sábado, 18 de março de 2017

PREFÁCIO E PRÓLOGO

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98.  LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)


PREFÁCIO

UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é uma coleção de centenas de textos, abrangendo todos os gêneros literários, desde uma simples poesia até um artigo acadêmico, e somam cerca de mil publicações.

O primeiro título selecionado para este livro foi COELHO ENFORCADO, uma imagem recorrente em meus sonhos quando eu sofria de terror noturno na infância. Eu tinha escolhido esta imagem para o nome deste livro depois de ter lido HORSE´S NECK (PESCOÇO DE CAVALO), de Pete Townshend, líder e mentor da lendária banda de rock britânico chamada THE WHO. Esta escolha deveu-se não apenas ao fato de Pete Townshend ter sido um de meus ídolos desde a adolescência até os dias de hoje, mas também porque seu livro, traduzido no Brasil com o título TREZE, tem algumas perspectivas em comum com minhas ideias que não se limitam a contos: o nome de um animal no título, o formato (antologia de prosa e verso), espiritualidade, infância, ficção, sonhos e casos mal resolvidos, Pete com cavalos, e eu com o inconsciente coletivo.

No prefácio de seu livro Pete diz: Esta coleção de prosa e verso foi escrita entre 1979 e 1984. Eu nunca desejei simplesmente contar minha própria história, mas tentei cobrir uma ampla gama de sentimentos. Assim, a coleção abre com uma história de infância lembrada de forma obscura e fecha com um vívido vislumbre do futuro bem próximo. Minha mãe aparece neste livro, mas sua personalidade muda constantemente porque esta ‘mãe’ são muitas mães, muitos professores. Cada história lida com um aspecto da minha luta para descobrir o que realmente é a beleza.

Eu não sou talentoso e famoso como Pete e também não tenho nada de importante na minha vida para contar. Sou uma daquelas dez pessoas medíocres que, segundo Carl Jung, não valem uma pessoa de valor porque, de acordo com este famoso psiquiatra, a natureza é aristocrática. Apesar das limitações impostas pelo meu ordinarismo, descobri que a natureza é democrática e trata de igual para igual os bem-nascidos e os malnascidos, e é por isso que um plebeu tem tanto para criar e revelar quanto um nobre. Tentarei comprovar isso (e outros fatos curiosos e extraordinários da vida) num romance que escrevi, chamado VALE DA AMOREIRA, e que será publicado neste livro em partes (parágrafos).

Eu sempre quis ser escritor, mas optei por outra profissão. Agora, tardiamente, resolvi tentar escrever para valer e publicar o que antes escrevia como hobby e como terapia para combater minha depressão que me persegue desde o meu nascimento e continuará me afligindo até minha morte. Este livro é um mero treinamento, ainda pobre de ideias e de verve literária, porque não sei escrever, mas quero aprender. Nele o leitor encontrará contos enfadonhos, todos mal escritos, mas também se surpreenderá com outros mediocremente intrigantes.

Enquanto ainda pensava em escrever um livro só de contos, eu iria dar a ele o nome de MEU PESCOÇO DE CAVALO, mas mudei de ideia e decidi, então, dar-lhe o nome de TERRA DOS LOTÓFAGOS, limitando-o à antologia de contos, depois de ter ouvido um álbum tributo ao DEAD CAN DANCE chamado LOTUS EATERS e que contém uma versão da música BYLAR por ATARAXIA e que inspirou o conto ALÉM DO PORTÃO que será publicado neste livro. No entanto, como uma pessoa volúvel e insegura que sempre fui, reconsiderei e, finalmente, optei por um um livro mais amplo e colocar ao lado dos contos diversos textos tais como crônica, prosa, verso, poesia narrativa, ficção histórica e científica, diálogos no estilo de peças teatrais, minhas viagens pelo exterior, lembranças de minha infância e adolescência e outros gêneros literários. 

