria mais um de seus logotipos fora da cancha. Chegara a hora de ir para o estádio. Todos foram para seus quartos e desceram de calça e blusão de moletom da Topper. Três micro-ônibus nos aguardavam na saída do hotel. Embarquei num deles. No trajeto até o campo, os jogadores que estavam comigo vociferaram, alucinadamente, contra todos os transeuntes. Se todos eles fossem submetidos ao exame antidoping, seriam reprovados, e se, naqueles tempos, já vigorassem as atuais leis disciplinares impostas pelos mafiosos STJD, CONMEBOL, CONCACAF e FIFA, eles pegariam um gancho pesado. Não tive permissão para entrar no vestiário. A preleção do técnico aos jogadores era segredo democrático, mas pude adentrar o gramado com o time, Solito, Sócrates, Ataliba, Casagrande, Zenon, Biro Biro, Mauro, Daniel González, Alfinete, Paulinho e Wladimir, uma grande equipe que fez época no futebol. Quando eu me encaminhava para o banco de reservas, um homem, elegantemente vestido, veio ter comigo, falando um bom cockney do East End de Londres. Eu era o único que falava inglês, e fui, imediatamente, identificado como o chefe da delegação. O cavalheiro era o Presidente da Federação de Futebol de Trinidad e Tobago. Suas efusivas saudações e paparicos fizeram me sentir um cartola. Tal qual um político brasileiro em campanha à reeleição, ele me levou para um volta em torno do campo, construído em 1980, e fez questão de me explicar, em detalhes, outras melhorias que ainda planejava fazer: a ampliação das arquibancadas, a troca do gramado e a construção de uma pista de atletismo. O Estádio Hasely Crawford era um pouco acanhado. Não me recordo do seu tamanho. Minha memória de 65 anos já não se refresca com tanta facilidade, e já manifesta lampejos de Alzheimer. Acredito que fosse muito parecido com o antigo Parque Antártica do Palmeiras, com capacidade para 27 mil pessoas. O presidente trinitino-tobaguiano massageou meu ego, ainda em busca de autoafirmação, ao me oferecer a tribuna de honra. Encabulada e educadamente, recusei, explicando que, por ser o único a falar a língua da terra, precisava estar junto aos ‘meus’ comandados para eventuais traduções, especialmente junto ao trio de arbitragem e nas entrevistas para a imprensa local. Ele entendeu e até se desculpou. Sentei-me ao lado do lateral Zé Maria, às vésperas de pendurar as chuteiras. O jogo foi apenas um treino para o Corinthians, que venceu por 8x2. O futebol de Trinidad era embrionário, amador, e somente em 2006 conseguiria vaga para participar de sua primeira copa do mundo. Os dois gols do anfitrião foram facilitados para retribuir a calorosa recepção que os corintianos receberam das autoridades e do público. Ataliba, recém-contratado junto ao Juventus da Rua Javari, foi cumprimentado por todos os jogadores, ao fazer seu primeiro gol com o uniforme alvinegro depois de várias atuações sem sucesso. Nada como um saco de pancadas para se reabilitar. Além de dois gols e uma exibição a altura do craque que foi, com assistências inteligentes e liderança intelectual, Sócrates desfilou seu repertório de toques de calcanhar, sua marca registrada no adestramento da bola, uma marca visual da mesma maneira que as bandeirinhas se tornaram sinônimo da pintura de Volpi, como escreveu, inteligentemente, o talentoso Daniel Piza, por ocasião da morte do ‘Doutor’ em 2011. Havia apenas um repórter fazendo a cobertura do evento. Não sei se ele era da Gazeta Esportiva, do Diário da Noite ou da Revista Placar. Só sei que, a cada substituição, ele me chamava correndo junto ao mesário, para explicar quem entrou no lugar de quem. Ao final da partida, o presidente da federação trinitina me abordou e me levou de volta ao hotel no seu carro. Sentado no banco de trás estava, nada mais nada menos que Juan Figger, uruguaio que se mudou para São Paulo em 1968, tornou-se rico e célebre por ser um dos maiores empresários de jogadores de futebol e promotores de jogos e torneios amistosos, e famoso, também, por praticar muitas atividades ilícitas: sonegação fiscal, evasão de divisas, falsificação de passaportes e influência na convocação de jogadores, por ele empresariados, para a seleção brasileira, com objetivo de valorizar o passe dos mesmos. Esse era o trabalho com o qual sonhei tanto: gerenciar esportistas, artistas e músicos. Em 1982, eu e um colega das Alpargatas planejamos um empreendimento que só começariam a realizar nos anos 90: exportar jogadores brasileiros para a Europa e importar bandas britânicas para o Brasil. Não executamos o plano, perdemos o momento, e outros ficaram com nossos sonhos. Juan, que organizou dois amistosos para o Corinthians em mares de céu azul caribenho, permaneceu calado o tempo todo. já o presidente da federação, eufórico, delirava com ideias que ele queria deixar sob minha responsabilidade: um torneio em Trinidad, reunindo santos, Corinthians, palmeiras e flamengo. De volta ao hotel, fui direto para o bar, para beber, sem