quinta-feira, 22 de junho de 2017

PREFÁCIO E PRÓLOGO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


PREFÁCIO

UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é uma coleção de centenas de textos, abrangendo todos os gêneros literários, desde uma simples poesia até um artigo acadêmico, e somam cerca de mil publicações.

O primeiro título selecionado para este livro foi COELHO ENFORCADO, uma imagem recorrente em meus sonhos quando eu sofria de terror noturno na infância. Eu tinha escolhido esta imagem para o nome deste livro depois de ter lido HORSE´S NECK (PESCOÇO DE CAVALO), de Pete Townshend, líder e mentor da lendária banda de rock britânico chamada THE WHO. Esta escolha deveu-se não apenas ao fato de Pete Townshend ter sido um de meus ídolos desde a adolescência até os dias de hoje, mas também porque seu livro, traduzido no Brasil com o título TREZE, tem algumas perspectivas em comum com minhas ideias que não se limitam a contos: o nome de um animal no título, o formato (antologia de prosa e verso), espiritualidade, infância, ficção, sonhos e casos mal resolvidos, Pete com cavalos, e eu com o inconsciente coletivo.

No prefácio de seu livro Pete diz: Esta coleção de prosa e verso foi escrita entre 1979 e 1984. Eu nunca desejei simplesmente contar minha própria história, mas tentei cobrir uma ampla gama de sentimentos. Assim, a coleção abre com uma história de infância lembrada de forma obscura e fecha com um vívido vislumbre do futuro bem próximo. Minha mãe aparece neste livro, mas sua personalidade muda constantemente porque esta ‘mãe’ são muitas mães, muitos professores. Cada história lida com um aspecto da minha luta para descobrir o que realmente é a beleza.

Eu não sou talentoso e famoso como Pete e também não tenho nada de importante na minha vida para contar. Sou uma daquelas dez pessoas medíocres que, segundo Carl Jung, não valem uma pessoa de valor porque, de acordo com este famoso psiquiatra, a natureza é aristocrática. Apesar das limitações impostas pelo meu ordinarismo, descobri que a natureza é democrática e trata de igual para igual os bem-nascidos e os malnascidos, e é por isso que um plebeu tem tanto para criar e revelar quanto um nobre. Tentarei comprovar isso (e outros fatos curiosos e extraordinários da vida) num romance que escrevi, chamado VALE DA AMOREIRA, e que será publicado neste livro em partes (parágrafos).

Eu sempre quis ser escritor, mas optei por outra profissão. Agora, tardiamente, resolvi tentar escrever para valer e publicar o que antes escrevia como hobby e como terapia para combater minha depressão que me persegue desde o meu nascimento e continuará me afligindo até minha morte. Este livro é um mero treinamento, ainda pobre de ideias e de verve literária, porque não sei escrever, mas quero aprender. Nele o leitor encontrará contos enfadonhos, todos mal escritos, mas também se surpreenderá com outros mediocremente intrigantes.

Enquanto ainda pensava em escrever um livro só de contos, eu iria dar a ele o nome de MEU PESCOÇO DE CAVALO, mas mudei de ideia e decidi, então, dar-lhe o nome de TERRA DOS LOTÓFAGOS, limitando-o à antologia de contos, depois de ter ouvido um álbum tributo ao DEAD CAN DANCE chamado LOTUS EATERS e que contém uma versão da música BYLAR por ATARAXIA e que inspirou o conto ALÉM DO PORTÃO que será publicado neste livro. No entanto, como uma pessoa volúvel e insegura que sempre fui, reconsiderei e, finalmente, optei por um um livro mais amplo e colocar ao lado dos contos diversos textos tais como crônica, prosa, verso, poesia narrativa, ficção histórica e científica, diálogos no estilo de peças teatrais, minhas viagens pelo exterior, lembranças de minha infância e adolescência e outros gêneros literários. 

A ampliação de TERRA DOS LOTÓFAGOS deveu-se ao fato de todos os meus escritos lidarem com aspectos da minha luta para descobrir o significado de muitos concretismos e abstrações, e não apenas de uma delas, como a beleza de Pete, e, ao mesmo tempo, reunirem uma quantidade de quinquilharias muito maior que os poucos, mas excelentes textos encontrados no livro de Pete. Assim, resolvi dar-lhe um nome mais condizente com a diversidade e quantidade de textos, UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA, mais longo, muito mais longo que o pescoço de um cavalo. Antes de chegar a este título mais adequado para um livro de temas tão variados, considerei nomes como DIÁRIO DE DEIRDRE ULTRAMARI e FRAGMENTOS DE DIÁRIOS PERDIDOS.