A ampliação de TERRA DOS LOTÓFAGOS deveu-se ao fato de todos os meus escritos lidarem com aspectos da minha luta para descobrir o significado de muitos concretismos e abstrações, e não apenas de uma delas, como a beleza de Pete, e, ao mesmo tempo, reunirem uma quantidade de quinquilharias muito maior que os poucos, mas excelentes textos encontrados no livro de Pete. Assim, resolvi dar-lhe um nome mais condizente com a diversidade e quantidade de textos, UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA, mais longo, muito mais longo que o pescoço de um cavalo. Antes de chegar a este título mais adequado para um livro de temas tão variados, considerei nomes como DIÁRIO DE DEIRDRE ULTRAMARI e FRAGMENTOS DE DIÁRIOS PERDIDOS.


Quando li o artigo O escritor está nu, de Pilar Fazito, publicado no diário site Digestivo Cultural em 2010, nele encontrei as palavras exatas para explicar a maneira como sempre tive vontade de escrever: completamente desnudado como amantes durante o ato sexual. Sem pudor. Sem nenhum receio de dizer o que sinto. Sem dar a mínima para o que os outros pensam de mim. Parafraseando Pilar Fazito, procurei escrever fazendo sexo com entrega total, não apenas despreocupado com os poucos fiapos de pelo que jazem sozinhos na vastidão de um peitoral pouco malhado como ela diz, mas escancarando o torso de macaco gordo e tetudo que fui enquanto escrevia este livro. Macaco politica, social e moralmente incorreto que põe por escrito o que pensa, tudo que a maioria dos humanos pensa, mas tem medo de dizer.


Ler UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer a antiga rota da seda que, na verdade, era uma série de rotas interligadas através da Ásia do Sul, usadas no comércio da seda entre o Oriente e a Europa, só que começando pelo fim, em Istambul, visitando seus bazares, como o Bazar das Especiarias, o Grande Bazar, O Bazar Egípcio, onde se encontra de tudo: frutas, tapetes, ervas medicinais, jóias, louças, condimentos, roupas, comidas exóticas e uma lista interminável de bugigangas, cada uma delas disponível em todos os tipos imagináveis, e com muitas cores, como a palheta de um desenhista profissional que contém mais de 500 tons de cores. Entrar no BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA é como percorrer uma série de rotas que ligam o cérebro à alma e conhecer muitos dos ingredientes que lhes dão vida. Todos os contos da TERRA DOS LOTÓFAGOS foram incorporados a este livro. 


As ideias de todos os textos vêm do intelecto e este, por sua vez, é impulsionado pela alma alimentada por música e pela intuição materializada por uma ilustração. Músicas e ilustrações não estão em cada texto por acaso.  A música é a alma do intelecto e a ilustração seus olhos.


UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA será publicado somente no meu blog (com links no Facebook e no Google +), em partes (textos) individuais no meu grupo no facebook chamado Textos de Alceu Natali https://www.facebook.com/groups/316295385178582/´, 
pelo menos uma vez por semana.


O prólogo continua sendo o mesmo que havia sido escolhido para a TERRA DOS LOTÓFAGOS.


Dedico UM BAZAR CHAMADO PESCOÇO DE GIRAFA ao saudoso Armando Natali, meu pai e o melhor e único amigo que tive em minha vida, à Cecília Silveira Macedo, minha esposa e fiel companheira de árduas batalhas, à Ana Carolina Macedo Natali, minha filha quem espero ver crescer, formar-se, ter uma profissão, uma carreira e independência ideológica, e à humilde família de minha esposa que mora em Belo Horizonte e que vem me ajudando muito e incondicionalmente durante os últimos cinco anos que têm sido os piores da minha vida. Meus sinceros agradecimentos a Altair, Cristina, Deirdre, Douglas, Maria José, Maria Lúcia, Marinho, Renato e Scott.


