terça-feira, 30 de maio de 2017

SEM SABER PORQUE

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

As cartas da juventude se perderam, Mas ainda frui o prazer de nos vermos, Ao longe, A encenarmos ao som de lira, Ponteando as estanças de poesia mélica e elegíaca, Às vezes sofremos com o olhar, Às vezes sofremos com o sofrer, Gostar sempre gostamos, Mas nunca sabemos porque, Tampouco há Senhor, Que ensina seus servos, Que padecem o tormento de mal saber, Como bolos de véspera, e pães amanhecidos, Às vezes não sabemos se nossas feridas podem curar outras, Qual salsas águas do mar a cicatrizar pedra-lipes,  devem ser belos os cristais das vozes que nunca ouvimos, Pensativas as mentes quando estão a sós, Contemplativas quando, diante do nada, sentem-se esquecidas, sem lágrimas nos olhos, que se escondem como atrizes por trás das cortinas, os contornos devem ser odes profundamente imagéticas, Podem ser afins as almas, clonagens hibridizadas que chegaram ao fim, gostar sem saber porque deve ser assim, Somos temporãos e tardios, somos tempolábeis, gigantes vermelhas que se encolhem em anãs brancas, o choro contido sorrindo um sorriso triste, ninfas que prescindem os casulos e crisalidam uma borboleta, Ódio escudeiro contra os vilões do amor.

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sábado, 20 de maio de 2017

GOOD WINE ALL PARTY LONG


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Meat Is Murder was my first close encounter with the boys from Manchester and this MIM got me on my knees. I had to know more about this next big thing. Not too long The Smiths fell into my hands and whispered in my ears they were sort of skipping stages, like jumping from a Please Please Me to A Hard Day's Night and then to a Rubber Soul and then god only knows to what next. Too soon a rumor of an even better than the real thing spread in my neighborhood on the grounds that it was an imported, hard to find and priceless Hatful of Hollow. And I paid the price which turned out to be an anticipated and expensive invitation to a big party celebrating the long awaited death of the blue blood queen of Camelot. The party's treats and traits included only caviar and vintage wine and lasted for a whole week, like in those wedding parties in the old days of Cana in Palestine of the first century of the Common Era. An inside out dressed guest at this Dead Queen party approached whom he thought to be the bridegroom and said to him: Every man at the beginning sets out the good wine, and when the guests have well drunk, then the inferior. You have kept the good wine until now. I think that guest was that Amazon bloke who wrote a review of this album stating that The Smiths are essentially a singles band. He was drunk but I think he was right; after all, every Smiths album is great and made of hit singles only. If you like good wine like that one served at Cana 2,000 years ago, I recommend you to start with The Smiths, Meat is Murder, Hatful of Hollow, Louder Than Bombs and Strangeways, Here We Come. Save this Dead Queen brand for a very special date, like your own funeral, for instances! Long live Morrissey and Marrs!

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terça-feira, 16 de maio de 2017

SÓCRATES NA TERRA DO BEIJA-FLOR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