nenhuma mágoa para afogar, simplesmente porque eu teria um fim de semana de folga e só voltaria a trabalhar na segunda-feira. Lá estava Sócrates, saboreando uísques, cervejas e outros baratos etílicos afins. Sentei-me ao seu lado e, desta vez, jogamos muita conversa fora, literalmente, sobre todos os possíveis assuntos descartáveis, menos futebol. Sócrates estava, ainda, no primeiro de dez assaltos às malvadas, mas eu já estava meio grogue, tentando manter o equilíbrio, prestes a jogar a toalha. Os adversários do Corinthians tinham enorme dificuldade para acompanhar o Sócrates dentro das quatro linhas, mas era quase impossível acompanhá-lo na arte de ingerir águas que passarinhos não bebem. Fui salvo pelo gongo: foi anunciado o jantar que o hotel, ou a Federação Trinitina, ou não sei quem, ofereceu à delegação corintiana. No meu apartamento, desabei na cama de sapato e tudo, e o quarto parecia enfeitiçado, girando como um carrossel. Contei poucos cavalinhos para ferrar no sono. Depois de um tempo imponderável, o telefone tocou. Passava da meia-noite. Quem era o filho da mãe que me ligou em plena madrugada de sábado, perguntaria o pai do bem sucedido corretor da bolsa de valores no filme O Lobo De Wall Street. Era tudo demais tudo de menos que outro representante comercial, outro indiano, da cidade de San Fernando. Nas poucas semanas que tive para me preparar para aquela longa viagem, ao triar as rumas de telexes sem respostas, encontrei dois agentes interessados nos produtos da Alpargatas. Acabei ficando com o nariz empinado do Porto de Espanha, mas, por precaução, avisei o sanfernandino que eu estaria em seu país. Mas por que ele me procurou a esta hora? O inoportuno soube, pela televisão, que o médico Sócrates estava em Trinidad, e queria conhecê-lo. Rodopiando pelos corredores, consegui chegar ao bar. E lá estava Sócrates novamente, jantado, e agora acompanhado de vários companheiros. Tive que tomar algumas doses de uísque com o sanfernandino, que era médico também, e não veio falar sobre negócios. Apresentei-o ao Sócrates, larguei os dois no balcão do bar e, em zigue-zague, rumei em direção aos elevadores. Ao passar pelo saguão, fui interpelado pelo Daniel González, caindo pelas tabelas, tentando dar uma entrevista a um canal de TV local. A jovem e bonita jornalista pediu-me para ajudar na tradução. Cada pergunta dela era respondida com palavras aqui intraduzíveis, como, por exemplo, este eufemismo: quero levá-la para meu quarto para fazer amor. Sempre polido, eu dizia à moça que o Daniel e todos os corintianos estavam adorando o país. Mais jogadores, completamente embriagados, juntaram-se àquela baixaria, que eu trasladava para uma solicitude. Para me desvencilhar deles, tive que enganá-los com uma súbita indisposição estomacal. Escorando-me pelas paredes, consegui chegar ao meu apartamento. Com as mãos trêmulas, coloquei o aviso de não perturbe na maçaneta do lado de fora da porta, tirei o telefone do gancho, e desmaiei na cama. Meu inconsciente cancelou todos os sonhos programados para aquela noite. Acordei depois das 15 horas, com uma retumbante dor de cabeça e na consciência. Lentamente, comecei a rememorar o que se passara nas últimas 24 horas. Lembrei-me que, enquanto estava sóbrio, Sócrates me disse que eles teriam que levantar às 6 da manhã para pegar um voo para Curaçao, onde jogariam um amistoso contra a seleção local no Domingo. Seleção de Curaçao? Impossível! O escrete desta ilha de encantos mil devia ser igual ao Íbis de Pernambuco, o pior time do mundo, que entrou para o Livro Guinness dos Recordes por ter conquistado a façanha de três anos e onze meses sem comemorar uma única vitória. Mas, contra um time encharcado de engasga-gato, talvez os curaçaoanos conseguissem uma vitória. Quase! O jogo foi 0x0, e o Corinthians deve ter se arrastado numa lombeira confusa como o papiamento, língua oficial das antigas Antilhas Holandesas, mistura de holandês, alemão, inglês, espanhol e português. Se os corintianos não se refizeram da bebedeira com um trago de bebida que cura, significado da palavra Curaçao, então eles provaram da típica bebida Curaçau, feita com cascas de laranjas da ilha e cachaça de cana de açúcar da melhor qualidade da região. Lembrei-me, também, de ter explicado ao Sócrates que Cristovão Colombo batizou o país de La Isla de La Trinidad, referência à Santíssima Trindade Cristã. Mas os ameríndios locais chamavam a ilha de Terra do Beija Flor. Faz todo sentido. afinal, dois beija-flores adornam o brasão de armas de Trinidad. E Tobago, o que significa? Há tantas controvérsias sobre sua etimologia que prefiro lembrar-me daqueles dias ouvindo a Enya cantar Caribbean Blue (Azul Caribenho): So the world goes round and round..., E o mundo gira e gira..., and so did my head, e assim também girou minha cabeça, enquanto beija-flores ainda zumbem em minha mente, saudosa do grande Sócrates brasileiro, que partiu cedo demais.