Alceu Natali
São Paulo, 21 de Agosto de 2014


video

PRÓLOGO

O vento e meu timoneiro mantinham-nos na rota certa e eu teria chegado à minha terra natal são e salvo, mas o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas desviaram-me do curso, no momento em que eu estava tornando a dobrar a Malea, levando-me para além da Cythera. Nove dias de ventos violentos afastaram-me dali, e no décimo dia aportamos na terra onde vivem os comedores de Lótus que se alimentam do fruto que brota desta flor. Descemos em terra firme e apanhamos água para abastecer os navios. Meus companheiros fizeram uma rápida refeição junto aos nossos barcos de águas rasas. Depois de comer e beber enviei alguns de meus companheiros para instruírem-se sobre os homens que comem o alimento que cresce nesta terra. Eu escolhi dois de meus homens e com eles enviei um terceiro como mensageiro. Eles partiram em seguida e encontraram-se com os comedores de Lótus e estes não demonstraram nenhuma hostilidade, mas, ao contrário, deram-lhes para comer a planta do Lótus, cujo fruto, doce como o mel, fez com que todo o homem que provou dele perdesse o desejo de voltar para casa e de vir contar-nos o que lhe sucedeu. Eles queriam lá ficar, permanecer com os comedores de Lótus, alimentando-se daquela planta, ávidos por esquecer a viagem de volta para casa. Eu os forcei a voltarem aos navios e, com olhos cheios de lágrimas, eles foram arrastados para baixo dos bancos de remos e lá eu os amarrei. Depois, ordenei aos meus outros homens de confiança para que embarcassem e começassem a remar rápido, caso algum outro homem viesse a comer um Lótus e abandonasse a ideia de fazer a jornada de volta. Eles apressaram-se para os navios, tomaram seus lugares de maneira ordenada em suas fileiras e golpearam o mar cinzento com as pás de seus remos. Porém, o vento do norte, as correntes marinhas e as ondas que nos trouxeram para esta terra continuavam conspirando contra nós, detendo nosso avanço, por isso pedi aos meus remadores para imprimirem mais velocidade, pois a terra dos comedores de Lótus ainda estava muito próxima de nossos navios e a maré poderia levar-nos de volta para lá. Um de meus companheiros, ao dar mais potência aos seus braços, deixou cair uma flor de Lótus que ele escondia. Imediatamente, repreendi-o e amarrei-o junto aos outros três debaixo dos bancos de remos. Apanhei a flor de Lótus trazida a bordo sem que eu soubesse e, antes de jogá-la ao mar, aproximei meu nariz dela só para experimentar seu aroma, e assim que o fiz, senti uma enorme vontade de prová-la, mas resisti à tentação e apenas toquei-lhe com a ponta da língua para sentir seu gosto, mas isto bastou para que eu a devorasse rapidamente e desejasse voltar para a terra dos comedores de Lótus que ainda não se encontrava distante. Então, atirei-me ao mar e com ligeiras braçadas logo cheguei à praia e fui encontrar-me com os comedores de Lótus que me deram uma ótima acolhida, ofereceram-me Lótus até me fartar e perder a vontade de voltar para casa. Eu não saberia mais viver noutro lugar a não ser neste. Aqui esquecerei do meu passado e começarei uma nova vida. Este lugar é letárgico e me dá muito sono. Mas é disso que mais preciso: sono para  sonhar.




video

PARA TODOS OS GOSTOS

Texto de autoria de Alceu Natali com direito autoral protegido pela Lei 9610/98. LEIA O TEXTO AO SOM DA MÚSICA DO VÍDEO POSTADO NO FIM. Sem ela, a vida seria um erro (Friedrich Nietzsche)