O Brasil masculino estava de ressaca. Eu e uma menor parcela da população feminina também. A seleção brasileira, patrocinada pela marca Topper da São Paulo Alpargatas S/A, acabara de ser deportada da Espanha por Paolo Rossi, Il Bambino d'Oro. Tele Santana, sempre sorridente e solícito, mesmo diante de uma decepção que parecia ser de proporção mundial, circulava pelas dependências do departamento de exportação da empresa, com a aura e a triunfal guirlanda de idealizador do futebol-arte, e autografava todos os pedidos. Em 1982, nenhum brasileiro imaginaria, nem nos mais aflitivos pesadelos, que o verdadeiro holocausto de nosso hegemônico esporte bretão viria 32 anos depois, em nossas plenas terras de palmeiras e floresta tropical, onde cantam uirapurus e sabiás. As águias alemãs que aqui gorjeariam, entoariam nossos cantos canarinhos, bem mais melodiosos do que as aves toscanas naquele fatídico dia no Sarriá. Foi a última vez que padeci com nosso esporte mais popular, e, na esteira de minha purgação, pus fim a um sofrimento que encontrou indescritível consolo com a quebra de um jejum de muitos e angustiantes meses de desemprego: eu estava de volta ao trabalho, e este seria o meu derradeiro na condição de empregado, de carteira assinada. Não me deram muito tempo para me familiarizar com os produtos que eu deveria exportar, o que estava em perfeita consonância com a sucessão de meses que levaram para me contratar, desde o dia que respondi a um anúncio no velho Estadão. Em menos de quatro semanas, fui despachado para nossos vizinhos do norte da America do Sul, da América Central e do Caribe, onde visitei lugares que deram arriscados e deleitosos contornos à minha primeira viagem àquelas bandas: as perigosas Bogotá e Cidade do Panamá, a medonha Zona Livre de Cólon, a sossegada Isla Margarita da Venezuela, a cordial e simpaticíssima Santo Domingo da República Dominicana, as paradisíacas Aruba, Curaçao e Barbados e, finalmente, o interessante e inesquecível Porto de Espanha, capital de Trinidad e Tobago. Este país que tinha, na época, menos de 1 milhão de habitantes, foi uma colônia britânica até 1962, e o inglês crioulo lá falado era e é, até hoje, bastante desafiador, mesmo para um nativo da Inglaterra. O drama pode ser sentido só com este exemplo: crowd (cráud), multidão, soa como crow (crou), corvo. O representante comercial, um indiano, teve a cortesia de enviar seu motorista particular para me apanhar no aeroporto, e me levar ao luxuoso hotel Hilton, de cinco estrelas, quatro a mais que o meu salário. Ao entrar para fazer o check-in, setor da recepção para registrar-se e receber a chave do quarto, segundo o Sr. Aurélio, deparei-me com um mundaréu de homens falando alto, com a boca e as mãos, como os italianos. Ao aproximar-me, me dei conta que eles algazarravam em português brasileiro! Reconheci alguns rostos e identifiquei-me ao mais próximo, Adilson Monteiro Alves, sociólogo e um dos fundadores da Democracia Corintiana. Ao saber que eu trabalhava para o patrocinador do clube, foi logo me apresentando ao presidente, Waldemar Pires, ao técnico, Mario Travaglini, e convidando-me a juntar-me à comitiva do time e assistir ao amistoso contra a seleção de Trinidad e Tobago no dia seguinte, uma sexta-feira, dia 3 de Setembro de 1982. Meu primeiro encontro com o agente de vendas, completamente esquecido pela Alpargatas, foi decepcionante, para ele, porque esperava que eu trouxesse a linha de calçados. Porém, eu era encarregado de vender somente produtos do setor chamado Resto, colchas de chenile e encerados - leiam meu texto SOMOS TODOS BOLIVIANOS. Nervoso e meio esnobe, ele designou seu assistente para me acompanhar nas visitas a clientes, e recusou meu convite para assistir ao jogo do Corinthians à noite. Mal sabia ele, e jamais explicaria