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sexta-feira, 12 de maio de 2017

ANTES QUE NOSSOS TEMPOS ACABEM

 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Encontraram água em Marte, Disse um homem ao outro, Apertando os lábios e erguendo as sobrancelhas, O outro apenas meneou a cabeça leve e afirmativamente, Os dois sentavam-se em bancos altos diante do balcão de um bar e, Para dar valor aos clichês de alambicados poetas de meia-tigela, Estavam num bar para afogar as mágoas, Consumindo etílicos e, Para manter-se fiel aos chavões, Consumindo sentimentos de culpa e diluindo pesos na consciência, Ambos estrangeiros, Como o personagem de Albert Camus, Um mais, O outro menos, Um pai de uma jovem viciada em drogas, O outro fabricante de metanfetamina, Compartindo suas desgraças, Mas não seus segredos, A distância física que os separava, Neste encontro casual, Era diminuta, A sincrônica mais significativa que pudessem imaginar, Um assunto para Carl Jung, Um remoía o que poderia ter feito para evitar a falência da filha por overdose, E quantas pessoas ele levaria, E não sabia, À morte, Por levar ao trabalho o parafuso em que entrou, Na mente do outro voavam pensamentos sobre a família que perdeu, E a peça teatral que escreveu no purgatório, O Traficante, A Prostituta E A Freira, Sobre um, Nada mais havia para dizer, Somente a ruína final que leva ao inferno, De livre vontade, Por falta de discernimento e, Para não perder de vista os provérbios reles, Por falta de esperança que morre por último, O outro limitou-se a aceitar a água de Marte como dissimulação por falta do que mais falar, E dissimulou: Também encontraram um mar na Europa, uma lua de Júpiter, Um pensava que iria encontrar a filha no céu, O outro não tinha nada a perder na terra.


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domingo, 7 de maio de 2017

DOIS MILHÕES DE ESTRANGEIROS CRIMINOSOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Tenho muitos amigos, E raros inimigos, Um deles, O Quinjongue I, agora é meu amasio de gabinete, E fico honrado quando deito-me com ele na cama, Em circunstâncias adequadas, Na companhia de um grande amigo, O Esputinique, Para um ménage à trois, Estão rindo do quê? Do meu equino esgar? Já fui um prostituto vulgar, Mas mudei muito, Agora sou o mais novo boçal com faixa presidencial, O que vocês estão pensando? Nunca antes na história deste país houve um líder que reunisse tantas qualidades, De Lulista, Malufista, Neo-Nazista, Neo-Fascista, Fidel-Castrista, Evo-Moralista, hugo-Chavista, Nicolas-Madurista, E tantos outros Renan-Canalhistas, Continuam rindo por quê? Não fico atrás de vocês, O Veríssimo, Luis Fernando, Disse, Que na corrupção, Eu e vocês empatamos, Vocês sabem onde posso jogar um bomba nuclear? Onde posso mandar vocês tomarem naquele lugar? Não tenho medo de ninguém, Por que teria algo a Temer? Com meu bordel à Cunha? Com os ventos republicanos e retrógrados soprando a meu favor, E os seus às más lufadas? O que me torra a paciência são estes chicos muralistas, Com esses chinos sentados em cima, Vocês sabem onde tem mais petróleo iraquiano para eu roubar? Onde tem mais afegãs para eu estuprar? Onde tem mais sírios para eu chacinar? e aí, neste quinto dos infernos, não sobrou nada para eu surrupiar? Do que estão rindo agora? Da minha boquinha boqueta, ou do meu bundoril? Vão todos vocês pra minha mãe que me pariu, Por que não posso falar palavrão? O Barracobama já chamou o esputinique de burrão, O Jorge Da Freguesia Do Uóchintom foi chamado de bundão, O idiota do Jota Dabliu buchi de meu irmão, E o tapado do Ronaldo Reigam batizou meu porta-avião, Mas a bomba atômica que vou jogar na cabeça do meu concubino vai ter meu nome: Pato Donaldo Funâmbulo Patibular Tromposo.