Fui uma camponesa num feudo na França na Idade Média. Os suseranos condenavam à morte os vassalos que blasfemassem, mas eles mesmos injuriavam a divindade sem o menor escrúpulo, até que um dia um jesuíta, favorito do senhor feudal, proibiu-lhes de empregar o nome de Deus em suas blasfêmias prediletas. Mesmo assim, eles contornaram esta dificuldade, substituindo Deus por Azul, em francês Dieu por Bleu, palavras que têm a mesma terminação e rimam. E foi assim que as imprecações modificaram-se: par La mort de Dieu (pela morte de Deus) passou a ser Morbleu. Sacré Dieu (Santo Deus), sacrebleu. Par Dieu (Por Deus) parbleu; par la sang de Dieu (pelo sangue de Deus) palsembleu. A criadagem que ouvia frequentemente esta última imprecação, reteve apenas o final, ou seja, sang bleu, sangue azul, e como o uso destas blasfêmias era privilégio dos senhores feudais, para distinguir um nobre de um plebeu os servos costumavam dizer: Cuidado ao falar, este é um sangue azul. Certa vez, aquele mesmo jesuíta, amigo do meu senhor, ouviu-me parodiar as pragas de sangue azul proferidas pela nobreza. Ele tomou aquilo não somente como ofensa ao senhorio, mas também como blasfêmia. Acusou a mim e minhas seis companheiras de quarto de bruxas, convocou a Santa Inquisição, e fomos todas queimadas vivas em público. Antes das chamas consumirem meus lábios, esforcei-me para gritar: Vingança aos sangues azuis! Apesar da dor indescritível provocada pelo suplício da fogueira calcinando nossos corpos, renascemos das cinzas que tinham sido espalhadas pelas plantações para servir de esterco, sentíamos-nos diferentes, extremamente fortes, destemidas, mais vivas do que éramos, com poderes sobrenaturais, e com uma insaciável sede de sangue humano. Nossos dentes incisivos superiores cresceram e se tornaram pontiagudos. Só nos incomodava a luz do sol, uma horrível lembrança do fogo queimando e ardendo em nossos olhos. Como se estivéssemos com a mesma disposição e em sintonia, nós sete decidimos ficar sempre juntas e sair todas as noites, invadindo os aposentos de todos os nobres que encontrávamos em nossa região. Mordíamos suas gargantas e bebíamos seus sangues. Certamente, esperávamos que seus sangues fossem vermelhos, mas ao cravarmos nossos dentes em seus pescoços jorravam de suas veias sangue azul com agradável aroma e gosto de anis. Isso só podia ser um atendimento, não sei por parte de quem, ao meu pedido de vingança que fiz à beira de uma morte tão cruel e injusta. Logo toda nossa comunidade se deu conta do terror e das mortes que espalhávamos. Passaram a nos chamar de estriges, uma espécie de morcego hematófago que se alimenta de sangue de animais e, eventualmente, humanos. As vilas feudais começaram a nos perseguir. Reuniam-se e revezavam-se em mutirões, carregando todos os tipos possíveis de armas, e, temendo-nos, sempre mantinham seus pescoços protegidos por cobertores de lã bem grossa. Nós passávamos o dia inteiro escondidas debaixo da terra, e à noite saíamos no encalço dos nossos algozes azuis para chupar seus sangues. Os fidalgos que costumavam blasfemar contra Deus, aterrorizados, se trancafiavam todas as noites em seus aposentos, desde o por do sol até o dia nascer, dificultando nosso acesso a eles. Para saciar nossa sede, atacávamos nossos próprios pares, gente humilde do campo como fomos um dia. O sangue deles era vermelho como de todos os humanos.  