Deus, que, em pouco tempo, atingiríamos a misteriosa receita de meio milhão de dólares anuais só com as antigas colchas Madrigal, num mercado menor que o bairro de Santo Amaro em São Paulo. Voltei ao hotel antes do pôr do sol. O calor era escaldante, como no verão carioca. Tirei o terno e a gravata, isso mesmo, você entendeu direito, esta indumentária me era imposta até nos desertos do Oriente Médio. De chinelo, camiseta e bermuda, fui para a área de lazer. Lá toda a delegação do Corinthians se concentrava. A maioria dos jogadores se divertia na piscina. Casagrande, com apenas 19 anos, era o brincalhão da turma. Adorava jogar os companheiros na água. Sócrates não se misturava. Ficava na companhia dos dirigentes e da comissão técnica. Tirei um cigarro do maço de Hollywood e acheguei-me dele, recostado numa espreguiçadeira, segurando um livro, provavelmente de filosofia sobre seu xará. Mal puxei conversa e ele me pediu um cancerígeno. Perguntei: Você voltou a fumar? – para se preparar para a copa do mundo na Espanha, Sócrates absteve-se do tabaco por seis meses. Constatei, então, uma de suas marcas registradas, sua fama de arrogante. E o que você tem a ver com isso? Entornei o caldo de nosso quase monólogo ao pedir a ele para me falar sobre aquela partida contra a Itália. Não quero falar mais sobre isso. Ele me pediu para acender o cigarro e continuou lendo. Mais tarde, naquela noite, eu teria um verdadeiro diálogo com ele, mais amistoso, digamos, mas, para ser sincero mesmo, em circunstância anômala, na qual se inseria mais um de seus logotipos fora da cancha. Chegara a hora de ir para o estádio. Todos foram para seus quartos e desceram de calça e blusão de moletom da Topper. Três micro-ônibus nos aguardavam na saída do hotel. Embarquei num deles. No trajeto até o campo, os jogadores que estavam comigo vociferaram, alucinadamente, contra todos os transeuntes. Se todos eles fossem submetidos ao exame antidoping, seriam reprovados, e se, naqueles tempos, já vigorassem as atuais leis disciplinares impostas pelos mafiosos STJD, CONMEBOL, CONCACAF e FIFA, eles pegariam um gancho pesado. Não tive permissão para entrar no vestiário. A preleção do técnico aos jogadores era segredo democrático, mas pude adentrar o gramado com o time, Solito, Sócrates, Ataliba, Casagrande, Zenon, Biro Biro, Mauro, Daniel González, Alfinete, Paulinho e Wladimir, uma grande equipe que fez época no futebol. Quando eu me encaminhava para o banco de reservas, um homem, elegantemente vestido, veio ter comigo, falando um bom cockney do East End de Londres. Eu era o único que falava inglês, e fui, imediatamente, identificado como o chefe da delegação. O cavalheiro era o Presidente da Federação de Futebol de Trinidad e Tobago. Suas efusivas saudações e paparicos fizeram me sentir um cartola. Tal qual um político brasileiro em campanha à reeleição, ele me levou para um volta em torno do campo, construído em 1980, e fez questão de me explicar, em detalhes, outras melhorias que ainda planejava fazer: a ampliação das arquibancadas, a troca do gramado e a construção de uma pista de atletismo. O Estádio Hasely Crawford era um pouco acanhado. Não me recordo do seu tamanho. Minha memória de 65 anos já não se refresca com tanta facilidade, e já manifesta lampejos de Alzheimer. Acredito que fosse muito parecido com o antigo Parque Antártica do Palmeiras, com capacidade para 27 mil pessoas. O presidente trinitino-tobaguiano massageou meu ego, ainda em busca de autoafirmação, ao me oferecer a tribuna de honra. Encabulada e educadamente, recusei, explicando que, por ser o único a falar a língua da terra, precisava estar junto aos ‘meus’ comandados para eventuais traduções, especialmente junto ao trio de arbitragem e nas entrevistas para a imprensa local. Ele entendeu e até se