Quando li o artigo O escritor está nu, de Pilar Fazito, publicado no diário site Digestivo Cultural em 2010, nele encontrei as palavras exatas para explicar a maneira como sempre tive vontade de escrever: completamente desnudado como amantes durante o ato sexual. Sem pudor. Sem nenhum receio de dizer o que sinto. Sem dar a mínima para o que os outros pensam de mim. Parafraseando Pilar Fazito, procurei escrever fazendo sexo com entrega total, não apenas despreocupado com os poucos fiapos de pelo que jazem sozinhos na vastidão de um peitoral pouco malhado como ela diz, mas escancarando o torso de macaco gordo e tetudo que fui enquanto escrevia este livro. Macaco politica, social e moralmente incorreto que põe por escrito o que pensa, tudo que a maioria dos humanos pensa, mas tem medo de dizer.


Ler UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer a antiga rota da seda que, na verdade, era uma série de rotas interligadas através da Ásia do Sul, usadas no comércio da seda entre o Oriente e a Europa, só que começando pelo fim, em Istambul, visitando seus bazares, como o Bazar das Especiarias, o Grande Bazar, O Bazar Egípcio, onde se encontra de tudo: frutas, tapetes, ervas medicinais, jóias, louças, condimentos, roupas, comidas exóticas e uma lista interminável de bugigangas, cada uma delas disponível em todos os tipos imagináveis, e com muitas cores, como a palheta de um desenhista profissional que contém mais de 500 tons de cores. Entrar no BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer uma série de rotas que ligam o cérebro à alma e conhecer muitos dos ingredientes que lhes dão vida. Todos os contos da TERRA DOS LOTÓFAGOS foram incorporados a este livro. 


As ideias de todos os textos vêm do intelecto e este, por sua vez, é impulsionado pela alma alimentada por música e pela intuição materializada por uma ilustração. Músicas e ilustrações não estão em cada texto por acaso.  A música é a alma do intelecto e a ilustração seus olhos.


UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA será publicado somente no meu blog (com links no Facebook e no Google +), em partes (textos) individuais no meu grupo no facebook chamado Textos de Alceu Natali https://www.facebook.com/groups/316295385178582/´, 
pelo menos uma vez por semana.


O prólogo continua sendo o mesmo que havia sido escolhido para a TERRA DOS LOTÓFAGOS.


Dedico UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA ao saudoso Armando Natali, meu pai e o melhor e único amigo que tive em minha vida, à Cecília Silveira Macedo, minha esposa e fiel companheira de árduas batalhas, à Ana Carolina Macedo Natali, minha filha quem espero ver crescer, formar-se, ter uma profissão, uma carreira e independência ideológica, e à humilde família de minha esposa que mora em Belo Horizonte e que vem me ajudando muito e incondicionalmente durante os últimos cinco anos que têm sido os piores da minha vida. Meus sinceros agradecimentos a Altair, Cristina, Deirdre, Douglas, Maria José, Maria Lúcia, Marinho, Renato e Scott.