O sabor não era tão bom quanto o azul. Era meio salgado, meio metálico. Tinha gosto de ferrugem, de metal oxidado. O mais importante é que sempre nos satisfazíamos e nos mantínhamos bem alimentadas por alguns dias. Aferramos-nos a este novo estilo de vida e não conseguíamos imaginar outra maneira melhor para se viver. Quanto mais tempo passava, mais gostávamos do que fazíamos, Atravessamos os séculos, nos tornamos imortais, e chegamos aos tempos modernos. A França já não tinha mais senhores feudais nem reis. Quem passou a dirigi-la foram o presidente, o primeiro-ministro e o presidente do senado. A persecução a nós, no entanto, não diminui. Ao contrário, intensificou-se. Eles passaram a usar armas de fogo contra nós, embora uma bala que nos atingisse não fizesse mal algum ao nosso corpo. Descendentes de gerações mais antigas ainda conservavam algumas superstições do passado, acreditando que podiam nos afastar com alho, ramos de roseira silvestre, crucifixos, os mesmos que nos fizeram beijar antes de fazer de nós tochas humanas, sementes de mostarda espalhadas no telhado das casas sagradas, rosários e água benta. Outros mais ingênuos, ainda acreditam que não conseguíamos pisar em chão sagrado, tal como o das igrejas e templos, ou atravessar água corrente, e que espelhos colocados em portas, virados para o exterior, pudessem nos frustrar. Os chamados entendidos em vampiros diziam que a única maneira de nos matar e acabar com nossa imortalidade era cravando uma estaca em nossos corações, como se algum humano pudesse nos subjugar. Um grupo de místicos franceses chegou ao cúmulo de trazer do Haiti para a França um bando de mortos-vivos, chamados zumbis, que saíam à noite para nos caçar. Mas eles não eram páreo para nós. Nos o dominávamos facilmente. Experimentamos o sangue deles, mas era horrível, coagulado de cor preta, de gosto putrefato. Acabamos com todos estes zumbis, mas eles nos trouxeram um problema. Eles acabaram chamando a atenção de um bando de demônios, soldados do diabo Lúcifer, que vieram ao nosso encontro e nos disseram que nutriam simpatia por nossa espécie e com nossa causa. Todos eles se identificavam por nomes: Belial, Leviatã, Belzebu, Legião, Pazuzu, Baal, e Satã. Nos convidaram a juntar-se a eles, mas com a intuição que adquiri como vampira, suspeitei que, na verdade, eles queriam nos escravizar. Recomendaram-nos uma conversão em demônios que, segundo eles, eram muito mais poderosos que os vampiros. Ofereceram-nos seus sangues. Eu fui eleita, naturalmente, pelas minhas outras seis companheiras, líder do nosso pequeno grupo. Tomei a dianteira e provei do sangue de um dos demônios e vomitei. Era ruim como a bílis, um líquido esverdeado, viscoso e amargo. Tentei persuadir os demônios que, embora os respeitássemos, eu e minhas seis companheiras vampiras preferíamos seguir nossas novas vidas como começamos, sozinhas e independentes. Queríamos descobrir até onde podíamos chegar antes de fazer alianças com outras criaturas. Imediatamente notei que os demônios não gostaram de minha decisão, se sentiram desafiados e não tive dúvida que eles realmente tinham muito mais recursos que nós, e estavam prestes a nos dominar por completo, entrando em nossos corpos. De repente, um enorme clarão de luz branca e ofuscante nos envolveu a todos, de tal modo que ninguém enxergava ninguém. Lenta e gradativamente a luz foi diminuindo em tamanho e intensidade, até reduzir-se à figura de uma mulher vestida de túnica e com os cabelos cobertos por um turbante. Nesse momento, todos os demônios haviam desaparecido. A mulher se dirigiu a nós como sendo a Virgem Maria, mãe de Deus na terra, e nos disse:
Minhas filhas, julgadas e condenadas injustamente e levadas a este infortúnio atormentador. Não pensem que Deus, nosso pai, descuidou-se de vocês. Ele sabe que vocês foram vítimas e as perdoa pelo que fazem. Ele me enviou para lhes dizer que, ao invés do sangue que vocês extraem de suas irmãs e irmãos e que os levam à morte, vocês devem beber da água viva que flui e comunica-se pela humanidade do Cristo. Eis que o Cristo lhes oferece um sangue transparente, inodoro e insípido. Aquela que beber da água que Cristo oferece não terá mais sede. Quem tiver sede que vá ao Cristo e desaltere. Como do rochedo de Moisés, a água jorra de seu seio e, na cruz, a lança fez correr sangue e água do seu flanco. Em nome do Pai, eu vos ofereço Fons Vivus, Ignis Caritas, Alitissimi Donum Dei. O Pai sendo a fonte, o Filho é denominado rio, portanto vocês beberão o espírito. Aquela que bebe desta água viva participa antecipadamente da vida eterna.