desculpou. Sentei-me ao lado do lateral Zé Maria, às vésperas de pendurar as chuteiras. O jogo foi apenas um treino para o Corinthians, que venceu por 8x2. O futebol de Trinidad era embrionário, amador, e somente em 2006 conseguiria vaga para participar de sua primeira copa do mundo. Os dois gols do anfitrião foram facilitados para retribuir a calorosa recepção que os corintianos receberam das autoridades e do público. Ataliba, recém-contratado junto ao Juventus da Rua Javari, foi cumprimentado por todos os jogadores, ao fazer seu primeiro gol com o uniforme alvinegro depois de várias atuações sem sucesso. Nada como um saco de pancadas para se reabilitar. Além de dois gols e uma exibição a altura do craque que foi, com assistências inteligentes e liderança intelectual, Sócrates desfilou seu repertório de toques de calcanhar, sua marca registrada no adestramento da bola, uma marca visual da mesma maneira que as bandeirinhas se tornaram sinônimo da pintura de Volpi, como escreveu, inteligentemente, o talentoso Daniel Piza, por ocasião da morte do ‘Doutor’ em 2011. Havia apenas um repórter fazendo a cobertura do evento. Não sei se ele era da Gazeta Esportiva, do Diário da Noite ou da Revista Placar. Só sei que, a cada substituição, ele me chamava correndo junto ao mesário, para explicar quem entrou no lugar de quem. Ao final da partida, o presidente da federação trinitina me abordou e me levou de volta ao hotel no seu carro. Sentado no banco de trás estava, nada mais nada menos que Juan Figger, uruguaio que se mudou para São Paulo em 1968, tornou-se rico e célebre por ser um dos maiores empresários de jogadores de futebol e promotores de jogos e torneios amistosos, e famoso, também, por praticar muitas atividades ilícitas: sonegação fiscal, evasão de divisas, falsificação de passaportes e influência na convocação de jogadores, por ele empresariados, para a seleção brasileira, com objetivo de valorizar o passe dos mesmos. Esse era o trabalho com o qual sonhei tanto: gerenciar esportistas, artistas e músicos. Em 1982, eu e um colega das Alpargatas planejamos um empreendimento que só começariam a realizar nos anos 90: exportar jogadores brasileiros para a Europa e importar bandas britânicas para o Brasil. Não executamos o plano, perdemos o momento, e outros ficaram com nossos sonhos. Juan, que organizou dois amistosos para o Corinthians em mares de céu azul caribenho, permaneceu calado o tempo todo. já o presidente da federação, eufórico, delirava com ideias que ele queria deixar sob minha responsabilidade: um torneio em Trinidad, reunindo santos, Corinthians, palmeiras e flamengo. De volta ao hotel, fui direto para o bar, para beber, sem nenhuma mágoa para afogar, simplesmente porque eu teria um fim de semana de folga e só voltaria a trabalhar na segunda-feira. Lá estava Sócrates, saboreando uísques, cervejas e outros baratos etílicos afins. Sentei-me ao seu lado e, desta vez, jogamos muita conversa fora, literalmente, sobre todos os possíveis assuntos descartáveis, menos futebol. Sócrates estava, ainda, no primeiro de dez assaltos às malvadas, mas eu já estava meio grogue, tentando manter o equilíbrio, prestes a jogar a toalha. Os adversários do Corinthians tinham enorme dificuldade para acompanhar o Sócrates dentro das quatro linhas, mas era quase impossível acompanhá-lo na arte de ingerir águas que passarinhos não bebem. Fui salvo pelo gongo: foi anunciado o jantar que o hotel, ou a Federação Trinitina, ou não sei quem, ofereceu à delegação corintiana. No meu apartamento, desabei na cama de sapato e tudo, e o quarto parecia enfeitiçado, girando como um carrossel. Contei poucos cavalinhos para ferrar no sono. Depois de um tempo imponderável, o telefone tocou. Passava da meia-noite. Quem era o filho da mãe que me ligou em plena madrugada de