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sexta-feira, 5 de maio de 2017

O PAÍS DO MEIO. PARTE 1: WHEN IN ROME DO AS THE ROMANS DO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


De 1995 a 1998 fui várias vezes à China. Dizem que nos últimos 20 anos mudou muito esta nação que, acredito, será a maior potência mundial, talvez em mais 25 ou, no máximo, 50 anos. Até mesmo alguns filmes americanos de ficção científica, futuristas e sobre viagem no tempo, como Looper, ambientado nos EUA de 2044, e no Zhōngguó de 2074, profetizam, A China é o futuro. Se um dia eu lá voltar, definitivamente não mais a trabalho, não espero coadjuvar o mesmo seriado de hilariantes episódios de 22 anos atrás, que avançaram em 5  temporadas, e impeliram-me, prazerosamente, a reduzi-los a spoilers, palavra que está em voga, embora voga esteja fora de moda. Guangzhou, o Cantão dos portugueses, foi o palco de minha Avant Première. Tive um incômodo ao chegar, pequeno para esta grande terra de desprezíveis inconveniências. Minha mala ficou lá em Bangkok. A companhia aérea prometeu-me entrega-la no hotel em dois dias. Mais tarde, eu constataria que esta promessa em nada se parecia com os convites da boca para fora que costumamos receber por aqui: Passa um dia lá em casa. O hotel que reservei era bem perto do aeroporto. Dava para ir a pé, mas, como chovia torrencialmente, peguei um táxi, e me pegou o único vivaldino que encontraria em meio a mais de um bilhão de simplórios e meigos olhos oblíquos. Ele me cobrou 10 dólares para percorrer menos de 500 metros. Mau pressentimento: Bagagem extraviada e taxista explorador. Eu tinha compromissos no dia seguinte, e precisava trocar de roupa e comprar produtos de higiene. A recepcionista do hotel recomendou-me um shopping ali perto. Caminhei umas quatro quadras para chegar ao pequeno prédio de dois andares. Lá tinha tudo que necessitava. Só não sabia se a calça servia. Andei pelos corredores à procura de um provador, mas não achei. Pedi ajuda a uma jovem que parecia ser uma vendedora. Ali ninguém falava inglês ou português, e eu não falava nem mandarim nem cantonês. Aparentemente, ela entendeu minhas gesticulações. Anuiu com a cabeça, deu explicações em chinês, mas não apontou para nenhum lugar. Tive a estranha sensação de que ela deveria estar dizendo algo assim: você deve enfiar uma perna de cada vez, erguer a calça até a cintura e abotoá-la. Continuei perambulando, olhando em todas as direções. Voltei à seção de roupas masculinas, e lá no final do corredor avistei um chinês escolhendo uma calça. Este, com certeza, poderia me mostrar onde ficava a cabine privativa masculina. De repente, ele tirou as calças e ficou só de cueca e, tranquilamente, experimentou vários modelos, enquanto o vaivém de clientes e vendedores, homens e mulheres, ignorava sua presença. Comecei a me dar conta de que a explicação daquela vendedora não era tão estranha como pensei. Aquela cena me fez lembrar do provérbio americano: When in Rome do as the Romans do. Então, lá estava eu, num espaço público, de camisa, meia, sapato e samba-canção, taking my time, sem nenhuma pressa, para encontrar a calça que melhor se ajustava ao meu corpo. Eu só chamava a atenção por ser o único ocidental naquela loja de departamentos. Só olhavam para meu rosto. Todos já tinham visto muitos homens só com peças íntimas. Fiquei imaginando onde as mulheres provavam roupas de baixo e de cima, calcinhas, sutiãs, vestidos, saias e blusas. Descobri, só por meio de silogismo aristotélico, que o shopping não tinha provadores nem banheiros. Ficar só de cuecas foi a premissa menor. A maior foi outro chinês, ao meu lado, provando uma sunga num piscar de olhos. Usei a razão porque qualquer tipo de gestual indagando a localização de uma toalete poderia ser arriscado. Era muito cedo para me empolgar com a liberdade de expressão corporal, desnuda por incompleto, numa cultura que eu estava só começando a sondar. Difícil foi resistir à tentação de ficar fazendo hora na seção feminina, esperando, inescrupulosa e ingenuamente, testemunhar o que eu estava cansado de ver, em plena luz do dia, em alguns recônditos do Horto Florestal perto de casa e nos bancos do Hyde Park de Londres. A fadiga, por conta da longa viagem de 22 horas, me alertava que o dever estava a me chamar. Cheguei ao hotel, exausto, desabei na cama, dormi uma boa noite de sono, e acordei muito disposto para meu primeiro dia de trabalho no país do meio. Este é o significado de China em chinês.