Ouvi aquela mulher atenta e respeitosamente, mas sua pregação só serviu para arraigar mais ódio em nossos corações, pois foi em nome desta água benta e do crucifixo simbolizando a morte deste Cristo que nos tiraram a vida, sem que tivéssemos cometido quaisquer pecados, quanto muito remedamos imprecações desavisadas dos aristocratas que diziam acreditar em Deus, mas constantemente blasfemavam-no. A mulher santa se foi e nós retomamos nossos caminhos e destinos. O cerco a nós aumentava cada vez mais. Nosso grupo estava marcado. Depois de muitos séculos, decidimos nos separar, pois em grupo nos tornávamos presas de identificação mais fáceis. Algumas partiram para o extremo Oriente. Outras para a África, para a América do Norte e para o Leste Europeu. Eu já resistia à luz do sol e já podia viver não somente da noite, mas do dia também. Decidi ir para um país tropical, de clima mais quente. Mudei-me para o Brasil. Continuei solitária como sempre fui com minhas companheiras, principalmente nos tempos que tínhamos que passar 12 horas dormindo a sete palmos. Minha sede de sangue continuava inalterada e levava-me a matá-la com mais frequência. Certa noite adentrei uma casa particular e no segundo andar deparei-me com um casal dormindo pacificamente. Fui para cima da mulher que tinha o rosto voltado para o meio da cama. Assim que me aproximei dela, ela acordou, virou-se para mim, encarou-me firmemente, e com um voz meiga me perguntou:
Posso ajudá-la?
A mulher não estava nem um pouco assustada com minha súbita presença. Não sorria e nem amarrava a cara. Tinha um olhar imparcial e uma beleza excêntrica e fora do comum. Seu rosto era branco como leite, levemente brilhante, meio perolado, e o resto era todo negro: cabelos, olhos e cílios deslumbrantes, camisola, e o mais insólito: ela usava batom negro para dormir, e em excesso, pois uma parte dele lhe escorria pelo seu queixo. Eu nunca falava com minhas vítimas, mesmo que elas me perguntassem algo. Mas no caso desta mulher uma força estranha me levou a perguntar-lhe:
Porque a senhora dorme de batom, ainda mais de cor preta, mórbido?
Para agradar meu marido!
O marido dormia um sono profundo. Roncava. Devia ser o tipo de maníaco que adorava fantasias sexuais. O fetiche dele era bem original. Nada de roupas de couro, salto alto, bota de cano longo, lingerie de seda, cinta-liga, meia 7/8, espartilho ou qualquer tipo de uniforme, como de enfermeira, colegial, marinheira, empregada ou policial. Parecia que ele se excitava somente com toda aquela pretidão, e o batom preto devia ser o auge de seu tesão. Pensei: uma mulher que se submete desta forma merece uma boa e profunda mordedura:
Sim, você pode me ajudar, sua vadia. Quero seu sangue!
A mulher nada falou. Calmamente colocou o rosto de lado e me ofereceu seu pescoço. Dei-lhe uma mordida mais forte que o normal, para doer muito, e, para meu espanto, a mulher manteve-se calada e tranquila, e ainda verteu sangue amarelo, suculento, doce, com gosto de pêssego, uma de minhas frutas favoritas. Fiquei extasiada e cismada. Afinal, que tipo de gente é essa com sangue amarelo? A mulher virou-se para mim e perguntou com a mesma meiguice:
Por que você está tão surpresa assim comigo e com meu sangue amarelo? Além do sangue humano vermelho, você já experimentou sangue azul, verde, preto e branco como água, e já lidou com vários tipos de criaturas: humanos, vampiros, zumbis, demônios e santas virgens.
Mas como você sabe tudo isso sobre mim? Você nem me conhece!
Eu leio a mente das pessoas!