Alceu Natali
São Paulo, 21 de Agosto de 2014


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PRÓLOGO

O vento e meu timoneiro mantinham-nos na rota certa e eu teria chegado à minha terra natal são e salvo, mas o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas desviaram-me do curso, no momento em que eu estava tornando a dobrar a Malea, levando-me para além da Cythera. Nove dias de ventos violentos afastaram-me dali, e no décimo dia aportamos na terra onde vivem os comedores de Lótus que se alimentam do fruto que brota desta flor. Descemos em terra firme e apanhamos água para abastecer os navios. Meus companheiros fizeram uma rápida refeição junto aos nossos barcos de águas rasas. Depois de comer e beber enviei alguns de meus companheiros para instruírem-se sobre os homens que comem o alimento que cresce nesta terra. Eu escolhi dois de meus homens e com eles enviei um terceiro como mensageiro. Eles partiram em seguida e encontraram-se com os comedores de Lótus e estes não demonstraram nenhuma hostilidade, mas, ao contrário, deram-lhes para comer a planta do Lótus, cujo fruto, doce como o mel, fez com que todo o homem que provou dele perdesse o desejo de voltar para casa e de vir contar-nos o que lhe sucedeu. Eles queriam lá ficar, permanecer com os comedores de Lótus, alimentando-se daquela planta, ávidos por esquecer a viagem de volta para casa. Eu os forcei a voltarem aos navios e, com olhos cheios de lágrimas, eles foram arrastados para baixo dos bancos de remos e lá eu os amarrei. Depois, ordenei aos meus outros homens de confiança para que embarcassem e começassem a remar rápido, caso algum outro homem viesse a comer um Lótus e abandonasse a ideia de fazer a jornada de volta. Eles apressaram-se para os navios, tomaram seus lugares de maneira ordenada em suas fileiras e golpearam o mar cinzento com as pás de seus remos. Porém, o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas que nos trouxeram para esta terra continuavam conspirando contra nós, detendo nosso avanço, por isso pedi aos meus remadores para imprimirem mais velocidade, pois a terra dos comedores de Lótus ainda estava muito próxima de nossos navios e a maré poderia levar-nos de volta para lá. Um de meus companheiros, ao dar mais potência aos seus braços, deixou cair uma flor de Lótus que ele escondia. Imediatamente, repreendi-o e amarrei-o junto aos outros três debaixo dos bancos de remos. Apanhei a flor de Lótus trazida a bordo sem que eu soubesse e, antes de jogá-la ao mar, aproximei meu nariz dela só para experimentar seu aroma, e assim que o fiz, senti uma enorme vontade de prová-la, mas resisti à tentação e apenas toquei-lhe com a ponta da língua para sentir seu gosto, mas isto bastou para que eu a devorasse rapidamente e desejasse voltar para a terra dos comedores de Lótus que ainda não se encontrava distante. Então, atirei-me ao mar e com ligeiras braçadas logo cheguei à praia e fui encontrar-me com os comedores de Lótus que me deram uma ótima acolhida, ofereceram-me Lótus até me fartar e perder a vontade de voltar para casa. Eu não saberia mais viver noutro lugar a não ser neste. Aqui esquecerei do meu passado e começarei uma nova vida. Este lugar é letárgico e me dá muito sono. Mas é disso que mais preciso: sono para  sonhar.




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DREAM SONGS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche) 

O que se apesenta neste momento em minha memória, Ainda não são anéis que refulgem nos dedos, Nem padre que não celebra na noite de Natal por menos de mil reais, São os acordeões que empoeiraram-se nas feiras de pechinchas, E não vibram seus  teclados diatônicos e seus botões cromáticos, Nem nas mais cafonas sessões de pulgueiros, Um desprezo ignóbil por Dominguinhos, O maior de nossa música, São, também, os pilhéricos pianos, Dos diabos, Que nunca despertaram para martelar a madeira revestida de feltro e brandir nossos recintos, Outro vil descaso com Chopin, Um dos maiores de nossos clássicos, Mais que esses dois, São os violões, Que, Solitários, Ressoaram um rico e imagístico repertório  de canções, Como num sonho, No qual o próprio sonho encontrou um mágico ensejo para incumbir o quarteto mais famoso do mundo, A executar uma melodia gerada de uma só voz e um único acompanhamento, Algo que transcende de longe nossa razão e nossa imaginação, Da mesma forma que todos seus plágios inconscientes alcançam perdão pelo bom gosto, Pela Sensação que é estar ao lado dela, Tão sensacional como na progressão de Men Men Mentiras, Mas nada a ver a com a tardia e narcisista Sou Uma Sensação, E as imitações não param por aí, A Guerra Terminou, Uma que não precisava ser vencida por ninguém, Combina, Como Romeu e Julieta, O Anjo Da Manhã com Tudo O Que Você Precisa É Amor, A prostituta que passa a noite comigo e chega em casa, Sorrateira, Com o canto do bem-te-vi, Até os pássaros sabem que ela passa o vício e o vírus do cupido, E esses complexos sonoros avançam com Não Não Não, Embarcando No Último Trem Para Clarksville, E vão parar nas estações das  morbígeras morbidezes, Quem Abriu Meu Túmulo?, Para roubar?, É Lá Que Eu Jazo, É lá que devo te procurar? Mas eis que um caprichoso arranjo dos mais belos crisântemos, Chamado originalidade, Tira os acordes do jazigo, Mergulham-nos em preciosidades de beber até fazer mal, Ninguém Consegue Amar Meu Amor,  Uma sutileza expressiva só ouvida nos salões musicais dos anos britânicos, Como, Bem aqui vem uma redundância, Como Minha Garota É Às Vezes, À qual não poderia faltar uma paixão ardente e ufanista, Minha Cidade De São Paulo, Nem pieguices adolescentes, Por Favor Nunca Me Deixe, A la Charles Aznavour, Por que só existe uma? Porque É Somente Você, Só existe uma mulher no mundo? Sexta De Manhã, A celebração de uma vitória onde não houve perdedores, E de pensar que tudo isso começou com ingenuidades, Chamando Atenção, De quem? Da mesma fêmea de sempre? Mesmo Se, Mesmo se o quê? Ninguém sabe, Dinheiro Não É Tudo, Naqueles tempos, Mas não nesses dias, Escreva Com Minha Caneta, Sem título seria melhor, As lhanezas evoluíram um pouco com É Melhor Você Esquece-la, A mesma a quem se implora para ficar, The Scary Song, Por falta de outro nome,  E de pensar que tudo morreu com as esquecidas pelo tempo, O Marinheiro, A Deusa, E de se pensar que tudo ainda vai ressuscitar com os nomes de seus tristonhos compositores: Ay See Us Nay Tall, Ay See Us Blue, Crying Is Our Label, Pain Is Our Rule.