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quinta-feira, 27 de abril de 2017

DESTE LADO DA VIDA

 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


O mundo inteiro passa por aqui todos os dias. De 5 a 6 vezes. A maioria não se lembra de nada. Muitos guardam alguns fragmentos de suas visitas e logo os esquecem. Outros se entusiasmam com o que retiveram em profundidade. Esforçam-se para recapitular suas experiências, mas estas acabam sendo relativizadas, e depois de um certo tempo eles desistem. Poucos são bem sucedidos, e conseguem dominar os caminhos que os trazem para cá. Eles são bem mais felizes que o resto do mundo, aliás, devo ressaltar, eles são os únicos seres humanos felizes. Eles vêm a este lugar com muita frequência, mas ainda podem ufanarem seus átomos em contentamento infinito se aprenderem a substituir, permanentemente, a vida ilusória que levam na superfície da terra, pelo esplendor indescritível e sem limites que podem vivenciar aqui. Eles podem se tornar deuses, e sempre que faço menção a este objeto de culto e desejo ardentes, que se antepõe a todos os demais, não resisto à tentação de florear um pouco sobre o sentimento de estar onde estou: Eles podem beber perfumes, na flor silvestre que embalsam os ares. Entre a maioria desventurada deste planeta, exceção feita a uma minoria que injustamente rouba do pobre para viver melhor, embora tenha nascido igualmente já condenada pela natureza, há aqueles vãos como sombras que passam, que consomem muitos anos aventurando ao incógnito suas fragilidades, entregando-se a utopias para iludir suas desgraças do cotidiano. Um exemplo, é um astrônomo alemão que diz estar prestes a descobrir como viajar na velocidade da luz. Na verdade ele quis dizer 99% da velocidade da luz, uma vez que ela é absoluta e ninguém conseguirá atingi-la em 100% com uma máquina. Ela percorre o espaço a quase 300 mil quilômetros por segundo. Este germânico anseia por uma futura odisseia à estrela Vega, situada a cerca de 25,3 anos-luz da terra. Não esqueçam vocês que ano-luz não é uma medida de tempo, mas de distância. Um ano-luz equivale a quase 10 trilhões de quilômetros. Este cientista calcula, com razão e exatidão, que levariam 3,6 anos-luz para chegar em Vega, deslocando-se a uma velocidade constante de 99% da luz. Vejam abaixo como se calcula o tempo de viagem a Vega:


antes de prosseguir, aqui vão algumas observações: a) Vega está a cerca de 25,3 anos-luz da terra, mas como se considera 99% da velocidade da luz, a distância aumenta para 25,6 anos-luz; b) As letras yrs são uma abreviação da palavra anos em inglês; c) O tempo real de viagem resultante desta equação é de 3,555, mas foi arredondado para 3,6 somente para facilitar o raciocínio. Se alguém chegasse a Vega, talvez descobrisse pouca coisa além do que já se conhece por meio de geringonças como o hubble. Por outro lado, o viajante poderia colher amostras do disco de poeira que circunda Vega. Isso ajudaria a comunidade científica a definir se este anel de poeira é um protótipo de planeta em formação ou apenas destroços de um possível planeta-anão que se chocou com a estrela. Uma vez terminada a missão Vega, o astronauta teria que viajar mais 3,6 anos-luz para retornar ao nosso planeta. De acordo com a comprovada Lei da Relatividade de Einstein, o tempo anda muito mais devagar para quem está em movimento constante na velocidade da luz em relação a uma pessoa estática no solo. O cosmonauta passaria 7,2 anos viajando pelo espaço, mas, para quem está na terra, o tempo decorrido seria exatamente aquele calculado para uma viagem de ida e volta a Vega: 50,6 anos. Quando chegasse à terra, o astronauta teria envelhecido apenas 4 anos, mas nosso planeta teria avançado 50 anos no futuro. Os colegas de profissão do astronauta já teriam, possivelmente, morrido, e seria possível, também, que seus substitutos o surpreendessem com novas informações sobre Vega obtidas com super telescópios de última geração, muito superiores ao hubble, desenvolvidos nos últimos 50 anos, e que perderiam pouco para as observações de Vega feitas in loco. Conclui-se, portanto, que o cosmonauta gastaria mais de sete anos de sua vida trancado dentro de uma nave, sem ter o que fazer, a não  ser esperar, esperar e esperar, tendo como compensações apenas o fato de ter envelhecido somente 4 anos nos últimos 50, e poder desfrutar de um estilo de vida e de vantagens tecnológicas muito mais avançadas e emocionantes em seu lar antes dele