Você é médium?
Não, não sou. Sou de outro mundo!
Claro!  Todas as pessoas que têm percepção extrassensorial se acham especiais.
Não sou especial. Sou de outro planeta!
Você está me fazendo rir pela primeira vez em séculos, sabia?. Vocês que têm um pouco de paranormalidade gostam de aparecer e impressionar as pessoas. Mas saiba que seu poder é muito limitado comparado ao meu. Certamente você está esperando que eu te pergunte de que planeta você veio, não é isso?
Vim de um aglomerado de sistemas solares desta galáxia onde os planetas são habitados apenas por mulheres.
É mesmo! – falei com ironia e resolvi brincar com ela – E como vocês procriam?
Através de clonagem!
Oras, clonagem! Como pude me esquecer disso? A maneira mais simples de procriação. E dispensa o sexo masculino. Até nós, humanos, já fazemos isso. Diga-me uma coisa: Todas as alienígenas são tão humanas assim como você? Embora eu reconheça que você tem uma beleza peculiar.
Sou uma alienígena transeunte!
Oras, que nome original! Você pode me  dar o privilégio de saber o que é uma transeunte?
Transeuntes são alienígenas que deixam seus planetas de nascença e perambulam pela galáxia sem residência fixa, e procuram viver de prazeres bem simples, típicos de espécimes bem rudimentares. Eu escolhi vir para cá, passar por humana, casar, constituir uma família, ter filhos...
Filhos? Como? Você acabou de dizer que procria somente através de clonagem! Vocês, médiuns, que gostam de nos impressionar, adoram humilhar seus semelhantes, gente comum, mas sempre caem em contradição. O que você faz aí com o maridão dado a fetiches e não para de roncar?
Nós não gostamos de fetiche. Eu sou assim mesmo, exatamente como você está me vendo. A pessoa que você vê em mim é a adaptação mais próxima da condição humana que alcancei. Eu faço amor com meu marido, engravidei e tenho dois filhos, uma menina de sete anos e um menino de 9 anos.
Pois é, se você consegue procriar somente através de clonagem, como você pode engravidar?
Dominique, assim te chamo porque leio seus pensamentos e sei que você é francesa e esse é teu nome. Dominique, sou uma pessoa extremamente comum. Só mesmo uma cientista do meu planeta poderia te explicar como minha gravidez é possível.
Então estamos às voltas com o velho dilema que resolvemos com o comodismo de sempre. Não sabemos como a vida surgiu em nosso planeta, então inventamos um ser supremo chamado Deus e atribuímos tudo a ele. E ultimamente estamos jogando o problema no colo de supostos alienígenas. Foram eles que nos criaram, mas não nos interessa saber quem os criou. Pronto, problema resolvido! E seus filhos, são extraterrestres, humanos ou meio a meio?
A combinação do meu DNA com o DNA humano só permite que nasçam humanos, normais, mas híbridos. Nunca poderão ter filhos. Morrerão como todos humanos morrem, mas terão uma vida feliz. E eu seguirei em frente.
O que é seguir em frente?
Sou imortal, mas meu marido e meus filhos não são. Quando eles morrerem, procurarei outro humano para casar e formar uma nova família.
Simples assim? Muita frieza, nenhum sentimento afetivo? Nenhuma saudadezinha? Você é adepta do adágio: rei morto, rei posto?
Nossos sentimentos são muitos diferentes dos sentimentos humanos. Para você começar a entender teria que viver alguns milhares de anos em meu planeta.
Qual é o seu nome?
Meu nome humano é Maria. Maria Madalena!
Só poderia ser! Médiuns cristãos adotam nomes bíblicos. Aposto que você é espírita. Qual é o seu nome em seu planeta, e também o nome de seu planeta.