sábado, perguntaria o pai do bem sucedido corretor da bolsa de valores no filme O Lobo De Wall Street. Era tudo demais tudo de menos que outro representante comercial, outro indiano, da cidade de San Fernando. Nas poucas semanas que tive para me preparar para aquela longa viagem, ao triar as rumas de telexes sem respostas, encontrei dois agentes interessados nos produtos da Alpargatas. Acabei ficando com o nariz empinado do Porto de Espanha, mas, por precaução, avisei o sanfernandino que eu estaria em seu país. Mas por que ele me procurou a esta hora? O inoportuno soube, pela televisão, que o médico Sócrates estava em Trinidad, e queria conhecê-lo. Rodopiando pelos corredores, consegui chegar ao bar. E lá estava Sócrates novamente, jantado, e agora acompanhado de vários companheiros. Tive que tomar algumas doses de uísque com o sanfernandino, que era médico também, e não veio falar sobre negócios. Apresentei-o ao Sócrates, larguei os dois no balcão do bar e, em zigue-zague, rumei em direção aos elevadores. Ao passar pelo saguão, fui interpelado pelo Daniel González, caindo pelas tabelas, tentando dar uma entrevista a um canal de TV local. A jovem e bonita jornalista pediu-me para ajudar na tradução. Cada pergunta dela era respondida com palavras aqui intraduzíveis, como, por exemplo, este eufemismo: quero levá-la para meu quarto para fazer amor. Sempre polido, eu dizia à moça que o Daniel e todos os corintianos estavam adorando o país. Mais jogadores, completamente embriagados, juntaram-se àquela baixaria, que eu trasladava para uma solicitude. Para me desvencilhar deles, tive que enganá-los com uma súbita indisposição estomacal. Escorando-me pelas paredes, consegui chegar ao meu apartamento. Com as mãos trêmulas, coloquei o aviso de não perturbe na maçaneta do lado de fora da porta, tirei o telefone do gancho, e desmaiei na cama. Meu inconsciente cancelou todos os sonhos programados para aquela noite. Acordei depois das 15 horas, com uma retumbante dor de cabeça e na consciência. Lentamente, comecei a rememorar o que se passara nas últimas 24 horas. Lembrei-me que, enquanto estava sóbrio, Sócrates me disse que eles teriam que levantar às 6 da manhã para pegar um voo para Curaçao, onde jogariam um amistoso contra a seleção local no Domingo. Seleção de Curaçao? Impossível! O escrete desta ilha de encantos mil devia ser igual ao Íbis de Pernambuco, o pior time do mundo, que entrou para o Livro Guinness dos Recordes por ter conquistado a façanha de três anos e onze meses sem comemorar uma única vitória. Mas, contra um time encharcado de engasga-gato, talvez os curaçaoanos conseguissem uma vitória. Quase! O jogo foi 0x0, e o Corinthians deve ter se arrastado numa lombeira confusa como o papiamento, língua oficial das antigas Antilhas Holandesas, mistura de holandês, alemão, inglês, espanhol e português. Se os corintianos não se refizeram da bebedeira com um trago de bebida que cura, significado da palavra Curaçao, então eles provaram da típica bebida Curaçau, feita com cascas de laranjas da ilha e cachaça de cana de açúcar da melhor qualidade da região. Lembrei-me, também, de ter explicado ao Sócrates que Cristovão Colombo batizou o país de La Isla de La Trinidad, referência à Santíssima Trindade Cristã. Mas os ameríndios locais chamavam a ilha de Terra do Beija Flor. Faz todo sentido. afinal, dois beija-flores adornam o brasão de armas de Trinidad. E Tobago, o que significa? Há tantas controvérsias sobre sua etimologia que prefiro lembrar-me daqueles dias ouvindo a Enya cantar Caribbean Blue (Azul Caribenho): So the world goes round and round..., E o mundo gira e gira..., and so did my head, e assim também girou minha cabeça, enquanto beija-flores ainda zumbem em minha mente, saudosa do grande Sócrates brasileiro, que partiu cedo demais.

