domingo, 22 de janeiro de 2017

O HOMEM COM UM TRONCO DE ESCUDO DE ÁGUIA

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


Dizem que ele foi muito mais que corajoso, Que não tinha medo de ter medo, E que a morte morria de medo dele, Muito jovem teve que trabalhar, Sem poder estudar, Bem trabalhou para fazer de seu pai um bom amante, Sempre saiu-se um gato pardo da noite, Muito jovem ganhou um reumatismo, Sua mãe simplória e ingênua, Aviou a receita de uma vizinha, Cobriu-o com um saco de juta da cabeça até abaixo dos joelhos, E por baixo meteu-lhe uma colmeia de abelhas, Elas sentiram a potência de um homem contra mil ferroadas, E morreram, E ele ganhou mais força física, Para lutar, Para nadar, Num rio que corta sua cidade, Nos tempos que a água era transparente, Própria para banho e pescaria, As famílias se reuniam aos domingos nos gramados das duas margens, Para fazer piquenique e assistir a competições de remo, E o Águia subia na ponte mais alta, Tirava a roupa para seu irmão caçula segurar, E só de cueca, De pé em cima do muro de proteção, Dava um salto mortal de cabeça para delírio da plateia, E para criar um suspense de tirar o folego, À la Houdini, Segurava a respiração debaixo d'água por 3 minutos, E quando o povo gritava em desespero para os salva-vidas mergulharem, Ele reaparecia em cima da mesma ponte para alívio e êxtase dos espectadores, Esta foi apenas uma das inúmeras proezas do Águia, Ele casou, Formou uma grande família e deu a ela tudo o que ele não teve de seu pai: uma bela casa com piscina num bairro nobre, apartamento na praia e estudo completo para todos os filhos, uma vida sem dificuldades, Mas jamais perdeu seu espírito aventureiro, Seu destemor, Seu amor pela bebida que nunca o deixava embriagado, Sua solidariedade para aqueles que lhe eram caros, Certa vez, Na praia, Quando filhos e sobrinhos eram adolescentes, Um deles sofreu um corte profundo no braço ao deixar cair um litro de leite que vinha em garrafas de vidro, O Águia colocou o sobrinho no carro e saiu na velocidade Stock Car, Quando chegou a um pequeno braço de mar, Separado por uma única ponte, Pênsil, Na qual só passava uma carro de cada vez, A fila era enorme, O Águia não teve dúvidas, Entrou na contra mão, E fez todos os carros no sentido contrário pararem, Assustados, A polícia logo o abordou, E ele, Aos gritos, Disse que tinha uma garoto morrendo no carro, E mandou o policial fazer todos os veículos darem marcha a ré, E o guarda obedeceu na hora, Um outro sobrinho nos seus trinta, Perdido na vida, Na bebida, Desempregado, Perambulava pelas ruas, Sem destino, E fazia 3 dias que não voltava para casa, O Águia, com sua agudez rapina, Descobriu que um sujeito, Sem documentos, Morreu atropelado nas redondezas de seu sobrinho sumido fazia dias, Resoluto, O Águia improvisou um jaleco de médico, Foi ao necrotério mais próximo, Por volta da meia-noite, Disse ao segurança que viera buscar um indigente que era seu parente, Teve que abrir várias gavetas até encontrá-lo, Vestiu-o com roupas de outros indigentes, Colocou-o sentado no banco do passageiro, E levou-o para para casa para ser velado, O Águia teve que ver sobrinhos morrerem antes dos 40, E é por essas e outras que ele bebia, Uma dúzia de cerveja por dia, Fora os aperitivos (pinga pura) no almoço e no jantar, Ele tinha um contrato com uma cervejaria que entregava 400 garrafas de birra em sua casa todos os meses, E o danado nunca ficava bêbado, E quando ele sentia um pouco de ebriedade, Ele logo resolvia o problema chupando um picolé, De qualquer sabor, Seu café da manhã era bife acebolado com bebida fermentada, feita da cevada, do lúpulo e de outros cereais, Ficou doente só uma vez, Pegou uma úlcera das bravas, que lhe rendeu 6 meses de tratamento, Ele tomava os compridos com um copo da famosa geladinha, Ele tentou a carreira de futebolista, Foi reserva do goleiro do melhor time do país, Mas nunca teve chance, Então teve que se contentar com a várzea, O futebol era uma de suas paixões, Assistia a todos os jogos do seu time no estádio, Numa partida contra seu arqui-inimigo, Logo que ele estacionou o carro, Um daqueles negrões de quase dois metros de altura aproximou-se dele e perguntou: E aí vovô, não vai deixar 20 paus para tomar conta do carango? O Águia nem olhou para o sujeito, E se pôs em direção à entrada do campo, O flanelão perguntou alto:  