ter partido para Vega. O retorno poderia ser considerado uma viagem no tempo, uma viagem à terra a 50 anos no futuro. No entanto, o conceito de viagem no tempo não seria muito adequado neste caso, porque não se trataria de uma viagem da terra para a terra, mas de uma viagem à terra a partir de outro sistema solar. Este cientista alemão poderia considerar uma viagem espacial muita mais útil para a ciência e justificar o altíssimo custo de uma odisseia interestelar. Por exemplo: visitar a estrela anã vermelha Gliese 1132, localizada a 39 nos-luz da terra, em torno da qual orbita um planeta rochoso, de tamanho similar ao nosso, descoberto por via indireta e batizado com o nome GJ 1132b. O cientista passaria pelo mesmo tédio capaz de levar à loucura: ficar  mais de 10 anos enclausurado numa espaçonave, sem nada para fazer, a não ser esperar, esperar e esperar, a menos que conseguissem coloca-lo em hibernação artificial comum até o seu destino final. Ao chegar em GJ 1132b, ele poderia se deparar com um planeta semelhante a Marte, sem vida, com muitas montanhas, rochas e com o que poderia ser antigos leitos de rios e bacias de oceanos. O cientista colheria rochas deste planeta e as traria de volta à terra. Daria melhores contribuições à ciência: novas evidências sobre como os planetas são formados e porque a vida não vinga em muitos deles, e a constatação de que qualquer tipo de estrela pode ter planetas à sua volta: anãs e gigantes vermelhas, anãs brancas (como será nosso sol daqui a 5 bilhões de anos), estrelas de nêutrons, sistemas estelares binários e até quaternários. Como no caso de uma viagem a Vega, o cientista envelheceria pouco e a terra muito, e ele seguiria vivendo num mundo muito diferente e, com certeza,  bem melhor que o mundo que ele conheceu, com gente, atributos e tecnologias humanas que ele jamais imaginou. Um outro cientista, este americano, disse que está prestes a descobrir como viajar no tempo. Ele propõe um avanço de 500 anos no futuro da terra. Para realizar esta empreitada, ele terá que viajar na velocidade próxima da luz durante 7 anos. Todo este tempo preso numa nave espacial valerá a pena. Imagem o mundo que ele encontrará! Simplesmente fantástico! Tudo mudado! Ele verá coisas que nenhum sonho poderá lhe dar. Ele se sentirá como um dinossauro comparado aos novos seres humanos. Ele pode querer ficar, ao custo de um enorme esforço de adaptação. Mas eis o paradoxo: se ele voltar, ele terá envelhecido 7 anos e a terra 500 anos! Ele encontrará o mesmo mundo do futuro que ele levou 3,5 anos para conhecer. Portanto, a opção de ficar ou de voltar é a mesma: ele estará confinado ao nosso planeta 500 anos depois de ter empreendido esta viagem. Uma viagem ao futuro não tem volta. Ele só poderia reverter esta situação se sua máquina viajasse para o passado também, mas isso parece improvável, por enquanto, porque, segundo a chamada teoria da Flecha do Tempo, este se movimenta sempre para frente, do passado para o futuro, não havendo possibilidade de regresso. A Lei da Relatividade de Einstein nos possibilita manter a questão em aberto, tanto para viagem ao futuro, quanto ao passado. Volto ao cientista americano. Não importa o que ele decida fazer, ficar no futuro de 500 anos à frente ou voltar para este mesmo futuro na viagem de retorno à terra. A experiência e as consequências serão inacreditáveis, pura magia. Existe algo mais fantástico que isso? Sim, existe! algo extraordinário, muito além da imaginação de deus, que torna a utopia realizável, algo corriqueiro. Vocês não precisam de nenhuma máquina. Não precisam passar pelas agruras de anos enclausurados dentro de qualquer aparato, sem ter o que fazer. Basta entrar em estado de Hibernação Consciente, a HC, diferente da Hibernação Artificial, a HA, que bloqueia e congela tudo, as funções vitais e a consciência, de tal forma que cessam os pensamentos e não é possível nem mesmo sonhar. No caso da HC, o corpo é congelado e anestesiado, mas a consciência permanece em funcionamento. Vocês continuam pensando o tempo todo. E como vocês devem saber, os pensamentos e tudo que eles vislumbram tornam-se muito mais aguçados quando a consciência se desvencilha do corpo, projetando-se para fora do cérebro. A clareza dos pensamentos pode ser comparada à diferença entre uma antiga TV de tubo em preto e branco e uma TV HD de LED. E o que acontece enquanto vocês estão em HC? Primeiro vou dar uma explicação do ponto de vista temporal. Estar em HC não vai