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sexta-feira, 12 de maio de 2017

ANTES QUE NOSSOS TEMPOS ACABEM

 Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Encontraram água em Marte, Disse um homem ao outro, Apertando os lábios e erguendo as sobrancelhas, O outro apenas meneou a cabeça leve e afirmativamente, Os dois sentavam-se em bancos altos diante do balcão de um bar e, Para dar valor aos clichês de alambicados poetas de meia-tigela, Estavam num bar para afogar as mágoas, Consumindo etílicos e, Para manter-se fiel aos chavões, Consumindo sentimentos de culpa e diluindo pesos na consciência, Ambos estrangeiros, Como o personagem de Albert Camus, Um mais, O outro menos, Um pai de uma jovem viciada em drogas, O outro fabricante de metanfetamina, Compartindo suas desgraças, Mas não seus segredos, A distância física que os separava, Neste encontro casual, Era diminuta, A sincrônica mais significativa que pudessem imaginar, Um assunto para Carl Jung, Um remoía o que poderia ter feito para evitar a falência da filha por overdose, E quantas pessoas ele levaria, E não sabia, À morte, Por levar ao trabalho o parafuso em que entrou, Na mente do outro voavam pensamentos sobre a família que perdeu, E a peça teatral que escreveu no purgatório, O Traficante, A Prostituta E A Freira, Sobre um, Nada mais havia para dizer, Somente a ruína final que leva ao inferno, De livre vontade, Por falta de discernimento e, Para não perder de vista os provérbios reles, Por falta de esperança que morre por último, O outro limitou-se a aceitar a água de Marte como dissimulação por falta do que mais falar, E dissimulou: Também encontraram um mar na Europa, uma lua de Júpiter, Um pensava que iria encontrar a filha no céu, O outro não tinha nada a perder na terra.


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domingo, 7 de maio de 2017

DOIS MILHÕES DE ESTRANGEIROS CRIMINOSOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)



Tenho muitos amigos, E raros inimigos, Um deles, O Quinjongue I, agora é meu amasio de gabinete, E fico honrado quando deito-me com ele na cama, Em circunstâncias adequadas, Na companhia de um grande amigo, O Esputinique, Para um ménage à trois, Estão rindo do quê? Do meu equino esgar? Já fui um prostituto vulgar, Mas mudei muito, Agora sou o mais novo boçal com faixa presidencial, O que vocês estão pensando? Nunca antes na história deste país houve um líder que reunisse tantas qualidades, De Lulista, Malufista, Neo-Nazista, Neo-Fascista, Fidel-Castrista, Evo-Moralista, hugo-Chavista, Nicolas-Madurista, E tantos outros Renan-Canalhistas, Continuam rindo por quê? Não fico atrás de vocês, O Veríssimo, Luis Fernando, Disse, Que na corrupção, Eu e vocês empatamos, Vocês sabem onde posso jogar um bomba nuclear? Onde posso mandar vocês tomarem naquele lugar? Não tenho medo de ninguém, Por que teria algo a Temer? Com meu bordel à Cunha? Com os ventos republicanos e retrógrados soprando a meu favor, E os seus às más lufadas? O que me torra a paciência são estes chicos muralistas, Com esses chinos sentados em cima, Vocês sabem onde tem mais petróleo iraquiano para eu roubar? Onde tem mais afegãs para eu estuprar? Onde tem mais sírios para eu chacinar? e aí, neste quinto dos infernos, não sobrou nada para eu surrupiar? Do que estão rindo agora? Da minha boquinha boqueta, ou do meu bundoril? Vão todos vocês pra minha mãe que me pariu, Por que não posso falar palavrão? O Barracobama já chamou o esputinique de burrão, O Jorge Da Freguesia Do Uóchintom foi chamado de bundão, O idiota do Jota Dabliu buchi de meu irmão, E o tapado do Ronaldo Reigam batizou meu porta-avião, Mas a bomba atômica que vou jogar na cabeça do meu concubino vai ter meu nome: Pato Donaldo Funâmbulo Patibular Tromposo.

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sexta-feira, 5 de maio de 2017