Minha família humana é cristã, mas não tenho religião. Aliás foi aqui na terra que aprendi pela primeira vez esta abstração que vocês chamam de religião. E são tantas! Quanto aos nomes, Você jamais entenderia. Não usamos uma linguagem como os humanos. Emitimos sons com as cordas vocais. Os humanos têm dois pares de cordas vocais. O par superior é responsável pela vocalização, mas há humanos, como os Tibetanos, que conseguem vocalizar os dois pares ao mesmo tempo, o superior e o primário, e isto significa que eles conseguem falar dois idiomas humanos simultaneamente. Em nosso planeta nos comunicamos através de milhões de sons vocalizados por cerca de 200 mil cordas vocais, mas diferentes  das cordas vocais de vocês.  Dominique, acho que já falei demais sobre mim e não estou aqui para isso. Sei o que você veio fazer aqui e posso te ajudar mais se você quiser.
Ótimo, faça uma demonstração de mais truques de paranormais.
Quer experimentar outros tipos de sangue?
Oras, por que não!
Novamente, a mulher serenamente virou-se e ofereceu seu pescoço para mim. Dei-lhe uma boa mordida, e, para minha surpresa, de suas veias jorrou sangue roxo, com sabor de açaí. Inacreditável! Ela incentivou-me a continuar mordendo-a, e desta vez o sangue era alaranjado, com gosto de tangerina, muito saboroso. Como ela consegue fazer isso? Ela não parava de me oferecer seu pescoço. Experimentei mais de 30 tipos de sangue, de cores diferentes, cada um com gosto de uma fruta, todas deliciosas. Preto com gosto de jabuticaba, verde com gosto de abacate, vermelho com gosto de morango, rosa com gosto de romã, cor de vinho com gosto de uva Itália e muitos outros. Meu Deus, e fazia séculos que eu não proferia tal imprecação, como isso é bom!. Vou querer mais disso.
Maria, tem mais gente aqui como você capaz de produzir tantos tipos sanguíneos deleitosos?
Tem muitas, mas sempre que você sentir vontade venha me visitar a qualquer hora do dia ou da noite.
Não sei como você faz isso. O que importa é que é muito gostoso. Portanto, aceito seu convite. Mas diga-me, por que você está fazendo isso por mim?
Gosto muito dos humanos. Este planeta prima pela heterogeneidade. A diversidade aqui é riquíssima. Tem de tudo para todos os gostos. Só quero retribuir a você e outros humanos o prazer que este planeta me proporciona.
Já que você se dispõe a dar explicações sempre que lhe faço uma pergunta, diga-me outra coisa: como foi possível para mim morrer, renascer com poderes sobrenaturais, tornar-me imortal e não ter vontade nenhuma de comer, mas apenas sede de sangue humano?
Dominique, em meu planeta eu sempre tive uma quantidade infinita de perguntas, mas nenhuma das cientistas que estão hierarquicamente muito acima de mim jamais me respondeu uma única questão sequer. Então me cansei de tudo. Cansei da monotonia e do exclusivismo dos conhecimentos científicos e avanços tecnológicos de minha raça tão sectária e resolvi ir embora, me tornar uma transeunte. Vim para cá para viver de simples prazeres humanos: comer, beber, fazer amor, brincar com os filhos, nadar no mar, dormir muito e sonhar. Sou muito feliz aqui, assim como você é muito feliz na sua nova condição de humana ressuscitada, vampira e imortal, Cada uma à sua maneira, ao seu gosto.
E o que é felicidade para você?
É um alívio. É como se livrar de um peso enorme que aprisiona o corpo com uma gravidade mil vezes maior que a gravidade da terra.
Dá para ser mais específica do que isso?
Talvez só por analogia. Posso fazer uso de uma passagem de uma das várias mitologias humanas, uma cristã. Seria sentir-se como Maria Madalena depois que sete demônios saíram de seu corpo.
E no seu planeta? Há algum tipo de analogia que se aproxima desta terrena?
Você não entenderia.
Tente.
Está bem. Entre humanos há pessoas com personalidade dupla, e também com múltipla personalidade. Agora, imagine uma pessoa tendo que viver com milhões de personalidades, para todos os gostos. Isto é plausível quando a pessoa é imortal e tem toda uma eternidade pra viver cada uma delas até esgotá-las. Ainda assim, é preferível viver com uma única para toda a eternidade, como vivo aqui na terra. Entendeu?
Não.

video