Vovô, você não vai querer ver seu Chevrolet todo riscado quando acabar o jogo, vai? O Águia parou, Voltou-se para o negrão e pediu para ele repetir o que disse, Antes do negrão terminar a frase, Levou potente soco no queixo, Caiu, E dormiu, A polícia chegou, Chamou uma ambulância, Levou o negralão para um hospital, Perguntou se o Águia estava bem e se precisava de ajuda, Afinal ele tinha mais de sessenta anos, Mas o Águia dispensou qualquer socorro, Entrou com o cacho de bananas para distribuir para a torcida adversária a cada gol de seu time, Enquanto pensava: Caramba, Fazia tempo que eu não encaixava um gancho tão bem. E o negrão? Morreu ou sobreviveu? Ninguém sabe, Todos os filhos do Águia casaram, Lhe deram vários netos, Sua casa ficou vazia, Ele já caminhava para os 70, Resolveu, Então comprar uma casa no litoral, E fazer o que ele mais adorava: Nadar e pescar, Ele passava mais dias no mar do que na cidade, Construiu um cavalete de dois metros de altura, Com 4 rodas e uma plataforma para sentar e pescar, Ele empurrava aquele baita trambolho, Que mais parecia um ariete, Mar adentro, Até não dar pé, Levava uma garrafa de pinga, Jogava sua linhada bem longe, Lá permanecia horas, Pegava muito peixes até a garrafa esvaziar, A maré ficava alta, Encobria a plataforma,  E para levar o cavalete de volta à terra, Ele fechava o saco cheio de peixes e o amarrava na madeira, Tomava folego, Mergulhava até o fundo, Segurava firme na base, Batia os pés, E fazia as rodas girarem contra a maré, A cada dois minutos, Ele subia à superfície, Puxava o ar, E mergulhava novamente, E em poucos minutos já se via ele andando pela areia, Puxando o cavalete atrás de si com uma corda, Chegava em casa, Ele mesmo fazia uma bela macarronada, Recebida com um bom rabo de galo e regada a cervejas quase congelando, Depois ele pegava um berçário, Num fim de tarde, Cansado e bem calibrado pelo aguardente, Com a água quase meio metro acima do assento do cavalete, Ele viu quase um 1 km adiante, Duas jovens sendo levadas para alto mar pela correnteza, Elas estavam morrendo, Então, Ele não hesitou, Mergulhou e nadou até elas, Uma estava inconsciente, Espumando água com sangue, pela boca, Olhos e ouvidos, A outra era uma amiga tentando salvá-la, A correnteza era fortíssima, E Puxava demais, O Águia disse à jovem consciente para largar a desfalecida senão os três iriam morrer, Mas a moça, Com menos de 20 anos, gritou: Se minha amiga vai morrer eu morro junto com ela! Isso mexeu com os brios do Águia, Ele juntou forças sabe lá de onde, Pegou a moça desacordada, Ergueu-a e a colocou sobre suas costas, E pediu para a amiga segurar seus pés e não largá-los, E só com braçadas, O Águia, Sentindo o calor de vômito em seu pescoço, Chegou à praia, Onde muitas pessoas se juntaram para torcer pelo salvamento, E logo chamaram uma ambulância, Queriam levar o Águia também, Que estava quase desmaiando de cansaço, Mas ele preferiu voltar ao mar para salvar seu cavalete que já tinha submergido, No dia seguinte, O Águia foi ao hospital para onde as duas moças haviam sido levadas, Perguntou sobre elas, Sem saber seus nomes, apenas fazendo referência  sobre um velho que esteve com elas no mar, A enfermeira logo se seu conta de quem se tratava, E disse a ele que aquela que parecia estar morta, Milagrosamente sobreviveu, A enfermeira perguntou ao Águia se ele viu o resgate, Ele respondeu que apenas ouvira falar do incidente, Virou as costas, Saiu, E foi preparar o cavalete para mais uma pesca, Na vila onde o Águia tinha sua casa de praia, Havia uns vagabundos roubando toda a vizinhança, Especialmente as casas que estavam vazias e fechadas, fora da temporada, Numa manhã ensolarada, Voltando com carne, Macarrão, Molho e iscas, Ele e seu fiel pastor alemão, Que tinha nome de pistoleiro do faroeste, Notou que tinha gente na casa, Ele pegou o ladrão saindo com as mãos cheias, O Águia desarmou o criminoso, Deu-lhe uma surra pior que um nocaute do Mike Tyson no auge de sua carreira, Colocou-o no carro, Entregou-o à polícia, E fez um B.O. na delegacia, Mas, Menos de 3 meses depois, Lá estava o mesmo pilantra de novo, Andando tranquilamente pelas ruas, Escolhendo residência para depenar, O Águia o viu e resolveu facilitar, Saiu de casa com seu pastor e seu três oitão na cintura, E deixou as portas abertas, Quando ele voltou, Não deu outra: O mesmo mesmo ladrão estava