O PAÍS DO MEIO. PARTE 1: WHEN IN ROME DO AS THE ROMANS DO


Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


De 1995 a 1998 fui várias vezes à China. Dizem que nos últimos 20 anos mudou muito esta nação que, acredito, será a maior potência mundial, talvez em mais 25 ou, no máximo, 50 anos. Até mesmo alguns filmes americanos de ficção científica, futuristas e sobre viagem no tempo, como Looper, ambientado nos EUA de 2044, e no Zhōngguó de 2074, profetizam, A China é o futuro. Se um dia eu lá voltar, definitivamente não mais a trabalho, não espero coadjuvar o mesmo seriado de hilariantes episódios de 22 anos atrás, que avançaram em 5  temporadas, e impeliram-me, prazerosamente, a reduzi-los a spoilers, palavra que está em voga, embora voga esteja fora de moda. Guangzhou, o Cantão dos portugueses, foi o palco de minha Avant Première. Tive um incômodo ao chegar, pequeno para esta grande terra de desprezíveis inconveniências. Minha mala ficou lá em Bangkok. A companhia aérea prometeu-me entrega-la no hotel em dois dias. Mais tarde, eu constataria que esta promessa em nada se parecia com os convites da boca para fora que costumamos receber por aqui: Passa um dia lá em casa. O hotel que reservei era bem perto do aeroporto. Dava para ir a pé, mas, como chovia torrencialmente, peguei um táxi, e me pegou o único vivaldino que encontraria em meio a mais de um bilhão de simplórios e meigos olhos oblíquos. Ele me cobrou 10 dólares para percorrer menos de 500 metros. Mau pressentimento: Bagagem extraviada e taxista explorador. Eu tinha compromissos no dia seguinte, e precisava trocar de roupa e comprar produtos de higiene. A recepcionista do hotel recomendou-me um shopping ali perto. Caminhei umas quatro quadras para chegar ao pequeno prédio de dois andares. Lá tinha tudo que necessitava. Só não sabia se a calça servia. Andei pelos corredores à procura de um provador, mas não achei. Pedi ajuda a uma jovem que parecia ser uma vendedora. Ali ninguém falava inglês ou português, e eu não falava nem mandarim nem cantonês. Aparentemente, ela entendeu minhas gesticulações. Anuiu com a cabeça, deu explicações em chinês, mas não apontou para nenhum lugar. Tive a estranha sensação de que ela deveria estar dizendo algo assim: você deve enfiar uma perna de cada vez, erguer a calça até a cintura e abotoá-la. Continuei perambulando, olhando em todas as direções. Voltei à seção de roupas masculinas, e lá no final do corredor avistei um chinês escolhendo uma calça. Este, com certeza, poderia me mostrar onde ficava a cabine privativa masculina. De repente, ele tirou as calças e ficou só de cueca e, tranquilamente, experimentou vários modelos, enquanto o vaivém de clientes e vendedores, homens e mulheres, ignorava sua presença. Comecei a me dar conta de que a explicação daquela vendedora não era tão estranha como pensei. Aquela cena me fez lembrar do provérbio americano: When in Rome do as the Romans do. Então, lá estava eu, num espaço público, de camisa, meia, sapato e samba-canção, taking my time, sem nenhuma pressa, para encontrar a calça que melhor se ajustava ao meu corpo. Eu só chamava a atenção por ser o único ocidental naquela loja de departamentos. Só olhavam para meu rosto. Todos já tinham visto muitos homens só com peças íntimas. Fiquei imaginando onde as mulheres provavam roupas de baixo e de cima, calcinhas, sutiãs, vestidos, saias e blusas. Descobri, só por meio de silogismo aristotélico, que o shopping não tinha provadores nem banheiros. Ficar só de cuecas foi a premissa menor. A maior foi outro chinês, ao meu lado, provando uma sunga num piscar de olhos. Usei a razão porque qualquer tipo de gestual indagando a localização de uma toalete poderia ser arriscado. Era muito cedo para me empolgar com a liberdade de expressão corporal, desnuda por incompleto, numa cultura que eu estava só começando a sondar. Difícil foi resistir à tentação de ficar fazendo hora na seção feminina, esperando, inescrupulosa e ingenuamente, testemunhar o que eu estava cansado de ver, em plena luz do dia, em alguns recônditos do Horto Florestal perto de casa e nos bancos do Hyde Park de Londres. A fadiga, por conta da longa viagem de 22 horas, me alertava que o dever estava a me chamar. Cheguei ao hotel, exausto, desabei na cama, dormi uma boa noite de sono, e acordei muito disposto para meu primeiro dia de trabalho no país do meio. Este é o significado de China em chinês.

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