torná-los imortais. Todos nós morreremos um dia, por enquanto. O que o HC proporciona é uma vida até 10 vezes mais longa que a normal. Em HC, o tempo também anda mais devagar, como na Teoria da Relatividade de Einstein, mas pode lhes parecer paradoxal: o corpo físico em HC vive muito menos que os pensamentos separados da massa encefálica, e para quem não sabe, o pensamento viaja a um velocidade infinitamente superior à velocidade da luz. Eis alguns exemplos bem simples. No nível mais baixo, o Nível 1, vocês permanecem em HC por apenas 14 minutos, mas seus pensamentos criam uma vida real em outra dimensão durante 1 semana. No Nível 2, vocês hibernam durante 15 dias, e vivem em pensamento por seis meses. O nível 3 é bem mais audacioso: vocês são colocados em HC durante quase um ano, 304 dias para ser mais preciso, e suas mentes criam vidas reais paralelas que duram 10 anos. O nível 4 não pode ser aplicado a humanos, por enquanto. Vocês teriam que ficar inertes durante 167 anos para viverem em pensamento por mais de 2 mil anos. Então vocês devem procurar um nível intermediário entre o 3 e o 4. Supondo que aquele cientista alemão do projeto Vega seja novo, com uns 20 anos no máximo, e imaginando que ele pudesse viver até os 90 anos, uma idade bem factível no  estado de hibernação, ele poderia permanecer em HC durante 70 anos e gozar de um vida em pensamento, tão real quanto à que vivemos no estado físico, por 844 anos! E o que ocorre do ponto de vista existencial? Vocês tornam verdadeira uma frase encontrada na mitologia cristã: VÓS SOIS DEUSES. Vocês criam seus próprios mundos, suas estrelas, planetas, flora e fauna, rios, lagos, montanhas, mares e praias paradisíacas, cidades, edificações, logradouros públicos e qualquer coisa que lhes venham à mente. Imaginem tudo que existe de belo em nosso planeta e multiplique isso por quatrilhões de vezes. Vocês podem povoar suas cidades com pessoas conhecidas e desconhecidas, vivas ou mortas, parentes, amigos e inimigos. É claro que eles são apenas projeções de vossas mentes, mas em vossos mundos todos eles têm corpos físicos, conversam com vocês, interagem da maneira que vocês desejarem. Vocês os comandam, comandam tudo, assim como podem também conceder livre arbítrio para todos eles, dar a eles veículos, habitações, roupas, empregos, coisas mundanas e inimagináveis. Ninguém pode machucar vocês, a menos que vocês queiram. Tudo é criado apenas com vossos pensamentos, mas vocês têm corpos, podem se tocar, sentir fome e sede Se vocês estão com vontade de comer massa, num instante vocês criam um restaurante italiano que serve um vinho do tempo dos Beneditinos. Podem criar supermercados com todos alimentos que existem na terra e em outros planetas habitados. Nada pode atingir vocês. Nunca terão doenças, nunca precisarão trabalhar ou ter dinheiro. Para que se tudo que vos apraz pode ser criado só com a mente? Vocês podem se acidentar e sentirem dor somente se vocês se descuidarem de propósito só para relembrarem o que é o sofrimento esquecido na terra. Exemplo: vocês pisam em falso, ou tropeçam, escorregam, caem e quebram as pernas. Num instante vocês criam um hospital de primeiro mundo que troca suas pernas em frações de segundos. Aliás, vocês nem precisam de hospitais. Podem trocar as pernas quebradas por novas apenas com o pensamento. Ninguém consegue agredir ou matar vocês, a menos que vocês queiram e induzam pessoas a vos violentar. Se vocês morrem deste lado da vida, seus corpos físicos em HC despertam, como acordar de uma sonho. Para voltar para cá basta entrar em HC novamente. Se seus corpos físicos em HC morrem, algo muito difícil, seus pensamentos cessam, suas vidas aqui acabam. Em outras palavras, vocês morrem como todo nós morremos, por enquanto. Se qualquer coisa que vocês criaram tornarem-se monótonas, vocês podem modificá-las como e quando quiserem. Podem transformar um mar em deserto, um jardim numa floresta, rios em chuvas torrenciais, altos prédios em choupanas, pessoas em animas e vice-versa. Quando digo que vocês podem fazer de Deus uma simples marionete, não estou querendo ofender vossas crenças religiosas. Vocês podem romper todas as leis da física e do universo como as conhecemos. Podem eliminar a gravidade e por tudo a flutuar. Com ou sem gravidade, vocês podem voar como pássaros, podem fazer o teto do céu noturno descer a 1 km da superfície de modo que as estrelas iluminem os poros de suas peles sem cegá-los, podem fazer chover de baixo para