empilhando o fruto do roubo, Mas, Desta vez não foi uma surra que ele levou, Foram seis balaços no peito, Nas costas e na cabeça, No B.O. do Águia ele estava mortinho da Silva, O Águia esperou a noite cair, Embrulhou o defunto num lençol, Jogou-o por cima do ombro, E o levou até alto mar, Nadando, E largou-o no ponto onde a correnteza fez o resto, Dois dias depois, Deitado na poltrona depois de uma bem sucedida pescaria e um delicioso porre, O Águia abria um jornal, E começou a morrer de rir quando leu a manchete: Cadáver perfurado de balas e envolto em lençol é encontrado na praia do outro lado da baía, Ocorre, Porém, Que o sujeito que o Águia deu de presente a Deus não vivia sozinho, Seus comparsas conheciam o lugar onde o companheiro do crime havia sido despachado, E armaram para o Águia, Quando ele voltava de seus costumeiros passeios matinais, Seu pastor fez sinal de que havia estranhos na casa, O Águia pediu silêncio ao cão, Entrou pelos fundos, E quando abriu a porta da cozinha, O alemão saiu na frente, Lá dentro 4 criminosos armados descarregaram suas armas no Águia, Com a pontaria completamente prejudicada pelo cachorro que mordia para valer todos que via na frente, Um único tiro acertou o Águia e o derrubou, Os malandros, Apavorados com o cão, Fugiram pelo quintal dos fundos, Um deles demorou para pular o muro, E deixou na boca do pastor pistoleiro, Um pedaço de seu jeans e de carne de sua bunda, E este cão levou um tiro por baixo do queixo que varou o focinho, Mas ele permaneceu ao lado de seu dono esperando por socorro, E aí daquele que se aproximasse do Águia, Tiveram que anestesiar o bicho para poder levar os dois a um hospital, O tiro que acertou o Águia, Esmigalhou seu queixo, A bala ainda desceu pelo pescoço e parou no ombro, O Águia ganhou um queixo de metal, Novinho em folha, E logo estava de volta ao seu lazer, Mas a família queria tirá-lo daquela praia e não deixá-lo mais sair de casa, Mas aquele era um homem com um tronco de escudo de Águia, Lembram-se daquele sobrinho que cortou o braço com cacos de vidro? Ele já era adulto e foi procurado pelo Águia que lhe disse: Descobri a favela onde moram dois daqueles vagabundos que tentaram me matar, Você me leva de carro até lá, Me espera na na rua, Entro lá dentro, Queimo os dois, E saímos rapidinho. O sobrinho ficou apavorado. Contou os planos do Águia à sua família, E ela resolveu aposentar o Águia de vez e à força. Muitos dizem que o Águia foi um criminoso, Outros que ele só fez justiça com as próprias mãos, E outros ainda que ele prestou um bom serviço à sociedade. Estas são apenas algumas das muitas proezas do Águia, Muitas pessoas conhecem a maior parte destas histórias contadas, Porém raríssimas conhecem algumas delas. Quem poderia dizer mais coisas sobre o Águia? O Tilly tem a algo a dizer: Este foi o homem que me assustou com uma máscara horrenda, Que me fez provar do sal do mar pela primeira vez, Certa vez, Numa festa, Este homem me chamou de lado e me disse que havia matado mais um vagabundo roubando sua casa na praia, Meu pai disse que esse homem jogou praga nele, Que ele gastaria em remédios tudo que ganhasse na vida, só porque não quis assinar uma duplicata em branco, Mas quando meu pai estava à beira morte numa UTI, O Águia quis visitá-lo, Esta foi a única vez que o vi derramar lágrimas. E quem mais quer falar alguma coisa sobre o Águia? Ah, O Onedin jamais deixaria este assunto terminar sem seus pitacos: Então está havendo carnificinas nas prisões, Centenas de presos executando outras centenas, Centenas de presos fugindo e sendo capturados pela polícia, Quase todos mortos, E agora querem construir muralhas nas prisões para separar as facções criminosas, Mas por que, Ao invés disso, Eles não fazem como o Águia: Mandem todos eles de presente a Deus? Ou será que Deus é igual a um presidente americano que precisa declarar à receita federal todos os presentes que recebe de autoridades estrangeiras? E será que deus é menos sonegador que nossos governantes? Por que Ele não nos envia alguns milhões de Águias, Para fazer uma limpeza nas prisões, Nos tribunais, Nas câmaras, Nos Senados, Nos palácios presidenciais, E deixar as ruas somente para o povo?


Percorremos um longo caminho juntos, Nos bons e maus tempos, E só tenho que te comemorar e te elogiar como se deve.


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