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terça-feira, 13 de junho de 2017

SEJA FEITA SUA VONTADE ASSIM NA PRAIA GRANDE COMO NA CIDADE MAIOR

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Cai a noite baixa e curta de verão, Sobre um mar de rosas, Azulão na escuridão, E tranquilo como um lago suíço, Com escassas luzes bruxuleantes tocando os barcos adiante no intangível horizonte, Lá pelos idos da alta idade média dos anos dourados, E eu, Sócio fóbico e fobofóbico, Sou rastejado em passos de cobra, Lenta e pegajosa, Para a pista de cimento do Pelicano, rodeada de palmeiras, De ar-livre, De muitas vestes aquarelistas, Rezo minhas rezas, Outros cantam seus cantos, E todos dançam conforme as músicas que alertam, amor de praia não sobe a serra, A menina que me tira tem o venerado símbolo da metade da idade de menor, Seus cabelos são lindos pendões de inocência, Que a brisa beija e balança, Tem o nome da mais badalada rua da minha pauliceia desvairada, Logo torna-se minha primeira namorada, Sem jamais saber que teve um romance, A vigésima quinta hora retorna todos ao edifício brasil, Mas a madrugada é apenas uma criança de peito, Os da maioridade, Com seus carburetos, Arrastam suas redes nas águas mornas ao relento, Eu fico para trás, Recosto minha cabeça no colo de outra cuja graça se perdeu com o tempo, Esta sim, De minoridade absoluta, Sabe embrenhar seus dedos pelas minhas madeixas, Tresnoitar, Curva seus lábios sobre os meus, exala um misto de perfume, E de cheiro áspero de raízes e seiva, Relaxa os nervos, Adormece o cérebro, Põe seu coração à larga, Sussurra no meu ouvido um galanteio, A namoração vai escalar os oitocentos metros até o planalto de onde viemos, E depois, Depois deixamos a vida viver sua vida.     

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sexta-feira, 2 de junho de 2017

CICLO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Cuca, Vai embora, Acabou minha hora, Uma gota vermelha brilhante chamusca meu céu, Já não é mais papai Noel, Não venha me pegar, O papa-gente vem me buscar, Ele grita meu nome e me assusta, Pá-á-pá-santa-justa, Ele é ela que apanha meu último sono, É deus deixando-me no abandono, Rezo ave Maria, Todo dia, Rezo pai nosso, Mais que posso, Ele que é ela aparece de xandor, Conhece minha vida de cor, Minhas andanças, Minhas esperanças, Cuca, Se você vier me buscar, Só me leve para o mar, Se podes me ajudar, Peça a Moira Nona que teceu meu nascimento, Para deixar a intenção do Manjaléu cair na planura do rio do esquecimento, Que a Parca Décima adultere meu sorteio, E possa prolongar meu ciclo neste mundo de devaneio, Que a filha da necessidade Morta, Cegue esta tesoura abominável que o fio da minha vida ainda não corta.

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