cima, fazer animais falarem como humanos, dobrar ruas e avenidas no sentido vertical e mais um vez no sentido horizontal para caminhar de ponta cabeça, podem iluminar os recintos de todas as habitações com arco-íris e auroras boreais. Se a salinidade dos mares não vos agrada, vocês podem fazer o sal desparecer, a densidade da água continua a mesma, vocês não afundam, e mesmo que afundassem, podem nadar por horas e dias debaixo da água como peixes, sem equipamentos de mergulho e tubos de oxigênio. Não existem limites para nada, e estou falando aqui somente das possibilidades que vocês possam conceber, mesmo que lhes parecem utópicas. Há outros milagres aqui que nem posso vos descrever, porque estão astronomicamente além de vossa compreensão. Há pessoas que descobriram este lado da vida e aqui criam seus mundos e vivem até cerca de 900 anos. Mesmo jovens casais, com filhos pequenos, estão vindo para cá. Isso mesmo, vocês não precisam vir sozinhos. Podem trazer suas famílias colocadas no estado HC. Pensem bem: todos nós vamos morrer. Chegar aos 90 anos ou mais na terra é um privilégio de poucos. Em estado HC, chegar aos 100 anos de idade é algo quase 100% certo. Vocês só morrem em estado HC se tiverem nascido com alguma doença congênita. Enquanto vocês estão no estado HC vocês não adoecem nunca. Se vamos morrer de um jeito ou de outro, por que dar duro no trabalho para sustentar uma família, se estafar, ser escravo do dinheiro, pagar contas, ser roubado por criminosos e governos, sofrer com as mazelas de nosso mundo, ver dois terços da população mundial vivendo na miséria, enfim, levar uma vida árdua e estressante que pode vos levar a uma morte prematura, um AVC ou enfarto, um câncer de mama ou de próstata. Deste lado da vida vocês são os senhorios e as pessoas que vocês criam não são, necessariamente, vossos escravos, mas ao contrário, complementações de vossa felicidade. E antes que eu esqueça, vocês podem fazer amor com homens e mulheres criados por vocês e ter orgasmos. Vocês podem engravidar e ter bebês, e se vocês não quiserem as crianças vocês podem simplesmente eliminá-las. Não se preocupem, vocês não estão matando seres humanos, mas apenas apagando projeções de vossas mentes. E então, o que vos parece? O que é melhor: viver no máximo uns 100 anos no sofrimento e na dor ou quase mil anos num paraíso? Tudo o que estou lhes dizendo já vem acontecendo a um bom tempo. A vida do lado de cá evoluiu muito. O estado HC foi aprimorado e passou a ser chamado VCC (Vida Congelada Consciente). Certamente todos vocês sabem que há muitas pessoas que pedem para congelar seus corpos quando elas morrerem, na esperança de serem ressuscitadas quando no futuro forem descobertas curas para as doenças que as levaram à morte, soluções para tudo o que levem os seres humanos à imortalidade. Elas fazem isso não para conhecer o futuro, mas apenas para tornarem-se imortais. A VCC já faz isso, mas com pessoas vivas. Elas podem permanecer em estado VCC por milhares de anos e, consequentemente, viver em pensamento por bilhões de anos. Ainda não foi possível conquistar a imortalidade do corpo físico, mas já se alcançou a imortalidade do pensamento. Vocês dirão que isto é contraditório, porque uma vez que a VCC não garante a imortalidade do corpo, então não se pode alcançar a imortalidade dos pensamentos, porque eles só podem emanar de corpos vivos, de consciências desprendidas de cérebros vivos. Além disso, vocês diriam, é impossível manter seres vivos eternamente no estado VCC, porque seria o mesmo que vencer a morte. Mas este é um segredo revelado somente àqueles que conseguem chegar a este lado da vida. nós já derrotamos a morte! Estão completamente enganados aqueles que possam pensar que escrevi este texto inspirada no filme ORIGEM. Fui eu quem produziu este filme, inspirada na vida que levo aqui, e o meu filme limita-se a reproduzir nossas imaginações antes de eu conhecer este lado da vida. Agora, enquanto espero por vocês, tamanha é minha alegria por anunciar essas boas novas que não resisto à tentação de recorrer, mais uma vez, aos nossos antigos floreios: calo a paz como um sigilo pelo que sinto aqui, De suprema felicidade, ele é o silêncio e a prece que a alma pede durante meus eternos dias, enquanto aí onde vocês se encontram, numa vida ainda sofrível, à noite, lírio branco, os astros guardam segredos, dos beijos dados pelos namorados a medo e efêmero contentamento..

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